Velocidade
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As 60 bandeiradas de um tri

postado em 17/08/2012 08:52

Hoje é dia de uma bandeirada especial para um dos maiores nomes do automobilismo brasileiro. Há exatamente seis décadas nascia, no Rio de Janeiro, o primeiro piloto do país a se sagrar tricampeão mundial de Fórmula 1, em uma carreira de muito trabalho, talento e um humor ácido nem sempre bem compreendido. Filho do médico Estácio Souto Maior, ministro da Saúde na década de 1960, Nelson Piquet não seguiu os rumos sonhados pelo pai, que queria vê-lo jogando tênis. Numa Brasília recém-inaugurada, mostrou uma capacidade de driblar os obstáculos e uma inteligência que se tornariam notórias.

O Fusca da mãe, Clotilde, e o sobrenome materno, com um leve ajuste para evitar suspeitas em casa (Piket), marcaram os primeiros passos de uma trajetória de conquistas, vitórias e alguns momentos de dor, como o grave acidente nos treinos para as 500 Milhas de Indianápolis de 1992. O garoto que preparava motores ao lado dos amigos Alex Dias Ribeiro e Roberto Moreno na oficina Camber hoje é o orgulhoso “comandante” de uma dinastia que conta com Nelsinho, na Nascar Truck Series; Geraldo, na F-Truck; Laszlo, no Supermoto; e o pequeno Pedro, em seus primeiros passos no kart.

O hoje bem sucedido empresário com investimentos no ramo automobilístico e de comunicação via satélite teve de driblar a falta de apoio familiar nos primeiros anos. Bicampeão brasileiro de kart, conseguiu patrocínio para vencer o Brasileiro de Super Vê (principal categoria de monopostos do país na década de 1970) e, para vingar na Europa, costumava dormir no pequeno furgão da equipe e se alimentava com sanduíches de mortadela para economizar dinheiro. Na esteira do sucesso de Emerson Fittipaldi, foi campeão inglês de F-3 em 1978, mesmo ano em que estrearia na F-1, com uma Ensign, na Alemanha, correndo ainda três provas com a McLaren semioficial do time BS Preparations.

Em meio a feras como Mario Andretti, Gilles Villeneuve, Jacques Laffitte, Niki Lauda, Jody Scheckter e Keke Rosberg, não demorou para que ele chamasse a atenção de Bernie Ecclestone, que o contratou para a Brabham. O primeiro ano, com o pesado e frágil motor Alfa Romeo, rendeu pouco, mas nas ruas de Long Beach, em 1980, viria a primeira das 23 vitórias. Também nos EUA, em Las Vegas, em 1981, a emoção do título, coroando a parceria com o projetista Gordon Murray.

Dois anos depois, ainda na Brabham, tornou-se o primeiro campeão com um motor turbo. Na Williams, a rivalidade com Nigel Mansell se tornou lendária – ele não poupou nem a mulher do britânico, chamada de feia sem qualquer rodeio. E se Frank Williams e Patrick Head sonhavam com um título do compatriota, Piquet soube se valer do apoio dos japoneses da Honda e, justamente em Suzuka, confirmou o tri, em 1987. A passagem pela Lotus, onde ocupou o posto que era de Ayrton Senna, trouxe poucas alegrias e justamente um problema mecânico com Mansell valeu o último triunfo, no Canadá’1990, com a Benetton, de onde saiu quando um certo Michael Schumacher começava a mostrar serviço. Nas Mil Milhas de 2006, viveu a emoção de correr e vencer ao lado de Nelsinho, em um Aston Martin DBR –em 2009 revelou a armação envolvendo o filho no GP de Cingapura (Nelsinho foi orientado por Flavio Briatore e pela cúpula da Renault a bater deliberadamente para favorecer o então companheiro Fernando Alonso).

REENCONTRO O vascaíno fanático viveu outro momento de grande emoção no GP do Brasil do ano passado, que marcou os 30 anos de sua primeira conquista. A Brabham Ford do título foi trazida por Bernie Ecclestone e, sob o olhar de alguns dos integrantes da equipe na época, como Charlie Whiting e Herbie Blash, hoje autoridades do circo, completou diversas voltas em Interlagos sob aplausos do público e o olhar do pequeno Pedro. Neste fim de semana, a principal homenagem virá de Nelsinho, que disputará as 200 Milhas de Michigan com um capacete que reproduz a primeira pintura usada pelo pai. “É curioso eu colocar de volta o Piket na pista para homenagear meu pai justamente com um artifício que ele criou para sua carreira de piloto não chamar atenção do meu avô”, se diverte o filho.

ENQUANTO ISSO...
Recado a Massa
O diretor geral da Ferrari, Stefano Domenicali, deixou claro que a equipe ainda não se decidiu quanto à permanência de Felipe Massa para o Mundial de F-1 de 2013 e mandou um recado ao brasileiro, que soma apenas 25 pontos, contra os 164 do companheiro Fernando Alonso. Segundo o dirigente, o futuro de Massa depende de seu desempenho nas nove corridas restantes. “Ele sabe o que fazer: tem de melhorar sua performance ao nível que sabemos que é capaz. Precisamos de pontos para vencer o Mundial de Construtores e ajudar Fernando a ser campeão. Felipe tem pela frente corridas muito importantes para seu futuro como piloto e integrante do time”. Em pesquisa feita pelo site da revista italiana Autosprint, ele é o último na preferência dos leitores para formar dupla com Alonso, com 7% dos votos. Kimi Raikkonen encabeça a lista, com 28,2%.

OUTROS TEMPOS

Testemunho de um eterno menino
Outro dia éramos meninos. Falávamos três ou quatro palavras e não havia como fugir do ronco dos motores, das vitórias, das ultrapassagens espetaculares e das mulheres: “Vocês viram que o Ayrton (Senna) desfilou com essa menina em Mônaco e duas semanas depois ela estava lá em casa?”. Referia-se a Katherine Valentin, mãe de um de seus filhos. Durante mais de uma década, tive o privilégio de viver os seus sonhos. Irreverente, ciumento, brincalhão e vencedor . Eu o admirava ao vê-lo dizer: “Vou ganhar este GP”, referindo-se ao da Itália, em Monza, em 1983”. Foi uma de suas grandes vitórias. “Viu que eu cheguei próximo a 400km/h? Estou voando como avião”. Insuperável “Serei o maior da história da F-1”, garantia em 1986, depois do GP da Austrália, vencido por Alain Prost, que conquistava o bi. Suas frases eram para arrancar manchetes e entusiasmar todos que estavam próximos. Ele ama a velocidade como um menino que ganha um brinquedo, assim como os amigos, que fazia questão de incluir em seu show longe das pistas. Um dia pegou um barco anexo ao seu iate, colocou uma velocidade impressionante e seu prazer foi observar o meu espanto no trajeto de Mônaco a Nice. Ria quando o barco batia nas ondas, ameaçava virar e voava. Parabéns, Nelson. Agora, você é vovô, mas seus sonhos e os nossos são eternos. (Antônio Melane)