DA ARQUIBANCADA

Em nome de todos os Fredericos: valeu, xará!

Um dia, entrei no Independência e vi a torcida do Galo gritar Fred

postado em 15/04/2017 12:00 / atualizado em 15/04/2017 10:38

Juarez Rodrigues/EM/D.A Press

Sempre tive dúvida sobre esse nome: Fred. Soa meio estranho, misto de Fred Astaire com Fred Krueger, acrescido de Fred Rincón e Fred Zero Quatro. Jamais o cogitaria para um filho, tampouco para um cachorro, ainda mais que o basset da minha chefe no Estadão chamava-se justamente Fred – e ela fazia questão que isso ficasse bem claro quando falava ao telefone: “Lugar de Fred não é no sofá”, “Fred precisa tomar banho”, “Fred já saiu pra fazer cocô?”

O gato da minha vizinha também se chama Fred, coitado. Mas coitado mesmo sou eu, que me chamo Fred por causa do Lacerda, aquele golpista. Carlos Frederico, na verdade. Fred é apelido. Com D mudo, é preciso avisar, ou fatalmente virará Fredi, Fredy ou Freddy. Pra ficar bem com Freud, que é quase Fred, digo sempre que meu nome advém de Karl Marx e Friedrich Engels. Não é de todo mentira: o Carlos Frederico do Lacerda homenageia Marx e Engels, como todos os Carlos Fredericos do mundo.

Quando Fred surgiu para o futebol, pensei comigo: só falta jogar no Cruzeiro. Não deu outra. Além de eu ser Fred, além de eu ser uma homenagem ao Lacerda, além de eu soar um misto de Fred Astaire e Fred Rincón, o Fred do América foi jogar no time do dia seguinte das minhas tigelas de açaí, também conhecido como time do barro preto. Que merda, diria Marinho. Que bosta, diria Riascos. E como desgraça pouca é bobagem, virou ídolo não apenas do Cruzeiro mas também do Fluminense. CBFlu. Fred ladrão de título em 2012, Fred inscrito na dívida ativa da Série B.

Quando fui trabalhar na revista Playboy, meu primeiro emprego no jornalismo, quis assinar as matérias como Carlos Frederico Melo Paiva. Na primeira entrevista que fiz, perguntei a uma coelhinha da seção “Gatas & Coelhinhas” qual era seu hobby. “Teclado”, ela me respondeu. Escrevi então que Fulana “tocava órgão”, de modo a não confundir com o teclado do computador. Fui informado pela chefia que mulher nenhuma em Playboy deveria “tocar órgãos” (do que depreendi ser esta uma exclusividade do leitor). Fui informado também que meu nome era grande demais, e deveria ser reduzido a Fred Melo Paiva. “Fred Melo Paiva?”, perguntou o diretor de Veja quando fui trabalhar lá (tenho essa mancha no curriculum vitae). “Parece nome de colunista social de quinta categoria”. Sim, faltava alguma coisa pra chegar a Amaury Jr. E meu homônimo jogava no Cruzeiro...

Por anos a fio tive de conviver com isso: Lacerda, Fred Astaire, Fred Krueger, Freddy. “Colunista social de quinta categoria”. O basset da minha chefe. O gato da minha vizinha. Aí veio a Copa do Mundo no Brasil, e não bastasse o Fred ser ídolo do Cruzeiro e do Fluminense, ele agora vestia camisa da CBF. Coxinha. Com muito orgulho, com muito amor. Em vez de engrandecer o diminuto apelido, transformou-o em sinônimo de cone. Cone Melo Paiva. Nada é tão ruim que não se possa piorar.

De repentemente Fred veio jogar no Galo. Ao que parece, um desejo antigo de seu pai, torcedor fanático do Atlético, essa redundância que sabemos bem. Fontes fidedignas dão conta de que ele próprio, Fred, possuía um pulgão da Galoucura tatuado no braço – e que teria sido obrigado a apagá-lo quando seu curriculum vitae foi jogado na lama, quer dizer, no barro preto.

Eu odiava o Fred. Via o Tibete Azul cantar o seu nome, e levava aquilo para o lado pessoal: era comigo, faziam isso pra me atazanar. Fred. Por que não fui nascer um reles Rodrigo, um Marcelo desses tantos que existem por aí, até um Johnatan, um Maicosuel? Mas basta ao cidadão vestir o manto sagrado e ele está automaticamente perdoado de todos os pecados. A camisa do Atlético é a hóstia da missa, a capivara morta, o reset do computador: vestiu, é vida que segue, é daqui para a frente. E o que passou, passou.

Um dia, entrei no Independência e vi a torcida do Galo gritar Fred. Estufei o peito e a veia do pescoço e também gritei, me lixando por legislar em causa própria: “FRED!!! FRED!!!”. Ali, no solo sagrado do Horto, onde já havia exorcizado tanta coisa, exorcizei também o Lacerda, o basset da minha chefe, o Amaury Junior piorado. Fred é chefe, né, pai? Com seus quatro gols diante do Sport Boys, eu o vi finalmente envergar a 9 de Ubaldo, Dario e Reinaldo. Eu vi nascer um ídolo de verdade, uma história de amor pra valer – e o protagonista disso, que sorte, se chama Fred. Agora posso finalmente botar meu nome numa camisa do Galo. Em nome de todos os Fredericos do mundo, te agradeço: valeu, xará!

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