DA ARQUIBANCADA

O vilão dos sonhos

Ser goleiro é assumir o papel de vilão. O Darth Vader dos campos. Sua única função é destruir sonhos alheios

postado em 15/03/2017 12:00 / atualizado em 15/03/2017 08:54

Washington Alves/Light Press/Cruzeiro
Sempre fui um perna de pau nas peladas. Treinei judô, natação, handebol, mas nunca me aventurei profundamente no futebol. Sabia que não daria muito certo. Afinal de contas, uso óculos desde os 5 anos. Descobri logo cedo que para participar das peladas teria que me contentar na zaga ou optar pelas luvas. É difícil ver uma criança dizer que prefere jogar no gol. Normalmente, querem ficar do meio de campo pra frente. Na imprensa, a maioria das matérias é dedicada aos fazedores de gols. Qual foi o último produto que você viu um goleiro anunciando? Este departamento é totalmente dominado pelos matadores e aniquiladores de adversários.

Ser goleiro é assumir o papel de vilão. O Darth Vader dos campos. Sua única função é destruir sonhos alheios. É uma opção de vida. Como atleta é um observador privilegiado, sendo exigido em poucos momentos e sem a chance de errar. Nesse ponto ser atacante é muito fácil. Fica tentando o tempo todo e se marcar apenas um gol é elevado ao Olimpo, quase como um deus. Nunca fui muito fã dos heróis. Prefiro personalidades sofisticadas como o Loki, irmão do Thor, ou o Charada, do Batman. Uma zaga lenta, um meio de campo mal posicionado ou um atacante que não volta para marcar são fatores que aumentam a responsabilidade do nosso último defensor. Dificilmente nos lembramos de grandes defesas. Não existe pedir música no Fantástico para as três melhores defesas.

Existem poucas vantagens em ser goleiro. Uma delas é ter uma carreira mais longeva. Normalmente, um bom time prefere atacantes jovens e goleiro experiente. O inverso dificilmente dá certo.

Um dos casos mais interessantes sobre goleiros está no livro do Raul. Quando o Cruzeiro foi para a Alemanha jogar a primeira partida do Mundial de Clubes, em 1976, o Sepp Maier, goleiro do Bayern, enviou de presente para o nosso guarda-metas um par de luvas apropriadas para jogar na neve. Acho que este tipo de solidariedade só se vê entre os donos desta posição.

Só o anúncio da volta do Fábio aos gramados já aqueceu as inevitáveis comparações. Estamos esperando de camarote o início da disputa por uma posição já ocupada por nomes como Dida e Gomes. O Rafael já mostrou que o tempo de espera por uma oportunidade foi muito bem aproveitado. Talvez tenha chegado a hora de o pupilo ocupar o lugar do mestre. Ainda demora um pouco para o nosso Mago Menezes tomar esta decisão tão difícil. Quem sabe ele não consegue uma solução mágica? O Barcelona, por exemplo, revezou os goleiros durante um bom tempo.

Como diz o mestre Jorge Benjor, “Eu vou lhe avisar, goleiro não pode falhar, não pode ficar com fome na hora de jogar, senão é um frango aqui, um frango ali, um frango acolá”. A gente já não gosta de galo, muito menos goleiro frangueiro.

O importante neste caso é que estamos muito bem servidos. Que seja uma disputa justa e que vença o Cruzeiro.

Tags: rafael fábio goleiros cruzeiroec