TIRO LIVRE

É preciso dar a cara a tapa

Joanna é um exemplo raro, muito raro, de atleta. Crítica, ela não abaixa a cabeça, não se omite, luta explicitamente pelas causas

postado em 07/04/2017 12:00 / atualizado em 07/04/2017 18:48

Satiro Sodre/AGIF


Talvez o esporte brasileiro nunca tenha estado envolto em tanta lama como nos tempos atuais. Não que os conchavos entre cartolas sejam uma doença do novo século, mas talvez mais pelo fato de a sujeira estar vindo à tona com mais frequência. Na Fifa, foi preciso que o FBI entrasse na jogada para investigar o alto escalão, que fazia tranquilamente suas traquinagens no confortável QG em Zurique, na Suíça  – e levar a reboque barões do futebol brasileiro, embora apenas José Maria Marín, ex-presidente da CBF, já tenha, de fato, sofrido alguma consequência. E o que não falta é gente na fila, merecendo sua vez. Ontem, o impacto foi em solo nacional, mais precisamente nas piscinas. A prisão de Coaracy Nunes, que por 28 anos presidiu a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), caiu como uma bomba para muita gente, nadadores inclusive. Menos para uma pessoa: a pernambucana Joanna Maranhão, praticamente uma voz solitária entre os atletas da modalidade na briga contra os desmandos e pela transparência na entidade.

Nenhum nome expressivo da natação brasileira lutou tanto contra a perenização de Coaracy Nunes, e tudo o que ocorria nos bastidores, como Joanna Maranhão. Muito atleta de destaque se calou durante esse processo todo. Talvez por medo de se comprometer, de ficar sem patrocínio, de perder prestígio. Só ela dava a cara a tapa, e pagou um alto preço por isso. “Diziam que eu era cri-cri, que brigava à toa”, desabafou ontem a pernambucana, em uma rede social. “Todos os atletas que botavam bonezinho dos Correios, que falem com a imprensa, deem o seu testemunho. Estou absurdamente aliviada, chocada também, achava que esse dia não ia chegar nunca. Tem 11 anos que estou esperando por isso. E chocada com a omissão da comunidade aquática, embora fosse algo que eu já deveria esperar.”

Primeira nadadora brasileira a chegar a uma final olímpica (em Atenas’2004, quando tinha 16 anos), dona de temperamento forte, Joanna não se calou, e assim ela é em relação a qualquer assunto, com qualquer pessoa. Não se furta a falar de política, religião, comportamento social... Debate com quem discorda da opinião dela, troca ideias com quem concorda, se expõe, não tem vergonha, nem medo de se posicionar.

Por tudo isso, Joanna é um exemplo raro, muito raro, de atleta – e isso se aplica a praticamente todas as modalidades. Crítica, ela não abaixa a cabeça, não se omite, luta explicitamente pelas causas, da categoria e da população em geral. Sabe fazer valer sua popularidade. Puxe aí na memória quantos jogadores de futebol se manifestaram a respeito da sujeira na Fifa. E na CBF? Pouquíssimos, apenas os que integram o movimento Bom Senso FC, fundado em 2013 e que fez algum barulho nos gramados brasileiros, mas que anda sumido do cenário nacional ultimamente.

Depois da prisão de Coaracy Nunes e de outras duas pessoas pela Polícia Federal (PF), acusados de fazer parte de um esquema de desvios de recursos públicos repassados à CBDA, alguns nadadores e dirigentes até se manifestaram. Mas pisando em ovos, muito distantes da maneira incisiva que a gravidade do caso pede.

Ainda estão na mira de investigação da PF por um esquema de fraude que pode superar a casa dos R$ 22 milhões as confederações de esgrima, tiro com arco, taekwondo (Carlos Fernandes, presidente, já foi até afastado), tiro esportivo, além de associações como a Brasileira de Voleibol Paralímpico e clubes que patrocinam atletas olímpicos.

E não é só. A Confederação Brasileira de Basquete está afundada em dívida de R$ 17 milhões e as seleções brasileiras de todas as categorias suspensas de competição, abacaxis que o novo presidente da entidade, Guy Peixoto, que assumiu mês passado, precisa descascar.

A crise é generalizada. Os atletas, principais interessados nas causas, precisam sair da sombra, tomar partido e se posicionar a respeito do que está acontecendo. Até porque, no fim das contas, é sobre os ombros deles mesmos que recairá todo o peso.

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