À sua maneira particular, dona Maria Stella foi uma estrela. Mulher forte, à frente do seu tempo, mas discreta, simples. Em meados do século 20, com 39 anos, assumiu uma gravidez de risco que, àquela época, era mais de risco ainda. Deu certo (há controvérsias...): nasci e estou aí até hoje. Dois anos depois meus pais se separaram e ela criou os filhos sozinha. Moramos em diversas cidades do interior mineiro e também em São Paulo, em 1954, quando a Pauliceia comemorou seus 400 anos. Desembarcamos em Belo Horizonte em 1957, ano em que o América foi campeão, e passei a fazer parte da melhor torcida da cidade. Mas a dona Stella não. Ela tornou-se atleticana "doente".
A música foi uma de suas paixões. Apreciava especialmente sambas-canções, tangos e boleros. Por razões que só ela sabia, tinha 32 discos com 32 gravações diferentes de La Cumparsita. Cantava esse tango pelo menos uma vez ao dia, todos os dias. Nunca tomou uma Coca-Cola, não gostava de televisão e bebia uma xícara de café para dormir. Aos domingos, quando o seu time jogava, ouvia a transmissão pela Itatiaia, com o radinho de pilha com capa de couro preta colado a um dos ouvidos. Ganhando ou perdendo, ao fim da partida eu já sabia: ela gritava "Galo!".
Habitávamos uma casa simples, classe média baixa. Nas casas ao lado, luxuosas, moravam famílias cruzeirenses, sendo que um dos patriarcas era conselheiro dos azuis. Não guardei o nome dele para informar, mas durante anos minha mãe atleticana levou deliciosas fatias de bolo de fubá para os vizinhos cruzeirenses, trazendo de volta brevidades ou saborosos docinhos de leite em pedaços. Convivência pacífica, na esportividade, que a paixão clubística não impedia.
Nunca fomos de soltar foguetes, mas quando o Atlético vencia, minha mãe ia até a janela da frente e, feliz, gritava muitas vezes: “Galoooo! Galoooo! Galoooo!” Os cruzeirenses exageravam no foguetório quando a vitória era do seu time. Dona Stella então se entristecia e tapava os ouvidos com chumaços de algodão. Acho que não adiantava, pois certamente o barulho era muito superior ao improvisado tampão, mas nunca a vi reclamando. Ela apenas dizia: "Eles que aguardem o próximo jogo".
Morreu em 19 de maio de 2002, sem saber que, 10 anos depois, seu time do coração enfrentaria o time do coração de seu segundo filho em uma decisão do Campeonato Mineiro. Mas, esteja onde estiver, estará em paz, convivendo com todos, pois foi assim que viveu os seus 91,5 anos.
No Dia das Mães de 2012, quando o Atlético conquistou o título mineiro derrotando o América, tenho certeza de que ela sorriu e gritou “Galooo!”, mas também sofreu um pouquinho, triste com a infelicidade do seu filhinho sessentão. Assim como em seu cotidiano muitas pessoas ainda precisam aprender a conviver com as diferenças, também no futebol muitos torcedores precisam aprender a considerar o torcedor de outro time como adversário e não como inimigo. Futebol é esporte, não é guerra.
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