RSS Twitter Contato

Minha Conta:

Esqueceu a senha?
Paulo Vilara
  • (0) Comentários
  • Votação:

De mau humor

Paulo Vilara - Estado de Minas

| Tags: celular 

Publicação:

29/06/2012 08:41

Não tem mais bolinho de feijão no Independência. Acabaram com a tradição, o sabor apimentado e o prazer de degustar dois ou três engorduradinhos com cerveja gelada nas arquibancadas. Nem isso existe mais: agora são cadeiras em filas apertadas. Os torcedores mal-educados, e são muitos, ficam de pé sobre elas, e sinto vergonha desses caras.

O fim do bolinho de feijão no Independência é apenas mais uma das ações de destruição de um estilo de vida que vai ficando para trás. Foi assim com o fim dos bondes, dos trens e dos lotações (ônibus menores do que os atuais). Cada lotação tinha um dono e ele mesmo era o motorista. Quando morei na Vila Melo Viana (também não existe mais), encravada entre a Cachoeirinha e a Renascença, para ir e voltar da escola, gostava de pegar o lotação nº 2, do seu Zé, grande figura. Aos 9 anos, subia e descia com o veículo em movimento, aventura deliciosa. Seu Zé apenas diminuía a velocidade e, quando eu entrava, nos cumprimentávamos: “Bom dia, Paulinho”; “Bom dia, seu Zé”.

O fim das coisas se acelerou com a extinção do comunismo (oficial) na URSS e em seus países satélites. Já havia concentração de renda, mas o predomínio capitalista a aprofundou e o dinheiro ficou ainda mais nos bolsos de poucos, pouquíssimos. Se cada lotação das linhas de ônibus pertencia ao motorista que o conduzia, hoje em dia os milhares de ônibus que circulam em Belo Horizonte – e em todas as médias e grandes cidades brasileiras – são propriedade de meia dúzia de empresas. Tenho certeza de que são essas empresas, monopólio do atraso, que impedem a construção de um metrô de qualidade em BH: poder econômico é fogo! E os trabalhadores, amassados nos ônibus que nem sardinha em lata, que se danem a R$ 2,65 por cabeça. Situação ultrajante.

Aconteceu o mesmo com os pequenos armazéns e farmácias de bairros, nos quais você conhecia os donos e eles também o tratavam pelo nome, quando não pelo apelido. Você comprava, anotava em cadernetas e o acerto era feito no dia 10 do mês seguinte. Sempre na confiança, no sorriso, no papo amigo, sem estresse. Com o tempo, os pequenos armazéns e farmácias foram engolidos por empresários milionários e distantes, proprietários de grandes redes de supermercados e de drugstores (yes, man, we are Brazilians). Tudo muito clean. Eca!

Mas há algo que resiste: os botequins na periferia. Esses jamais serão incorporados por redes de fast food ou de bares e restaurantes chiques, pois mesmo que nos governos Lula e Dilma milhões tenham ascendido socialmente, os pobres ainda são muitos e apreciam uma cachacinha barata e o molho das almôndegas para fazer o “pão molhado” – ler o conto Festa, de Wander Piroli: em poucas linhas, alta literatura e emoção pura.

E tem mais: prefiro o Independência antigo, com bolinho de feijão, a esse novo todo pomposo, mas com 6 mil lugares cegos (quanta incompetência!) e sem bolinho de feijão. Quero que a BWA e o capitalismo massacrante se explodam!

Comentar notícia

Verificando informações

Esta matéria tem:

(0) comentário(s)

Não existem comentários ainda


Blogs e Colunas