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Acarajé, três gols no Cruzeiro e folclore: Obina relembra tempos de Galo e América

Sem clube, centroavante bate longo papo sobre momentos marcantes em Minas Gerais, briga no Palmeiras, comparação com Eto'o e muito mais

postado em 31/03/2017 06:30 / atualizado em 31/03/2017 12:09

Jorge Gontijo/EM
Bolo de feijão fradinho frito no óleo de dendê acompanhado de vatapá, vinagrete, camarão e pimenta a gosto. A mistura de ingredientes que dá forma ao tradicional prato baiano gerou muito aborrecimento em um dos centroavantes brasileiros mais goleadores e querido por onde passou. Ele, entretanto, é muito mais que as antigas polêmicas que ligavam o gosto por acarajé à forma física contestável.

"Cara, eu, como baiano, não tenho como não gostar. É como o mineiro que não gosta de tropeiro ou de pão de queijo. É o que digo: o respeito tem que existir sempre. O importante é fazer gol e deixar os torcedores felizes”, diz Obina em entrevista ao Superesportes.

Atualmente sem clube após deixar o futebol japonês por conta de uma grave lesão, o centroavante realmente fez muitas torcidas sorrirem. Ex-Atlético e América, o folclórico jogador de 34 anos também teve passagens marcantes por Vitória, Palmeiras e Flamengo.

Voltou a Salvador para tratar da lesão no tendão do tornozelo e, claro, reencontrar os amigos, a família e a culinária de que tanto gosta. Em fase final de recuperação, já vislumbra voltar a jogar futebol.

“É um período difícil da minha carreira por estar machucado. Se me perguntar se tô me sentindo bem para dois ou três anos, digo que estou. Força e vontade para treinar igual a qualquer outro moleque eu tenho”, diz.

Fase alvinegra

Jorge Gontijo/EM

Em Minas Gerais, Obina ficou marcado por ter feito três dos quatro gols do Atlético na vitória por 4 a 3 sobre o Cruzeiro, em clássico disputado em 2010. O que poucos sabem, entretanto, é que o atacante não aparentava estar na melhor das fases na véspera do jogo.

“No rachão, eu estava errando todos os gols, e a galera ficava me zoando. O Dorival [Júnior, treinador do Atlético na época] disse: ‘Hoje está desequilibrado’. Quando chegou no jogo, estava equilibrado. Foi marcante chegar em Uberlândia e fazer três gols num estádio todo cruzeirense”, lembra o jogador, que defendeu o clube alvinegro por uma temporada.

No Atlético, Obina se especializou em marcar muitas vezes numa mesma partida. A vitória por 7 a 0 sobre o Juventus, do Acre, pela Copa do Brasil, teve impressionantes cinco gols do centroavante. A atuação histórica, entretanto, não o poupou das críticas do técnico Vanderlei Luxemburgo.

“Cheguei no vestiário todo feliz depois do jogo, e o Vanderlei me deu uma dura incrível. Me perguntou: ‘Você acha que está bom isso? Tomou cartão amarelo por encobrir o goleiro depois que o lance já estava parado. E ainda deixou o Muriqui bater um pênalti que era seu’. Era a chance de eu ser o primeiro jogador a fazer seis gols num mesmo jogo da Copa do Brasil”, conta.

As grandes atuações com a camisa alvinegra eram uma forma de retribuir, segundo Obina, o carinho da torcida.

“Tenho lembrança do Atlético principalmente pela recepção que tive no aeroporto. Eu nunca fui tão bem recebido. A torcida do Galo é muito calorosa, te dá vontade de jogar. São diferenciados”, diz.

Pelo Atlético, Obina disputou 39 jogos em 2010 e marcou 27 gols, sendo o artilheiro do elenco naquela temporada.

Fase americana

Juarez Rodrigues/EM

Obina voltaria a Minas Gerais três anos mais tarde. Desta vez no América, viveu, como de praxe, um período artilheiro: marcou 20 gols em 50 partidas e comandou a equipe na campanha da Série B de 2014.

“Quando cheguei, parecia que estava jogando no América há muito tempo. Apesar de não ter tanta torcida, é gostoso, eles são fiéis, estão ali com você. Foi um dos meus melhores momentos, já mais maduro”, diz.

O bom momento individual, entretanto, veio acompanhado de uma notícia ruim para o time. A polêmica escalação irregular de Eduardo tirou pontos do então líder América na Série B.

“Foi difícil. Empatamos com o Sampaio Corrêa e, depois do jogo, falaram que estávamos na zona de rebaixamento. Mas como? Não é possível. Depois, nós, os mais experientes, acalmamos o elenco… Apesar disso, brigamos pelo acesso e saímos com a sensação de dever cumprido”, relembra.

Obina deixou o América rumo ao Japão. E, pouco mais de dois anos depois, não nega que adoraria retornar ao clube.

“Não tive sondagem. Se tivesse, ia pensar bem e iria com maior prazer, gosto de jogar em Minas”, diz, ao também destacar o respeito e o carinho ao Atlético.

Fora de MG

Marcia Feitosa/VIPCOMM

Obina também conquistou as torcidas de Vitória, Flamengo e Palmeiras. No Rubro-Negro baiano, despontou no cenário nacional. Mas foi no carioca que o centroavante ganhou destaque internacional. E a folclórica comparação permanece até hoje.

“Eto’o era um ídolo do Barcelona, e eu era comparado com ele, sendo brincadeira ou não. Eu sei que ele é melhor que eu. Mas vem um Maracanã lotado com 50 mil pessoas falando que eu sou melhor que o Eto’o. Quem sou eu? Mas é uma brincadeira legal, saudável”, diz.

Deixou o Flamengo para reforçar o Palmeiras em 2009. Comandou o ataque do time que liderava o Campeonato Brasileiro. Após muitos gols - inclusive em clássico contra o Corinthians -, protagonizou um momento que fez o cenário da competição mudar.

Durante jogo contra o Grêmio, trocou socos com o companheiro de time Maurício e foi expulso.

“Tenho uma decepção de quando fui para o Palmeiras, aconteceu a briga e rescindi contrato. Talvez, se fosse hoje, eu não faria, não me estressaria tanto, apesar de que o futebol é assim. Foi besteira dos dois, eu já falei com ele. Depois daquilo tudo viramos mais amigos”, conta.

LUCAS UEBEL

A íntegra

Defender Bahia e Vitória, vergonha no Japão e mais acarajé. Leia a íntegra da entrevista de Obina ao Superesportes.

Como você avalia suas passagens por Minas Gerais?

“Me proporcionou coisas boas. Tenho respeito, amor pelo América, pelo Atlético. Não tive sondagem. Se tivesse, ia pensar bem e iria com maior prazer. Gosto de jogar em Minas. São times que não pensaria duas vezes, independentemente de divisão e situação, com certeza jogaria.”

Quais suas principais lembranças do Atlético?

“Tenho lembrança do Atlético pela recepção que tive no aeroporto. Eu nunca fui tão bem recebido. Graças a Deus consegui retribuir isso dentro de campo. Marcante para mim foi chegar em Uberlândia e fazer três gols com um estádio todo cruzeirense. Foi bom trazer a alegria para pessoas que me buscaram no aeroporto.”

Com a camisa do Atlético, você fez três gols contra o Cruzeiro. Como foi esse momento para você?

“No rachão, eu estava errando todos os gols, e a galera ficava me zoando. O Dorival [Júnior, treinador do Atlético na época] disse: ‘Hoje está desequilibrado’. Quando chegou no jogo, estava equilibrado, fiz os três gols muito rapidamente. Criei oportunidades, tudo mudou. Na saída do hotel, teve uma palestra com um major do BOPE, e aquilo motivou muito a equipe. Não teve outra. Ganhamos de 4 a 3. Foi marcante chegar em Uberlândia e fazer três gols num estádio todo cruzeirense.”

Também pelo Atlético, você marcou cinco gols no jogo contra o Juventus-AC. Quais são suas lembranças daquele jogo?

“Cheguei no vestiário todo feliz depois do jogo, e o Vanderlei me deu uma dura incrível. Me perguntou: ‘Você acha que está bom isso? Tomou cartão amarelo por encobrir o goleiro depois que o lance já estava parado. E ainda deixou o Muriqui bater um pênalti que era seu’. Era a chance de eu ser o primeiro jogador a fazer seis gols num mesmo jogo da Copa do Brasil. Até hoje ninguém fez. Depois caiu minha ficha, mas já tinha passado.”

Numa entrevista, o Alexandre Kalil, ex-presidente do Atlético, disse que o primeiro grande erro dele no comando do clube foi te negociar. O que você achou dessa declaração? Como era sua relação com o Kalil?

“Muito boa. Acho que foi um dos melhores presidentes com quem trabalhei. O Kalil falou que não me liberaria, e eu também tinha essa esperança de ficar. Mas como era um investimento do banco, o banco queria retorno. O time chinês (Shandong Luneng) chegou, pagou a multa e tive que ir. Não tinha como dizer não. Tinha minha família, tinha que ver a condição financeira para meus familiares. Se fosse por minha parte, eu ficaria com certeza. Vivi um momento muito bom. Não saí com brigas e nem mágoas, o torcedor me aplaude. São coisas que marcam.”

Você gostaria de ter ficado no time do Atlético, então?

“Sempre fica com o gostinho de quero mais. Mas quem joga no Atlético sabe que fica o gostinho. A torcida do Galo é muito calorosa, te dá vontade de jogar. São diferenciados. Sou meio meio suspeito para falar.”

Quais suas principais lembranças do América?

“Quando cheguei, parecia que estava jogando no América há muito tempo. Apesar de não ter tanta torcida, é gostoso, eles são fiéis, estão ali com você, isso é bacana. Foi um dos meus melhores momentos, já mais maduro, me senti super bem.”

Sua passagem pelo América foi um dos melhores momentos de sua carreira?

“Acho que sim. Porque quando você está mais maduro, você cria espaços melhores, você tem mais cadência na hora de se colocar dentro da área, de finalizar. Foi um momento maravilhoso. Hoje, é um número de gols que fiz no América é alto. Tenho o maior carinho.”

Como você e o elenco do América receberam a notícia de que o time perderia pontos na Série B de 2014?

“Foi difícil. Empatamos com o Sampaio Corrêa e, depois do jogo, falaram que estávamos na zona de rebaixamento. Mas como? Não é possível. Depois, nós, os mais experientes, acalmamos o elenco… Apesar disso, brigamos pelo acesso e saímos com a sensação de dever cumprido. Até a última rodada brigamos. Seríamos campeões da Série B daquele ano.”

Rodrigo Clemente/EM/

Qual a situação da sua carreira atualmente?

“Atualmente, estou sem clube. Meu início no Japão foi muito bom. Meu primeiro ano foi inesquecível, num país diferente, com cultura diferente. Fui muito bem recebido. Cumpri a meta que estabeleci. Meu time [Matsumoto Yamaga] era novo. Fiz o primeiro gol do time na Primeira Divisão, então entrei, de certo modo, para a história do clube. Foram anos maravilhosos. Depois veio a contusão, rompi o tendão do tornozelo e tive que fazer cirurgia. Rescindi e vim para o Brasil, para Salvador. Já passaram dois, três meses da cirurgia. Estou em processo de transição para o campo, recuperando a parte que atrofiou.”

Como está sua recuperação? Perto de voltar?

“Recuperar em um clube é diferente. Os profissionais estão tratando bem de mim, dando treinamentos, eles trabalharam comigo no Vitória. Estou bem melhor. Tenho que estar bem para ter um clube. Recebi ligações de clubes, mas não tinha condições, alguns treinadores com quem eu trabalhei ligaram também. Lá para o meio do ano devo voltar.”

Você está se recuperando em Salvador, bem perto de onde você nasceu. Tem visitado muito a Ilha de Itaparica?

“É um período difícil da minha carreira por estar machucado. Mas me aproxima dos meus filhos, da minha esposa, da minha mãe, dos meus irmãos. Itaparica é meu paraíso tropical, é onde gosto de estar. É bom para dar uma acalmada, ver amigos e família, que é de lá.” Foi onde eu nasci, aprendi a respeitar as pessoas. Dá uma paz no coração. Procuro sempre ir lá.

E essa história do acarajé? Comparar seu gosto pelo prato com o seu peso te aborrecia?

“Cara, eu, como baiano, não tenho como não gostar. É como o mineiro dizer que não gosta de pão de queijo ou de tropeiro. Mas é o que digo: respeito tem que existir sempre. Se não vem para me magoar, eu levo sempre na boa. O importante é chegar e jogar dentro de campo. De férias, tem que se cuidar. Mas ficamos o ano todo fazendo dieta. Férias é o mês que tem livre, e depois nos recuperamos. Quando acaba excedendo, mas você pode recuperar e que você vai sofrer. Então não adianta. O importante é se conscientizar que o jogador tem direito a férias, a ir para churrascaria, comer o que quiser, independentemente se está de férias ou não. Se o time perdeu, tem que respeitar mesmo. Mas o time ganha, você vai na churrascaria e te criticam mesmo depois de um grande jogo. É uma coisa íntima, não tem por quê reclamar. O importante é fazer gols e deixar as pessoas felizes.”

Na época de Flamengo, os torcedores começaram a brincar ao te comparar com o Eto’o. Quais suas lembranças daquele período?

“Eto’o era um ídolo do Barcelona, e eu era comparado com ele, sendo brincadeira ou não. Eu sei que ele é melhor que eu. Mas vem um Maracanã lotado com 50 mil pessoas falando que eu sou melhor que o Eto’o. Quem sou eu? Mas é uma brincadeira legal, saudável”

Você acredita que os momentos em que o peso não era ideal e até mesmo o folclore que existe sobre seu nome te atrapalharam? Você poderia ter construído uma carreira na Seleção?

“Acho que sim. Tem coisas que as pessoas levam muito na brincadeira. Tive oportunidade até que eu machuquei, aí complicou um pouco mais. Tive momentos muito bons em que até pediram que eu estivesse na Seleção. Tinha outros jogadores em momentos bons, talvez não cheguei por causa disso. Fico triste por mim, mas feliz pelo outro que foi.”

Qual a maior decepção da sua carreira?

“Tenho uma grande decepção de quando fui para o Palmeiras, aconteceu a briga e rescindi contrato. Talvez, se fosse hoje, eu não faria, não me estressaria tanto, apesar de que o futebol é assim. Foi besteira dos dois, eu já falei com ele. Depois daquilo tudo viramos mais amigos.”

E a maior alegria?

“Foi ter proporcionado muitas vezes alegria aos torcedores de Flamengo, Atlético, Vitória, Palmeiras, Bahia, América, no Japão… Por onde eu passei, dei o meu melhor. As pessoas falam que sou carismático, mas sou tranquilo. Procurava fazer meu melhor para agradar as pessoas.”

Divulgação

Como foi a adaptação ao Japão ao deixar o América? Foi mais fácil ou mais difícil que se adaptar à China e à Arábia Saudita?

“Foi muito mais fácil que nos outros países. Além de ser muito educado, o japonês é mais na dele, mais reservado. Quando eles gostam, são solidários. A cultura é maravilhosa, de muito respeito. Aprendi muito, levo comigo e passo para meus filhos. A adaptação à comida foi boa, eu já comia comida japonesa no Brasil. Tinha muito brasileiro lá também, isso me ajudou. Tinha feijão, arroz, todos os tipos de carne. Mas também teve uma situação engraçada lá. Na apresentação, tinha de 5 mil a 6 mil torcedores no teatro. Eu estava aprendendo a falar o básico do japonês. O tradutor, então, me mandou falar algumas palavras para a torcida. Fui memorizando. Na hora de falar, todo mundo começou a prestar atenção e eu esqueci o que era para falar. Até então,eu estava bem, disse que me chamava Obina. Mas quando chegou a parte que eu tinha que falar “vou me esforçar”, eu travei. Não consegui falar nem em português. Todo mundo me aplaudiu e eu saí. Pensei: “Porra, já chego fazendo isso” (risos). Eu travei. Apesar de tudo, fiz os gols e conquistei a torcida.”

Você também fez três gols no Corinthians, quando defendia o Palmeiras. Que lembranças você tem desse jogo?

“Imagina encarar o time que tinha Ronaldo, Roberto Carlos. Era um grande time. Nós chegamos em Prudente de ônibus, às 5h da manhã no dia do jogo, que começava às 16h. Foi inesquecível.”

Qual sua lembrança marcante no Flamengo?

“Tem várias. Chegar no Maracanã com estádio lotado, saber que fui feliz em vários momentos, fiz gols importantes, ganhei Copa do Brasil, Campeonato Carioca, torcida gritando meu nome.”

Como foi defender o Bahia anos depois de fazer história no Vitória?

“Olha, foi difícil, não foi fácil não (risos). Eu tinha começado no Vitória e, até hoje, sou o artilheiro do Vitória em Série A… Então tinha muita cobrança. Eu tinha que fazer gols para compensar isso, sabendo que meu pai torce para o Bahia. A responsabilidade aumentava. Fiz o meu melhor, joguei pouco no Bahia, mas fiz meus gols.

Paulo Filgueiras

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