Atlético

ENTREVISTA

Desempregado e sem espaço no Brasil, Toninho Cerezo admite voltar ao exterior

Ex-jogador critica as condições dos treinadores no Brasil

postado em 17/02/2017 10:00 / atualizado em 17/02/2017 10:23

 Ramon Lisboa/EM/D.A Press
Um dos volantes mais técnicos do futebol brasileiro, Toninho Cerezo, de 61 anos, já está há um ano e meio sem dirigir uma equipe – desde que deixou o Kashima Antlers, em 2015. Multicampeão no Japão e à espera de nova chance, ele não descarta a possibilidade de voltar ao Oriente neste ano e critica as condições dos treinadores no Brasil, cuja manutenção do trabalho está atrelada aos resultados em campo, além do calendário apertado. “Aqui se caminha para ter quatro jogos por semana”, reclama o ex-volante, que hoje dedica o tempo livre a assistir a jogos pela TV, viajar e cuidar de seu sítio em Belo Horizonte. Ele valoriza o aprendizado no Japão e nos Emirados Árabes, mas destaca a qualidade dos profissionais brasileiros, ainda respeitados no mundo. Em um bate-papo com o Estado de Minas/Superesportes, Cerezo também fala do Atlético, da condição dos volantes atuais e do trabalho de Tite na Seleção.

Você está há um ano e meio fora do futebol. Tem vontade de dirigir um clube? Existem dificuldades?
Minha vida é voltada para o futebol. Pelo fato de ter trabalhado fora do país por quase 15 anos, temos dificuldade de entrar no mercado nacional. As coisas vão mudando. Tive oportunidade de fazer um curso na CBF, em Teresópolis. Há uma grande quantidade de jovens no mercado e a concorrência é grande. Você tem que ter entrada em determinados clubes, e isso é normal no Brasil e fora também, mas sou acanhado nesse sentido. Por isso, minha participação é maior no exterior.

Você ganhou vários títulos no Oriente, mas não teve carreira sólida no Brasil. Qual o motivo?
Tive poucas oportunidades de mostrar meu trabalho no Brasil. No Japão, fiquei oito anos e meio. Nos Emirados Árabes foram mais três anos. Depois trabalhei na Arábia Saudita. Em todas as equipes, ganhei títulos e fui feliz. Quando tenho chance, trabalho. Tenho participado de cursos e visitado clubes para me manter atualizado. Estive na Itália (no Sampdoria) quatro vezes para observar o dia a dia deles. Para mim, não importa o lado financeiro. Gostaria de estar dentro do campo.

EM DA PRESS
Prefere o mercado nacional ou o exterior?
Não tenho preferência. O campo é a mesma coisa, a medida é a mesma. Logicamente que na Ásia o trabalho é mais duradouro. Aqui não há estabilidade e fazer milagre ninguém faz. No Brasil, se caminha para ter quatro jogos por semana. Não há tempo para treino. Depois, há a série de viagens. É difícil. Se houver qualquer problema tático na equipe, não tem como treinar. E não conseguimos manter a equipe o ano todo jogando. A exigência é grande.

O Levir Culpi disse que aprendeu muito no período em que esteve no Japão em relação à organização do trabalho e à educação. Você deve ter a mesma visão...
No Japão, o que aprendemos realmente é o extracampo. É a programação das atividades, o respeito ao profissional e cada um no seu setor. Você aprende a trabalhar para quem te contrata. Tive a felicidade de ir para um grande clube, como o Kashima Antlers, um dos mais antigos. Quem me proporcionou essa chance foi o Zico. Tive uma trajetória boa lá e aprendi muito. Mas a bagagem do campo que nós, brasileiros, temos é enorme. Não só na experiência de formação, mas também sobre táticas. Não ficamos devendo a nenhum outro país.

Teme a instabilidade no cargo caso assuma um clube do Brasil?
Estou no futebol há 30 anos e vou ter medo? Não. É um absurdo. Você assina um contrato no Brasil e, se perder duas partidas, é demitido. Alguns treinadores costumam brincar que nesse pacote vem que você é burro e que, se não vencer, está fora. É a mentalidade brasileira. Enquanto isso, a mentalidade na Europa dá sinal de grandes trabalhos de técnicos. Aqui, se ganha competições e depois perde um jogo, o profissional é dispensado. Não consigo entender essa filosofia. Campeonatos se ganham ou se perdem, não há outra alternativa. Nos clubes que conseguem manter um treinador ou uma base de nove jogadores por cinco ou seis anos a probabilidade de resultados bons é maior.

EM DA PRESS
Como você tem visto o Atlético em 2017?
Por ser torcedor, sempre acompanho a equipe. Não conheço o Roger, mas, por ser o treinador do Atlético, deve ter feito coisas boas e deve ser capaz. Torço para que seu trabalho dê certo. Pelo que eu conheço da filosofia dos treinadores do Sul, uma coisa é nata: o Atlético está matando todas as jogadas. O time perde a bola e mata a jogada. Até pensei que quem deveria assumir era o Diogo Giacomini, da base, que substituiu o Marcelo Oliveira no ano passado. Tiraram um treinador na véspera de uma final da Copa do Brasil; deveriam tê-lo mantido no cargo em Porto Alegre. O Diogo é jovem e imaginei que permaneceria para dar sequência ao trabalho. Mas contrataram o Roger.

Por conhecer bem tanto Atlético quanto São Paulo, você concordou com a saída do Lucas Pratto?
Ele não é jogador para ser reserva do Atlético. Nem ele e nem o Fred. Temos que colocar os melhores do time. Gosto dos dois, mas prefiro ambos atuando na área.

Os times têm optado por volantes modernos, com facilidade para sair jogando. Essa mudança lhe agrada?
Os volantes de hoje têm de ser versáteis. É fácil ensinar qualquer jogador a marcar, o difícil é fazê-lo jogar. Fazendo a leitura do jogo corretamente, eles podem entrar na área perfeitamente, até porque o avanço da preparação física permite isso. É muito normal um jogador correr 15 quilômetros em um jogo. No caso do Atlético, o Roger tem a possibilidade de usar dois jogadores técnicos, Rafael Carioca e Elias. No ano passado, havia o Donizete, que tinha a cara do Atlético. Para o coletivo, era fantástico. Mas infelizmente ele foi para o Santos. Agora, quem vai surpreender é o Danilo, que pode evoluir muito. Ele tem uma qualidade boa, que é o chute de fora da área. Jogando com uma torcida como a do Atlético e com companheiros de qualidade pode surpreender. Nenhum jogador tem a finalização que o Danilo tem.

EM DA PRESS
Como tem visto a Seleção sob o comando do Tite?
Gosto muito da filosofia do Tite. Eu o conheci no período em que estávamos nos Emirados Árabes. Eu dirigia o Al-Shabab e ele comandava o Al-Wahda. Ele cresceu muito, é um cara capaz e está fazendo grande trabalho. Torço por ele, principalmente eu que trabalho muito fora. Se a Seleção estiver bem, as portas se abrem para os treinadores do Brasil.

Antônio Carlos Cerezo
(Toninho Cerezo)


Nascimento:
21/4/1955, em Belo Horizonte
Posição: volante
Clubes como jogador: Atlético (1972 a 1973,1975 a 1983, 1996 e 1997); Nacional-AM (1973/1974); Roma (1983 a 1986); Sampdoria (1986 a 1992); São Paulo (1992/1993); Cruzeiro (1994); Lousano Paulista (1995); São Paulo (1996) e América (1996)
Títulos: Mundial de Clubes (1992 e 1993); Copa Libertadores (1993); Supercopa (1993); Recopa Sul-Americana (1992 e 1993); Campeonato Italiano (1990/1991); Supercopa da Itália (1991); Copa da Itália (1988 e 1989); Campeonato Paulista (1992); Campeonato Mineiro (1976, 1978, 1979, 1980, 1981, 1982, 1983 e 1994); Taça Minas Gerais (1975, 1976 e 1979) Copa dos Campeões (1978); Copa Centenário (1997)
e Campeonato Amazonense (1974)
Clubes como treinador: Atlético (1999 e 2005); Vitória (1999 e 2012); Kashima Antlers (2000 a 2005 e 2013 a 2015); Guarani (2005); Al-Hilal-ASA (2006/2007); Al-Shabab (2008/2009); Al Ain (2009/2010) e Sport (2010)
Títulos: Campeonato Japonês (2000 e 2001); Copa do Imperador (2000); Copa da Liga Japonesa (2000 e 2002); Copa Suruga (2013) e Campeonato dos Emirados (2007/2008)

Tags: entrevista cerezo porondeanda cruzeiroec americamg