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Coração dividido

Um ex-atacante verá o jogo entre time celeste e Deportivo Itália de maneira diferente: Dirceu Pantera, que atuou nos dois clubes

Paulo Henrique Lobato - Estado de Minas

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Publicação:

10/03/2010 07:00

 

Atualização:

22/04/2010 10:10

Quando Deportivo Itália e Cruzeiro entrarem no Estádio Olímpico, em Caracas, amanhã a noite, para a abertura da terceira rodada do Grupo 7 da Copa Libertadores, o coração de um mineiro de Leopoldina (Zona da Mata) ficará dividido. Dirceu Francisco, conhecido como Dirceu Pantera, de 74 anos, tem bonita história nos dois clubes. Tricampeão mineiro pelo time da Toca, de 1959 a 1961, quando estava prestes a aposentar as chuteiras, foi campeão nacional pelo clube da Venezuela, em 1966.

O ex-camisa 9, que mora no Bairro Dom Bosco (Região Noroeste de BH), começou a carreira “meio por acaso”. “Eu morava no interior e, em setembro de 1957, fui convidado pelo Elmo, ex- jogador celeste, para um teste no clube. Aceitei, pois era a chance de realizar o sonho de conhecer a capital. Seria passear e voltar para minha terra, onde trabalhava numa oficina mecânica. Tanto é que pedi ao patrão licença de 15 dias”.

Mas Dirceu Francisco – o nome completo é este mesmo – virou Dirceu Pantera, graças ao técnico Aírton Moreira, e não voltou para a Zona da Mata: “Cheguei terça-feira e, na quarta (dia 19), fiz o teste num amistoso contra o Democrata, de Sete Lagoas, na Alameda. Perdemos por 4 a 2, mas marquei os gols do Cruzeiro e me contrataram”, recorda o ex-atleta, hoje um dos vigias do Mineirão: “Minha função é não deixar o torcedor que comprou ingresso para um setor passar para outro”.

Daquele jogo em diante, Pantera deslanchou e, em um clássico contra o Atlético, fez um dos gols mais bonitos do Independência: encobriu o goleiro, num chute do meio-campo. “O zagueiro William estava batendo muito na gente. Então, depois de receber um passe no círculo central, pensei em chutar a bola no rosto dele. Só queria acertá-lo, mas errei o alvo. O chute foi tão forte que a bola foi ao gol e encobriu Marcial”.

As boas atuações de Pantera despertaram o interesse do Botafogo, que o contratou por oito meses. No clube da Estrela Solitária, Dirceu foi reserva de Amarildo, campeão com a Seleção na Copa de 1962, no Chile. “Aquele time era cheio de craques. Ainda tinha o Manga, o Garrincha, o Nílton Santos, o Zagallo.... Era difícil disputar uma vaga, mas fiz boas partidas quando entrei”. De volta ao Cruzeiro, jogou até 1964, antes de seguir para o Villa Nova e o América.

“Em 1966, o Elmo, que havia me levado para o Cruzeiro e que jogava no Deportivo Itália, me convidou para encerrar a carreira na Venezuela. Aceitei”. Na terra de Hugo Chaves, ele se sentiu em casa. O clube, fundado pela colônia italiana e cujo uniforme é azul e branco, havia contratado uma legião de brasileiros. Outros seis jogavam ao lado de Dirceu e Elmo. “O regulamento permitia nove estrangeiros”, recorda o ex-atleta, que disputou a Libertadores de 1967 pelo Deportivo.

Dois jogos daquela edição foram justamente contra o Cruzeiro, que, naquele campeonato, fez sua primeira partida internacional. A primeira vítima foi o Deportivo Galícia: o time da Toca venceu com um gol de Evaldo. O segundo jogo foi contra Pantera e seus companheiros, que perderam por 3 a 0 – gols de Evaldo e Tostão (2). Em BH, o placar contra o Deportivo foi mais elástico: 4 a 0 – Piazza (2), Vicente e Natal.

Dirceu sente saudade do tempo em que atuou fora, mas recorda que a vida de jogador no país vizinho não era fácil. Sequer havia preparador físico (o treinador, o também brasileiro Orlando Fantoni, acumulava as duas funções). Os atletas ganhavam peso rapidamente, pois o cozinheiro do clube, um italiano, adorava servir macarrão. “Parece que foi ontem”, diz Pantera ao lado da mulher, Maria da Glória Augusto Francisco, de 69. Em dezembro, o casal, que tem cinco filhos e seis netos, completou bodas de ouro.

TABELA COM A SORTE Dirceu Pantera não contou quantos olés deu no adversário, mas o maior drible de sua carreira ele jamais vai se esquecer. Foi no início da manhã de 13 de setembro de 1967, quando atuava pelo Deportivo Itália. O adversário, porém, não foi nenhum zagueiro. Até mesmo porque ele estava de férias no Brasil. O ex-atleta fez uma inesquecível tabela com a sorte e perdeu o ônibus-leito 1.510 da Viação Cometa, que partiu do Rio, com destino a Belo Horizonte, e despencou, às 6h20, do Viaduto das Almas, no quilômetro 592 da BR-040 (naquela época BR-3).

O acidente deixou 13 mortos, entre eles a atriz Zelinha Marinho, que apresentava o programa Roda Gigante na extinta TV Itacolomi, e os pais do pianista Nelson Freire. “Nem acreditei quando fiquei sabendo do desastre. Perdi o ônibus, porque cheguei cinco minutos atrasado na rodoviária do Rio”, recorda Dirceu.

Acompanhe o vai e vem de jogadores nos principais times brasileiros

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