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Entrevista

Odir Cunha: "Não se pode analisar o passado com os olhos do presente"

Autor do dossiê entregue à CBF para a unificação dos títulos brasileiros explica a polêmica sobre os 14 títulos oficializados, além da brecha aberta para outras competições

Cassio Zirpoli - Diario de Pernambuco

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Publicação:

19/12/2010 16:21

 

Atualização:

19/12/2010 16:29

Arquivo pessoal
Odir Cunha, paulista de 58 anos. Há 34 ele se dedica ao jornalismo e aos livros esportivos. Em 2009, recebeu a ´missão` de produzir um estudo para comprovar os títulos brasileiros do passado. Pesquisou, redigiu e editou o ´Dossiê pela Unificação dos Títulos Brasileiros a partir de 1959`, com 14 horas de trabalho por dia. Deu resultado, pois a CBF deverá homologar as conquistas ainda neste mês. Nesta entrevista concedida ao repórter Cassio Zirpoli, do Superesportes, Cunha fala sobre o trabalho desenvolvido e como a polêmica só tende a aumentar com as brechas deixadas para clubes que venceram outras importantes competições do passado.

Como surgiu a ideia de produzir um dossiê sobre a história dos antigos campeonatos nacionais?

Como escritor e muito interessado em futebol, eu já tinha feito várias obras. Fiz biografias e livros com a história do Santos na era Pelé, que engloba boa parte da vitoriosa história do Santos. Quando o Santos e os outros cinco campeões (da Taça Brasil e do Robertão) quiseram contratar alguém, falaram comigo. Eu já tinha boa parte da pesquisa há dois anos, pois sempre guardei tudo o que saiu de notícia sobre isso. Quando o livro foi apresentado, a minha preocupação foi comprovar que as duas competições eram oficiais e que davam o título de campeão brasileiro e a vaga à Taça Libertadores.

Quais foram os principais passos na produção do estudo?

Consegui testemunhas da época, com depoimentos de jogadores, além de uma importante entrevista com o doutor João Havelange, ex-presidente da Fifa, que na época era o presidente da CBD (ele ficou à frente da entidade de 1956 a 1974). Pouca gente se dá conta, mas foi a CBD, e não a CBF, o órgão que criou o atual Brasileiro, em 1971 (a CBF assumiu o comando do futebol em 24 de setembro de 1979). A parte mais difícil foi falar com Havelange, que estava reticente em se envolver com a CBF, pois Ricardo Teixeira (atual presidente) é seu ex-genro. Mas ele concordou e gravou a entrevista, assegurando o peso das competições. E ainda deu uma declaração forte: ´Se essas competições foram realizadas pela CBD, atual CBF, é porque foram oficiais e precisam ser respeitadas.`

Como o senhor analisa a resistência de parte da imprensa e dos torcedores à unificação?

Desde o início eu percebi que haveria uma grande resistência da imprensa e busquei descobrir as criticas a essa unificação. Fui atrás dos documentos e fiz o trabalho com apoio de José Carlos Peres, superintendente do Santos. De cara, muitos chamam isso de 'virada de mesa'. Esses títulos são oficiais, de uma época de ouro do nosso futebol, com três títulos mundiais da Seleção (1958, 1962 e 1970), no auge de jogadores como Pelé (Santos), Garrincha (Botafogo), Ademir da Guia (Palmeiras) e Tostão (Cruzeiro). Virada de mesa seria se esses 14 títulos não não fossem reconhecidos. Até a entrega do dossiê à CBF (em 10 de novembro deste ano) nós fizemos painéis de duas horas para jornalistas, explicando tudo e distribuindo resumos do documento. Fizemos um no salão nobre do Palmeiras e outro no Fluminense. Os jornalistas de São Paulo e do Rio, que hoje não aceitam a unificação, talvez não saibam que eles trabalham em jornais que no passado deram manchetes chamando esses clubes de campeões brasileiros.

Alguns dos pontos discutidos são em relação à equiparação dos torneios, já que muitos apontam a Taça Brasil como a atual Copa do Brasil , enquanto o Robertão teria o formato da Série A. Com a unificação, os anos de 1967 e 1968 teriam dois campeões, pois ambos foram realizados. Qual é a sua opinião sobre isso?

Atualmente a Copa do Brasil é a segunda competição mais importante do Brasil. Ela não foi criada para rivalizar com o Brasileirão, mas para ser uma segunda competição nacional. É muito diferente do que ocorreu com a Taça Brasil, que era a mais importante do país quando foi criada. E foi a competição com a melhor participação do futebol brasileiro. Logo na primeira edição da Taça Brasil, em 1959, no ano em que país que tinha apenas 20 estados, 16 deles foram representados. Ou seja: 80% dos estados lutaram pelo título. Hoje, com 27 estados, só temos nove na Série A. No dossiê nós não entramos no merito de 1967 (quando o Palmeiras ganhou os dois campeonatos) ou 1968. Mas, sendo reconhecidos todos os campeões, há o precedente para isso. Não vejo problema algum. Em São Paulo durante 11 anos tiveram dois campeões. No Rio de Janeiro isso aconteceu oito vezes. Em 1979 a federação carioca organizou dois campeonatos cariocas, e o Flamengo ganhou os dois. Nunca houve polêmica por causa daquilo. E ainda tem o Rio-São Paulo, que chegou ao cúmulo de ter quatro campeões. Essa contestação é inócua.

Outro ponto discutido é em relação ao número de jogos dos campeões. Para ser pentacampeão da Taça Brasil, de 1961 a 1965, o Santos só jogou 24 partidas...

Sei que criticam a Taça Brasil pelo número de jogos, mas o que distingue uma competição não é o número de partidas ou a forma de disputa, mas sim a finalidade. A Taça Brasil foi criada para definir o campeão brasileiro. Muitos clubes brasileiros colocam a estrela do título mundial na camisa. Mas jogaram quantas vezes? Antigamente, o Mundial era apenas um jogo, e nunca ficou em xeque por isso. Não se pode analisar o passado com os olhos do presente. Não havia estrutura aeroviária para muitos jogos. A ponte aérea Rio-São Paulo, o maior tráfego entre aeroportos do país, só foi inaugurada em 1959. O Brasil tem uma dimensão continental e isso atrapalhou a integração. Você sabe quantos jogos o Genoa disputou na Itália para ser campeão em 1898? Apenas dois. E tem o mesmo peso da temporada 2010, porque lá eles respeitam a história.

Por que só agora, 51 anos depois da primeira Taça Brasil, é que a CBF poderá oficializar as conquistas?Não houve interesse dos clubes anteriormente?

Houve uma pressão maior agora porque os clubes se uniram. Além disso, alguns dos craques daquela época hoje tem 70 anos, ainda sem o reconhecimento da CBF. Era preciso reconhecer isso logo. A CBD instituiu o atual campeonato nacional em 1971 pressionada pelo governo militar, que queria acelerar a integração do país. Mas o criterio esportivo foi esquecido e o político cresceu através da Arena (o partido militar). Tanto que o Brasileiro começou com 20 clubes e foi ampliado até 94, em 1979. Havia até a piadinha na época: 'Onde a Arena vai mal, um time na nacional. E onde vai bem, mais um time também'. O campeonato mudou de Robertão para 'Campeonato Nacional de Clubes' para dar uma ideia de integração nacional. Por sinal, o nome mudou dez vezes até hoje. O que hoje chamamos de 'Campeonato Brasileiro' foi adotado somente em 1989. É bom destacar que o formato sempre mudou de 1971 a 2003.

Após a notícia da unificação, na última segunda-feira, muitos clubes viram brechaspara oficializar outras competições interregionais organizadas pela CBD, além das duas citadas no dossiê. Você acha que essa unificação poderá abrir mesmo um precedente?

Existem alguns detalhes que precisam ser adotados com cuidado. Alguns torneios tiveram relevância regional, ou até além disso. O Torneio Rio-São Paulo tinha os melhores times, mas acho que você não poderia fazer um Campeonato Brasileiro só com uma região. O Cruzeiro venceu a Taça Brasil de 1966 e provou isso, tanto que o Rio-São Paulo foi ampliado, virando o Robertão em 1967. Estamos fazendo um bem ao futebol brasileiro. O pessoal de Minas Gerais já me perguntou sobre o Torneio dos Campeões de 1937, vencida pelo Atlético-MG. Ali, uma boa pesquisa pode dar um bom resultado. Porém, não posso dar uma resposta sem pesquisar no arquivo da CBD. Outros pesquisadores vão trabalhar em cima de outras competições, como o Torneio Norte-Nordeste, e vamos enriquecer a história. Mesmo que esses torneios não venham a ser reconhecidos como Nacional, mas já estarão valorizados, lembrados. O futebol do Nordeste tinha um nível técnico muito mais forte na época, é verdade. Ganhou uma Taça Brasil e foi vice outras vezes (com o Náutico, em 1967). É preciso documentar tudo. Eu prezo o senso de justiça.

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