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O goleiro que parou Beckenbauer

Ademar relembra encontro do Náutico com os galáticos do Nova Iorque Cosmos, em 79

Yuri de Lira - Diario de Pernambuco

| Tags: celular 

Publicação:

10/07/2012 08:35

 

Atualização:

10/07/2012 12:38

Yuri de Lira/DP/D.A Press
Ademar hoje em seu apartamento no bairro dos Aflitos, ostentando camisa da época
Sete de março de 1979. Uma quarta-feira. Oito horas da noite. Começava nessa data, dia e horário uma das grandes partidas do Clube Náutico Cabibaribe. Não acarretou na conquista de nenhum título. O Timbu sequer venceu. A história do duelo, aliás, é pouco conhecida do grande público, inclusive daqueles alvirrubros mais ávidos pelo clube. O time pernambucano enfrentou nada menos que o Nova Iorque Cosmos, uma das agremiações de futebol mais ricas da época. Os norte-americanos contavam com jogadores de alto escalão. Carlos Alberto Torres, Marinho Chagas, Chinaglia, Romerito, Neeskens, Beckenbauer... um elenco de assustar qualquer um.

A equipe de Conselheiro Rosa e Silva, formada basicamente por jogadores da base, teve de encarar tantos atletas consagrados internacionalmente. O confronto aconteceu em Trinidad e Tobago, em uma excursão que os timbus fizeram no Caribe, Europa e Oriente Médio. O resultado do embate terminou em 0 a 0. A pressão, no entanto, foi grande. Um verdadeiro bombardeio na meta vermelha e branca. O goleiro Ademar acabou sendo o herói do Náutico. Salvou da iminente derrota e virou protagonista do jogo. Depois do apito final, o "Kaiser" Beckenbauer fez questão de cumprimentá-lo. Fato que o arqueiro guarda até hoje na memória. Paraibano de Itabaiana, Ademar mora atualmente no Recife - cidade que adotou como a sua casa. Aos 57 anos, lembra com nostalgia do dia que marcou a sua vida.   

A excursão

Por intermédio do empresários sueco Borg Lantz e pelo brasileiro Hélio Pinto, o Náutico agendou, no início de 1979, uma excursão que percorreria três continentes, em que os alvirrubros iriam jogar um total de sete partidas. A primeira parada era justamente em Trinidad e Tobago. A princípio, os jogadores não gostaram da ideia, como relata o escritor e pesquisador Carlos Henrique Meneses, no seu livro No Coração do Tempo. "Todos 'chiaram' bastante do roteiro da viagem. Mais parecia um ônibus 'pinga-pinga', saindo de Recife, fazendo escalas e conexões em Fortaleza, São Luiz, Belém, Manaus, Caiena e chegando em Port of Spain, capital de Trinidad, no dia 6 de março, véspera do primeiro jogo". A excursão, que contabilizou 30 horas de viagem, teria rendido ao Náutico quase R$ 10 mil, nos valores atuais. Ademar relembra as peripécias aprontadas pelos jovens atletas alvirrubros, como uma que envolveu o ponta-esquerda Carlos Alberto Rocha na Arábia Saudita. "Carlos Alberto era muito brincalhão. Saia mostrando um calendário de mulher nua que ele tinha para os muçulmanos. Eles ficavam doidinhos, correndo, se escondendo, com receio de uma coisa simples para nós, mas ofensiva para a cultura de lá", conta.

Fifa
Beckenbauer foi campeão mundial pela Alemanha, em 74, e virou ícone do futebol
Nova Iorque Cosmos
A equipe ianque estava invicta na excursão pela América Central. Havia vencido com folga as três primeiras partidas que jogou. Teria então o Náutico pela frente. O Cosmos ostentava vários craques no plantel, maestrados pelo alemão de 34 anos Franz Beckenbauer - cortado da Copa do Mundo do ano anterior por ser considerado "acima da idade". Na meia, Neeskens, do Carrosel Holandês, e o paraguaio Romerito, ídolo no Fluminense. O centroavante era o italiano Giorgio Chinaglia, artilheiro e campeão italiano pela Lázio em 1974. Sem contar com o capitão do tri do Brasil em 1970, Carlos Alberto Torres. Segundo o ex-goleiro Ademar, os alvirrubros não tinham nem noção do que teriam pela frente. "Íamos jogar contra a seleção de Trinidad e Tobago. Mudaram o adversário de última hora. Quando soubemos que era o Cosmos, achamos que era algum time pequeno, regional, sem expressão", diz. "Ainda no ônibus, no caminho do aeroporto para o hotel de Port of Spain, soubemos que time realmente era. Já estávamos preparados para tomar uma goleada histórica", completa.     

O jovem Náutico de 79

Comandados pelo técnico paraguaio Juan Perez, a média de idade do time alvirrubro era baixissima. A maioria dos jogadores foi formada nas divisões de base dos Aflitos. O mais experiente era o meio-campo Didi Duarte, hoje treinador de futebol. Eis a escalação do escrete timbu na ocasião: Ademar; Clésio, Dimas, Pinheirense e Carlos Alberto Rocha; Didi Duarte, Paulinho e Jairo Mendonça; Jonas; Campos e Marquinhos. "Era um grupo muito bom", avalia Ademar.

Arquivo pessoal
Goleiro Ademar (vestindo camisa escura) e a jovem equipe do Alvirrubro, em 1979

Cosmos x Náutico
Os norte-americanos pressionaram os recifenses durante praticamente toda a partida. Apesar da discrepância técnica, houve igualdade no quesito pancadaria. Ademar conta que o defensor Pinheirense passou o jogo inteiro batendo em Chinaglia. Mais experiente, o italiano deu-lhe um pontapé com 30 minutos do primeiro tempo e tirou o alvirrubro de campo. A lesão, inclusive, acabou sacando o atleta da excursão. A missão de evitar uma goleada era de Ademar. E evitou. Ele ainda conta com emoção a defesa "milagrosa" que fez depois de uma cabeçada de Chinaglia (vídeo abaixo). Para o ex-atleta, a mais difícil do jogo. Quando soou o silvo do apito, parecia que o Náutico havia se sagrado campeão, segundo descrição de Carlos Henrique Meneses. "Todos festejaram de maneira efusiva o feito histórico (...) os alvirrubros receberam a ilustre visita de Marinho (Chagas), que fez muita festa ao reencontrar o ropeiro Araponga e o massagista Miro. Marinhho presenteou cada um deles com camisas do Cosmos, distribuiu abraços e fez questão de dizer das saudades que sentia no início de sua carreira no Náutico, em 71 e 72."



As saudações de um Kaiser
Os vestiários do pequeno campo na capital tobaguenha eram próximos. Oportunidade para os jovens jogadores do Náutico darem aquela tietada nos "galáticos" do Nova Iorque Cosmos. Não precisou. Aconteceu ao contrário. O jogador mais proeminente do time norte-americano, um dos maiores da história do futebol, resolveu dar as caras no reduto timbu. Beckenbauer, acompanhado do atacante Chinaglia, foi logo cumprimentar o destaque daquele jogo, o goleiro Ademar. "Lembro que ele me abraçou, apertou a minha mão e falou alguma coisa que não me recordo mais. Eu estava tão emocionado que não sei nem direito descrever aquele momento. Depois que caiu a ficha", sentencia o ex-arqueiro.

Yuri de Lira/DP/D.A Press
Ademar com medalha do nacional de 87
A curta carreira de Ademar
Ademar foi revelado no Santos de João Pessoa. Chegou para testes no Náutico em 1974, onde permaneceu até 1980 - quando parou de jogar aos 25 anos de idade. "Fui chamado para fazer parte da comissão técnica, como preparador de goleiros, ganhando o mesmo salário e tendo direito ao 'bicho' integral. Não tive o que pensar", afirma. "Assim que vim para Recife, comecei a estudar Educação Física na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Terminei o curso em 80 e tinha respaldo para atuar fora de campo", acrescenta. O ex-goleiro revela outro motivo que fez ele pendurar as luvas. "Eu sou baixo - 1,74 metro. A imprensa me criticava muito por conta da minha estatura. Diziam que tomava gols fáceis", fala. Hoje, Ademar ministra aulas de Educação Física na UPE - Universidade de Pernambuco.

Campeão brasileiro pelo Sport
Em 1987, Ademar sagrou-se campeão nacional pelo Rubro-negro. Ele fazia parte da comissão técnica do Sport, como preparador de goleiro. Permaneceu na Ilha algum tempo, até os anos 2000. Fala daquele título brasileiro com bastante satisfação. "Foi uma alegria para mim. Tenho muito carinho pelo Sport também", pontua. Ademar orgulha-se de ter revelado goleiros como Flávio, Márcio, Albérico, Gilberto e Bosco. Chegou, inclusive, a comandar o time como treinador interino em uma partida.

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