Vanderlei Luxemburgo tem metas ousadas para o Cruzeiro em 2022 (Foto: Rodolfo Rodrigues/Cruzeiro/arquivo)


Apesar da frustrante permanência do Cruzeiro na Série B, o técnico Vanderlei Luxemburgo está confiante de que o ano de 2022 do clube será bem melhor. De contrato renovado, ele promete enfim montar um time competitivo para buscar o acesso e, quem sabe, brigar pelo hepta da Copa do Brasil. No planejamento feito com sua comissão e com a diretoria, o Campeonato Mineiro será usado para lapidar o elenco. 'Queremos ganhar sim, mas ele vai servir de laboratório para a montagem da equipe da Copa do Brasil e, principalmente, o direcionamento do trabalho para o Campeonato Brasileiro'.




Mas de onde virão os recursos para a montagem da desejada 'equipe de Série A', uma vez que o Cruzeiro Sociedade Anônima do Futebol (SAF) só se tornará realidade ao fim do primeiro trimestre? O treinador se ampara principalmente no apoio econômico do empresário Pedro Lourenço, dono da rede Supermercados BH, e quer um leque maior de cruzeirenses influentes. "Na hora que precisou, Pedrinho se mostrou presente.  Acho que tem que se buscar novos parceiros, abrir o leque de opções". 

Graças ao seu relacionamento, o treinador de 69 anos acha que conseguirá, em paralelo, captar bons nomes no mercado. O primeiro reforço anunciado foi o zagueiro Maicon, de 33 anos. Em breve, Luxemburgo poderá ter como aliado nessas negociações Alexandre Mattos, executivo de futebol que está em vias de ser oficializado. Conhecido por suas contratações ousadas, o bicampeão brasileiro pelo clube em 2013 e 2014 certamente desejará surpreender a torcida.

Durante uma hora de conversa com o Superesportes, Luxemburgo se esquivou de algumas perguntas, mas deu detalhes do planejamento traçado, dos planos para jovens da base e tentou animar o torcedor, que anda bastante desconfiado.




Assista em vídeo, ouça o podcast ou leia a íntegra a seguir:


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Apesar das dificuldades, você está feliz no Cruzeiro com o que fez e com o que pode ser feito no futuro?

Não tem um motivo para nós estarmos felizes, sendo bem realista. Felizes nós estaríamos se tivéssemos levado o time para a primeira divisão. E não conseguimos. Então, nós estamos satisfeitos porque conseguimos manter o Cruzeiro na segunda divisão, e preparando o Cruzeiro, um Cruzeiro forte, competitivo, para a próxima temporada. Mas não para pensar em buscar o acesso, para buscar o acesso, que é uma obrigação do Cruzeiro.

Luxemburgo disse que Cruzeiro entrará pela primeira vez para brigar pelo acesso (Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro/arquivo)



O que Botafogo, Coritiba e Goiás têm que o Cruzeiro não tem? Todos eles subiram. Onde foi o problema, pois eles também têm times de Série B. E o Botafogo tem dívida tão grande ou maior que o Cruzeiro, acima de um 1 bilhão.

Com todo respeito à pergunta, o que você está falando hoje ano para ano acontece isso. As perguntas são as mesmas, com todo respeito. Um cara ganha 10 merréis, o outro ganha 1 milhão e não conseguiu resolver o problema. É momento. Se o Cruzeiro tivesse feito o trabalho que tinha de ser feito, estaria brigando. Como não fez, não buscou. Só não quero comparar com ninguém, cada um faz aquilo que tem que fazer. Você disse uma coisa complicada: eles não receberam. Ah, tem que trabalhar sem receber para ganhar título? Não bate na minha cabeça. Me desculpe, mas é uma retórica que está no Brasil há muitos anos. 'Ah, o time pequeno que ganha pouco vence o grande que ganha muito'. Ué? O único esporte coletivo que o pequeno ganha do grande é o futebol.




MERCADO


Jogadores identificados com o Cruzeiro e sem clube podem ser consultados, como o Ricardo Goulart?

Eu não gosto de falar de nomes não, de jogadores que vão ser contratados ou não. Essa coisa, o mercado fica muito rápido. O jogador que ganha 100, passa para 200, 300, rapidinho. Então, a gente prefere trabalhar como trabalhamos com o Maicon (zagueiro), conversamos, acertamos e apresentamos pra vocês.

Você não fala de nomes, mas alguns setores do time preocupam mais? O ataque, por exemplo, esteve mal em 2021 e merecerá atenção especial na captação de reforços?

Eu não vou publicamente falar de fulano, beltrano ou ciclano. Nós sabemos o que aconteceu e sabemos por que não conseguimos chegar. Nos jogos decisivos, nós não conseguimos decidir e não é só ataque, é defesa também. É um time como um todo. Nós jogos decisivos nós capengamos. 'Ah, o Operário empatou com a gente lá no finalzinho'. Mas se nós estivéssemos ganhando de 3 a 0, não teria problema. Então, o time nos jogos importantes e decisivos não conseguiu sair da metade da tabela para cima, para poder brigar por classificação à primeira divisão. Ficamos na metade e quando acabou o jogo do Avaí, ficamos da metade para baixo. E nos restou tentar manter o time na Segunda Divisão.

Pode antecipar nomes de jogadores que vão deixar o Cruzeiro?

Vamos passar por uma reformulação. Montaremos o elenco para a próxima temporada, então alguns jogadores vão sair e outros vão chegar. Vocês vão saber disso naturalmente, não há como esconder. Mas prefiro deixar isso naturalmente. Porque se eu falo algum nome aqui, vocês colocam no jornal: 'Luxemburgo faz uma lista de dispensa'. Aí depois esse jogador vai para outro lugar: 'fulano foi reforço do time tal'. Prefiro deixar a coisa fluir naturalmente.




A prioridade será buscar atletas experientes? 

Será uma mescla. Vou abrir espaço para a base, não tenha dúvidas disso. Até quando falei o negócio de 1 bilhão, que conseguiria pagar isso em cinco anos, o pessoal se assustou. Mas o Flamengo pagou R$800 milhões com três jogadores da base. A base é onde está o ativo do clube. Para quê tem base? Para você colocar os jogadores no time de cima. Uns vão ficar, outros não, faz parte. E mesclar com jogadores experientes e contratações pontuais que podem ser contratados pelo Cruzeiro, seja de idade média ou jovem. Tudo depende da negociação.

Na lista dos jogadores com contrato no fim está o Henrique, jogador com mais de 500 partidas pelo Cruzeiro, mas que não atua desde outubro do ano passado. Quais são seus planos para esse atleta? 

Ele está em fase final de recuperação. Vamos deixar recuperar e ver o que vai poder acontecer. Se ele tiver que continuar com a gente, continua. Se não tiver que continuar, tem que ser prático. Não adianta a gente ficar aqui mentindo pra vocês ou não. Vamos deixar ele recuperar e ver o que vai acontecer.

Você pretende explorar o mercado sul-americano?

Sim, com certeza. Se aparecer bons nomes, porque às vezes é oportunidade.



Luxemburgo sobre elenco de 2022: 'Será uma mescla. Vou abrir espaço para a base, não tenha dúvidas disso' (Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)



BASE


Você deu várias oportunidades a jovens jogadores na Série B, como Adriano, Nonoca, Thiago, Marco Antônio e até mesmo o Vitor Roque, com 16 anos. Qual a sua avaliação sobre esses garotos e o quanto eles poderão evoluir em 2022?

Vão ter oportunidade. Vou trazer mais alguns lá de baixo para trabalhar com a gente aqui. Obviamente, trabalhando a evolução. O Thiago não fez base. Ele chegou aqui e jogou direto no sub-20. Não fez trabalho de base algum. Ele enfrenta o goleiro e não sabe para que lado vai botar a bola, que local do campo está, se bate cruzado, se dá um tapinha por cima, se cabeceia no canto contrário do goleiro, tudo isso teremos de passar para ele. Ele jogou muito bem, tem velocidade, posiciona-se muito bem, marca o zagueiro, faz correria, tem habilidade, mas tem muito a crescer. Assim como Adriano, o Nonoca - que estava aqui largado, tem potencial -, o Pereira também, fomos colocando os jogadores para jogar, sempre fiz isso.

No Cruzeiro de 2003 coloquei vários jovens para jogar. Acho que tem espaço para mais jogadores aqui. Como negócio, ali (nas categorias de base) é onde está a grana. Tem que um time vencedor para o marketing fazer as ações dele e o estádio encher, mas a grana está em um jogador que não valia nada e agora tem propostas no mercado. A tendência é o Cruzeiro montar um time bom para subir e valorizar os moleques da base, que são ativos do clube.

Por isso falei da dívida de 1 bilhão. O tamanho do Cruzeiro e de sua torcida, com o dólar a R$5,60, US$100 milhões são R$560 milhões. Se em cinco anos você investir na base, tiver um dinheiro direcionado para a base - 2 milhões por mês, são R$24 milhões -, daqui quatro ou cinco anos vai abrir o mercado. Já tem esses e outros poderão surgir no Cruzeiro, que é um time que revela jogadores. Aí está o dinheiro. Por isso falei que um clube como o Cruzeiro não pode se considerar quebrado com uma dívida de R$1 bilhão.




Dívidas são feitas para serem negociadas, seja trabalhista, cível ou o transfer ban. Você tem que ver onde vai buscar na empresa chamada futebol onde estão o ativo e a matéria-prima. Estão na categoria de base. No profissional tem que ganhar jogos e campeonatos para valorizar jogadores que vêm da base, em que você tem um percentual maior do jogador.

Luxemburgo: 'Um clube como o Cruzeiro não pode se considerar quebrado com uma dívida de R$1 bilhão' (Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)



Jovens jogadores formados no Cruzeiro que estavam emprestados poderão ser aproveitados em 2022?

Vamos ser bem práticos. Nem todos da categoria de base que estão aqui ou que vão subir, ficarão aqui. Agora, aqueles que forem aproveitados terão potencial para evoluir, crescer e entrar para o mercado de negócios do futebol. Ah, Vanderlei, por que você colocou o Vitor Roque com 16 anos para jogar? Para as pessoas passarem a conhecer o Vitor Roque e entrar para o mercado como jogador de potencial e talentoso que daqui a pouco entrará em nossa rota no time profissional. Lancei ele para o mercado conhecer o jogador.

Não podemos esquecer que futebol é um negócio, e eu tenho que expor a mercadoria. Tive chances de colocar o Vitor Roque para todos conhecê-lo. Se vai virar esse jogador que parece que é, eu não sei. Vai se trabalhar, colocar pra jogar, trabalhar a cabeça dele. Mas ele tem potencial, e eu o coloquei para o mercado. E o mercado passou a conhecer o Vitor Roque. Olhando para o lado do negócio, tem que ser dessa forma.




Dá tempo de ensinar alguns fundamentos para os jovens da base e ao mesmo tempo preparar o Cruzeiro para as disputas que o time vai ter?

Vamos fazer um trabalho integrado com a base, mas não é da noite para o dia que se consegue tudo. Requer tempo. Mudamos a nossa escola por causa da CBF. A CBF faz curso para treinadores de jovens hoje com portugueses e futebol europeu. Nós não temos nada a ver com o futebol europeu. Nossa essência do futebol pertence a nós. A capacidade de empirismo, de jogar futebol. O Garrincha hoje não jogaria, porque o pessoal não quer que drible. Categoria de 12 a 13 anos o pessoal quer fazer parte tática, aquela coisa conceitual. Peraí, porque conceitual? Posso desarmar um esquema tático com um drible. Por que tenho que ter aquela coisa padronizada?

Existe uma mudança muito grande nas categorias de base que o pessoal está muito preocupado com esse linguajar novo, com parte tática, e pouco preocupado com a essência, que são os fundamentos do futebol. Tem dois tipos de fundamento: o de passe, domínio, cabeceio, tudo isso, e o fundamento tático. Eu pergunto aos profissionais que fizeram esse curso na CBF se eles sabem o que é fundamento tático individual. Eles não sabem o que é. Eles sabem o que é fundamento de passe, etc, mas não praticam. São mais preocupados em fazer mini-jogo, e futebol não é campo reduzido, é campo grande. Tem que ter o mini-jogo, mas tem que ter o campo alongado para jogar futebol em campo de 105x68. Estão preocupados com mini-jogo, em fazer um, dois ou três toques. Peraí, futebol não é isso, é outra coisa.

Mudaram a nomenclatura do futebol brasileiro, que é o único país do mundo que mudou de ponta-direita para extrema, marcação sob pressão para marcação alta, marcação média para marcação baixa, para ser proativo ou reativo. Ué? Isso sempre existiu no futebol brasileiro. E nós estamos mudando nossa essência, trocando os nomes, e eu não vejo mudanças. Ah, 4-1-4-1 pode ser um 4-3-3. Só você adiantar os dois caras de lado. As pessoas estão pensando que isso é modernidade. Não. Modernidade está na ciência da mudança de comportamento do atleta, fisicamente você consegue ter um atleta melhor.

Só para dar um exemplo: há 10 ou 15 anos você corria de 10 a 12 quilômetros por jogo. Você continua correndo 10, 12 quilômetros por jogo na atualidade, só que há 10 anos você fazia 3% em alta intensidade, acima de 25 quilômetros por hora, e hoje você faz 15% - cerca de 1.500 metros, acima de 25 quilômetros por hora. Veja como mudou a intensidade. Aí está a grande mudança do futebol. E nós mudamos para virar táticos, robôs.




Eu vejo os comentaristas, que me perdoem, falando na televisão: 'aqui a parte tática, 4-1-4-1, que o fulano tem que ser mais proativo, o outro tem que ser mais reativo, não sei o quê. Caramba. E jogar futebol? Vi o jogo Colômbia x Brasil. Um jogão de futebol. Não se falou do jogo em si, da essência de futebol, de drible, improvisação, empirismo. Foi o que aconteceu no jogo entre Brasil e Colômbia, só se falaram de tática. Porra, o futebol é essência, é drible, balãozinho, caneta, mudança de direção. A parte tática é importante, mas mais importante no Brasil, que sempre trabalhou o inverso disso aí - eles com a tática e nós com a tática e a parte empírica, nós fizemos a diferença. Hoje não fazemos isso.

Nas categorias de base, cada vez se trabalha mais a parte tática com 13 e 14 anos. Não vi nenhum centro de treinamento moderno que tenha feito um campo pequeno esburacado, de barro, ruim. Nenhum dos grandes clubes fizeram isso. E isso é nossa essência, jogar na rua, no paralelepípedo, em campo de 10 por 10. O mercado imobiliário ocupou tudo quanto é campo, o que tinha de fazer? Fazer campos esburacados para garotos de 10, 12, 13, 14 anos treinarem isso. Daí teria capacidade empírica, individual, cognitiva, propriocepção ativa natural. Aí é que você desenvolve o jogador. E mudaram tudo isso.

Campo de grama sintética, um ou dois toques, é bonito. Mas você não vê jogadores brasileiros driblando e quebrando linha. Conheci um, que está no Atlético, o Keno. Esse quebra linha. Dá um drible pra lá, outro pra cá, vira pra lá, vira pra cá, o cara pensa que ele vai para direita, mas ele vai para a esquerda. Isso não se vê mais no futebol.




Desculpe ter alongado na resposta, mas foi uma pergunta muito própria para falar das coisas que estão acontecendo. Não podemos fazer curso com treinadores europeus no futebol brasileiro. Precisamos fazer cursos com treinadores brasileiros e convidá-los (os europeus) para falar sobre futebol. Mas não pode ser um curso baseado neles, essa coisa não funciona.

GESTÃO DO FUTEBOL DO CRUZEIRO


Qual a sua opinião sobre os executivos de futebol e como vê a possibilidade de trabalhar com Alexandre Mattos?

O diretor executivo tem que entender que o técnico é importante. O problema é que colocaram o diretor executivo acima do técnico, colocaram o técnico abaixo. Manager na Europa e o técnico trabalham juntos, em conjunto, para formar uma equipe em busca de objetivos. Então, não tem problema nenhum em trabalhar com Alexandre ou qualquer um. O que eu reclamo, o que falo, é que eles (executivos) se colocaram em um plano superior. Então, se colocaram num plano superior, por que um time que tem um diretor executivo há tanto tempo manda cinco, seis, sete treinadores embora e não manda o diretor executivo? Ele não é culpado de nada, está tudo certo? Tem que trabalhar em conjunto.

Tenho certeza que não vai ter problema nenhum, porque trabalhei com Maluf (Eduardo Maluf), com Brunoro (José Carlos Brunoro), com Luiz Henrique, fizemos grandes equipes e não teve problema nenhum, respeitando o nosso espaço. Ele é o diretor executivo e ele é o técnico. A minha função é de montar a parte técnica todinha, é indicar os jogadores, e ele é o executivo que vai executar a parte que cabe a ele, de contratação.




Não vejo nenhum problema do Alexandre (vir ao Cruzeiro), até porque eu tenho conversas com ele, a gente conversa sempre. A minha divergência (geral) é sobre essa relação do executivo dentro do planejamento de futebol. Eles colocaram o técnico aqui pra baixo e subiram. Peraí... contrata um técnico, manda embora, contrata um técnico, manda embora. Será que eles estão certos no trabalho deles?.

Você aceitaria caso fosse convidado para ser diretor de futebol do Cruzeiro? E até onde pretende levar a sua carreira após o contrato com o Cruzeiro? 

Diretor executivo não é uma coisa que gostaria. Quero estar no futebol de outra forma, como consultor, como presidente de um clube ou comprar um clube. Ou, de repente, trabalhar na televisão. Usar meu canal no YouTube para dar cursos, palestras, etc. Você está querendo encerrar a minha carreira (risos), mas estou me sentindo tão bem, com tanta saúde.

Quero continuar no futebol, mas não como diretor executivo. Tenho espaço para contribuir de outra maneira. Tenho minhas empresas, meus negócios, todos saudáveis e prosperando cada vez mais. Mas gosto de futebol, de campo, de vestiário, de estar com os jogadores. É a minha vida toda falar no vestiário, sentir cheiro de grama, dar esporro em um, passar a mão na cabeça de outro. Não perdi a vontade de estar no futebol.





ATLÉTICO


Você esteve no Atlético em 2010, quando o clube já estava se estruturando. O sucesso do clube hoje se deve só ao alto investimento do Rubens Menin ou vê como um projeto de longo prazo? Qual a sua avaliação para os clubes estarem em níveis tão diferentes hoje?

O Atlético, quando cheguei lá, fizemos uma reformulação muito grande do centro de treinamento, que ganhou como melhor do Brasil por dois anos consecutivos. O Cruzeiro sempre foi uma referência de centro de treinamento e de trabalho, mas a administração mal feita leva à derrocada. E time grande quando vai para baixo é difícil parar.

O momento do Cruzeiro é difícil? Sim. Do Atlético, com a chegada do investidor, trouxe jogadores de peso que fazem diferença, como foi no Palmeiras. Apesar de eu ter subido com 12 jogadores para recuperar alguma coisa que eles tinham investido, o clube contratou grandes jogadores para chegar onde chegou.

A chegada do investidor ajudou muito o Atlético, mas lembro como se fosse hoje do Kalil na estruturação do Atlético para receber esses jogadores. Ele foi muito importante naquele momento em que eu estava junto.




O Cruzeiro está passando por um momento que no futebol brasileiro é até um pouco de covardia. É o único país do mundo onde o campeonato de 20 clubes cai 20%. Em nenhum outro país tem isso. Aí se você tem uma administração ruim, vai para a segunda divisão e a receita vai lá embaixo. É uma falta de sensibilidade.

Aí vão dizer que o mercado de negócios fez com que fosse assim. Porque você tem hoje times de primeira divisão jogando a segunda divisão. Vários clubes que já participaram bem da primeira divisão estão na segunda divisão. Não pode cair 20%. Se o Grêmio cair, teremos três grandes na Série B em 2022, assim como foi este ano. Aí você compra a primeira divisão, paga barato na segunda divisão e está tudo bom.

A Série A tende a ficar polarizada entre Atlético, Flamengo e Palmeiras ou o futebol permite que outros clubes conquistem títulos?

O Fortaleza está mostrando que não precisa ter o mesmo poder dessas equipes para fazer um bom campeonato. O clube se estruturou, vem crescendo há uns cinco ou seis anos, tem um centro de treinamento maravilhoso. Mesmo com menos orçamento, o futebol permite que o menor vença o maior. Mas não tenha dúvidas que alguns clubes com poder econômico vão sair na frente para poder contratar os melhores jogadores, como é na Europa, com Real Madrid, Barcelona, Liverpool, que monopolizam".




COMPETIÇÕES EM 2022


Você falou sobre o sonho de conquistar a Copa do Brasil já em 2022. Como seria possível fazer frente a clubes com potencial de faturamento muito maior?

O futebol já te mostrou isso. Senão o Paulista de Jundiaí e o Criciúma não seriam campeões. Oportunidade você tem, e o Cruzeiro é um time copeiro. Se montar um time competitivo, são dois jogos. A gente tem que pensar na Copa do Brasil, que é um caminho mais curto para chegar à Libertadores. De repente, eu antecipo etapas para poder ganhar uma Copa do Brasil. Um clube de Minas agora, o América, que é tido como a terceira força de Minas, chegou à semifinal da Copa do Brasil. Trabalho e seriedade te dão essa oportunidade.

Visamos essas duas competições (Copa do Brasil e Série B). 'Ah, o Mineiro não'. O Mineiro nós queremos ganhar sim, mas ele vai servir de laboratório para a montagem da equipe da Copa do Brasil e, principalmente, o direcionamento do trabalho para o Campeonato Brasileiro.

Na sua opinião a Série B deveria ser mais valorizada do que é atualmente?

O que se paga é barato. R$10 milhões, 7 milhões, 8 milhões é barato para o retorno que dá à televisão que comprou os direitos. Se você pegar os direitos comprados na primeira divisão e dividir com os da segunda divisão, verá como vai ficar isso aí quando a balança pesa.




Essa segunda divisão é disfarçada. O Cruzeiro, o Grêmio, se cair - tomara que não caia, pois é um clube onde trabalhei, muito legal. Isso tem que ser reconhecido. Por que vai pagar um valor que não representa aquilo ali? Acho que está mal remunerada a Segunda Divisão brasileira.

Este ano tivemos cinco clubes campeões brasileiros disputando a Segunda Divisão. Você acha que está justo o pagamento na segunda divisão?".

Existe uma diferença de perfil de jogadores da Série A para a Série B?

É balela. É a mesma coisa de você falar que conhece futebol de uma maneira, mas vai para outro clube de outra maneira. Não. Você conhece futebol ou não conhece futebol. Você é jornalista ou não é jornalista. Não tem história. O que você pode criar é o seguinte: é o perfil de jogo. A maneira de jogar a segunda divisão é diferente da primeira divisão. Você vai ter que adaptar o jogador de técnica à competitividade. Só a técnica não dá certo na segunda divisão.




SAF, PEDRO LOURENÇO E RECADO AO MERCADO


Qual a sua avaliação sobre a Sociedade Anônima do Futebol (SAF)? Ela é a única salvação para o Cruzeiro? Ou você via viabilidade de o Cruzeiro fazer algo como ocorreu no Atlético, de empresários se juntarem para apoiar o clube e fortalecer o futebol?

O futebol é um grande negócio. Tem que ter abertura para tudo. O Pedrinho (Pedro Lourenço, do Supermercados BH) é o mais importante parceiro do Cruzeiro, porque nos momentos mais difíceis ele foi lá, colocou a mão, colocou dinheiro e nós conseguimos sair daquela situação. Quando cheguei aqui, estávamos no 18º lugar ou 19º lugar, e naquele momento o clube estava de cabeça para baixo, estava todo mundo mal-humorado, com dificuldade, sem ter comida em casa, sem pagar luz, e aí colocamos isso em ordem com a ajuda dele. É importante você viver o mercado, uma gestão de futebol. O futebol é um negócio em que a matéria-prima é o atleta, e o ativo está na base. Estou há quase meses no Cruzeiro e o único que botou dinheiro foi o Pedrinho. Os outros prometeram, mas não botaram um puto de ninguém, foi do Pedrinho que apareceu o dinheiro. Então, o Pedrinho pra mim é um grande parceiro do Cruzeiro. Na hora que precisou ele se mostrou presente.  Acho que tem que se buscar novos parceiros, abrir o leque de opções. O Cruzeiro deveria ter a SAF, deveria ter um fundo de investimento também próprio do Cruzeiro para poder ter recursos de contratações. Há uma série de coisas que podem ser feitas para ter uma amplitude geral de empresa, de negócio. O Pedrinho foi o grande colaborador do Cruzeiro, botou as coisas em ordem. Você não vai dissociar o nome do Pedrinho do Cruzeiro, porque ele esteve sempre presente quando foi necessário.

Luxemburgo conta com Pedro Lourenço para montar time forte, mas quer outros apoiadores (Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)



Qual recado deixaria para jogadores que podem vir ao Cruzeiro, a empresários de atletas e aos  torcedores do Cruzeiro?

Quero dizer que o Cruzeiro está voltando ao mercado. Por isso eu dizia que o transfer ban era uma grande contratação para poder abrir o mercado. Abrindo o mercado, os empresários vão entender que, como eu trouxe tantos jogadores para o time de cima, como fiz no Vasco da Gama, como fiz no Palmeiras, eu dou espaço para esses jogadores. Os empresários querem colocar jogador onde se dá oportunidade para jogadores jovens poderem jogar. Eu dou oportunidade. Então, o Cruzeiro está abrindo de novo o espaço para os empresários, não sou contra os empresários ganharem dinheiro, é parceria. O que eles vão ver no Cruzeiro: transfer ban pago, jogadores da base na primeira equipe, investimento de alguns jogadores em que o empresário pode fazer parceria com o Cruzeiro. Então, o Cruzeiro está se abrindo para o mercado, se voltando para o mercado, para poder montar grandes equipes.

O futebol hoje está aberto para jogador que jogou no Cruzeiro e está aberto para se voltar, sem problema nenhum, desde que tenha condição de voltar. Jogador emergente pode ficar, desde que tenha condição de vir pro Cruzeiro. Jogadores jovens de categoria de base que possam jogar no time profissional. Jogadores experientes que possam vir para o Cruzeiro para aquilo que nós queremos. Nós estamos no mercado. O Cruzeiro está voltando ao mercado para poder ser competitivo. O torcedor vai entender que nós estamos formando uma equipe não para brigar para subir, mas para subir mesmo, para o ano que vem estar na primeira divisão.




Outra coisa, me desculpe falar como empresário que eu sou, né? Tenho muitos negócios. Você tem que se mostrar um bom pagador no mercado. Quando você se mostra um bom pagador, eu vou em juízo oferecer a minha dívida. 'Olha, eu só posso pagar desta forma e eu quero pagar'. E aí você volta ao mercado. O Cruzeiro está no caminho certo, a SAF, mas mesmo que não tivesse a SAF, com certeza o Cruzeiro poderia se reencontrar porque o Flamengo se reencontrou sem SAF, se reencontrou com a venda de três jogadores. O Cruzeiro tem dívidas que podem ser pagas tratando como gestão de negócio e não como entretenimento. Futebol é a gestão de um grande negócio e não pode ser gerido por amadores, tem que ser gerido por profissionais que entendam todas as etapas do futebol. O que é entretenimento, o que é conquista de título, o que é negócio.