Membro de antigo conselho gestor critica 'ego' de presidente do Cruzeiro

Emílio Brandi diz que Sérgio Santos Rodrigues criou expectativa grande em jogadores e funcionários ao falar que resolveria todos os problemas do clube

16/10/2021 18:00 / atualizado em 17/10/2021 06:27
compartilhe
Emílio Brandi foi integrante do conselho gestor do Cruzeiro
foto: Bruno Haddad/Cruzeiro

Emílio Brandi foi integrante do conselho gestor do Cruzeiro


Integrante do conselho gestor que administrou o Cruzeiro no primeiro semestre de 2020, Emílio Brandi afirmou que Sérgio Santos Rodrigues se precipitou ao concorrer à presidência do clube na eleição de maio do ano passado. Em entrevista ao canal  "Na Reserva Cast"  no YouTube , o empresário considerou que o mandatário criou expectativas em jogadores e funcionários ao prometer que os salários seriam sempre pagos em dia.

“O conselho gestor tinha que ter seguido até o fim do ano, mas o Sérgio não esperou esse momento. Chamamos o Sérgio e o Ronaldo Granata (candidato derrotado no pleito de maio de 2020) e mostramos uma apresentação de todas as dívidas que tinham no Cruzeiro, todos os problemas e as pendências. Eles sabiam dos valores das dívidas, e o Sérgio deixou bem claro que sabia de tudo isso aí, que tinha a solução e saberia resolver isso”, frisou.

“Logo quando ele (Sérgio) assumiu, deixou bem claro para todo mundo ao falar para os jogadores: ‘faça a parte de vocês em campo que aqui fora eu resolvo’. Criou uma expectativa grande, falou demais, teve um marketing grande. A gente sabia que ele não daria conta de suportar. Ele não poderia ter criado essa expectativa para jogadores e colaboradores. Foi um erro dele falar demais”, complementou.

Brandi também considerou inoportunas as recentes viagens de Rodrigues à Europa, onde participou de um curso da Fifa em Madri, na Espanha, e de um evento de gestão esportiva em Lisboa, capital de Portugal. Em meio à ausência do presidente, os jogadores do Cruzeiro se irritaram com os atrasos salariais e paralisaram os treinamentos. A greve chegou ao fim neste sábado, e o elenco se reapresentará no domingo na Toca.

“Ele é bem intencionado, a gente sabe disso. Mas achei que errou, com o Cruzeiro em dificuldades, ao sair daqui para dar palestra em Madri, em Lisboa, ir à Europa duas vezes em menos de 30 dias, e aqui tendo greve de jogadores e condição financeira difícil. Mas cada um sabe o que faz”, destacou Emílio, criticando, em seguida, o “ego grande” do dirigente cruzeirense.

“O ego dele é grande, a gente sabe disso. Deu para sentir. É uma pessoa que não quer tirar nada do Cruzeiro, ele não precisa disso. Mas o ego dele é grande (...). Ele leva muito para o lado da vaidade, isso não pode. Desde que passou a ser presidente do Cruzeiro, tem que abrir mão das coisas particulares dele. Dar palestra na Europa? Para quê? Ele tem que ficar aqui, abrir mão disso, não é o momento agora. Devia ter declinado o convite e falar: ‘vou ficar aqui, pois o Cruzeiro está precisando de mim’ (...). É o primeiro mandato dele, é um menino novo também. É o preço que se paga pela inexperiência e imaturidade”.

Dívida na Fifa


Sobrinho do lendário Felício Brandi - que presidiu o Cruzeiro de 1961 a 1982 e foi o responsável pela construção da Toca da Raposa I -, Emílio fez parte do chamado Núcleo Dirigente Transitório ao lado de conselheiros e associados nos seis meses do mandato-tampão de José Dalai Rocha, substituto de Wagner Pires de Sá. Também integraram a gestão nomes como Carlos Ferreira Rocha, Anísio Ciscotto, Saulo Fróes, Kris Brettas, Alexandre de Souza Faria, Jarbas Reis, entre outros.

Em maio de 2020, o Cruzeiro foi condenado em última instância na Fifa a iniciar a Série B do Campeonato Brasileiro com seis pontos negativos em razão do não pagamento de mais de R$5 milhões ao Al Wahda, dos Emirados Árabes Unidos, pela contratação do volante Denílson, em julho de 2016. Ao relembrar o episódio, Emílio Brandi explicou que o recurso estava praticamente certo junto ao banco Bmg, que, de última hora, desistiu de efetuar o empréstimo.

“O conselho gestor sabia desses seis pontos se não pagasse o valor para a Fifa. O Sérgio e o Ronaldo Granata também sabiam. Se o conselho gestor seguisse até o fim do ano, nós faríamos ali um ajuste ou, na pior das hipóteses, poderíamos emprestar ao Cruzeiro para não perder os seis pontos. Mas estava tudo encaminhado (com o Bmg), conversamos com o Hissa (Elias Moysés) e o Ricardo Guimarães, o Bmg liberaria esse valor para o Cruzeiro, inclusive com jogadores em garantia para o Coimbra, que é o clube do BMG. O dinheiro viria do BMG, seria emprestado, já estava acertado. Quando faltava uma semana, suspenderam o empréstimo. Nós não entendemos o motivo”.

O Cruzeiro deu esperanças à torcida de que a pontuação negativa não faria falta ao vencer os três primeiros jogos da Série B de 2020 sob o comando do técnico Enderson Moreira. Entretanto, a equipe não conseguiu manter a sequência, viveu altos e baixos na competição e trocou duas vezes de técnico: Ney Franco e Luiz Felipe Scolari. No fim das contas, terminou em 11º, com 49 pontos - 12 a menos que Juventude e Cuiabá, terceiro e quarto colocados.

Em 2021, a probabilidade de acesso é de apenas 0,16%, de acordo com o Departamento de Matemática da UFMG. O Cruzeiro é o 11º colocado, com 39 pontos em 30 jogos (oito vitórias, 15 empates e sete derrotas), e terá de ganhar os oito duelos restantes na Segunda Divisão para subir à Série A, além de torcer por tropeços de outros clubes. Na sexta-feira, às 21h30, a Raposa encara o Avaí, no estádio da Ressacada, em Florianópolis, pela 31ª rodada.

Ajudaria o Cruzeiro?


O Cruzeiro deverá contar com a contribuição de quatro empresários - Pedro Lourenço (Supermercados BH), Régis Campos (construtora Emccamp), Paulo Henrique Pentagna Guimarães (banco BS2 e Carbel) e Aquiles Diniz (ex-sócio do banco Inter) - para juntar os recursos necessários e quitar salários de jogadores e funcionários. Estima-se que, de imediato, o clube necessite de aproximadamente R$9 milhões.

Emílio Brandi, que fundou a distribuidora de alimentos Nova Safra, colocou-se à disposição para ajudar financeiramente, embora não tenha sido procurado por Sérgio Rodrigues. “Poderia ser, por que não? Tudo é conversado. Mas se eu topo pagar X milhões, e um investidor aparecer querendo pagar mais, eu tenho que torcer pelo Cruzeiro. Que sejam o Pedro, o Vittorio (Medioli), temos que ver quem é o melhor investidor. Mas posso sim (investir), não vou me furtar disso”.

Compartilhe