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Secretária da CBF que denunciou Caboclo detalha assédio: 'Dor não acaba'

Funcionária concedeu entrevista à repórter Gabriela Moreira no programa Fantástico, da TV Globo

19/09/2021 23:54
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Rogério Caboclo foi afastado por 15 meses e está sob investigação
foto: Lucas Figueiredo/CBF

Rogério Caboclo foi afastado por 15 meses e está sob investigação



O programa Fantástico, da TV Globo, entrevistou neste domingo (19/9) a secretária da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que denunciou o presidente da entidade, Rogério Caboclo, por assédio sexual e moral em junho. O dirigente foi afastado do cargo por 15 meses e está sendo investigado pelo Conselho de Ética da Confederação. Sem ter o nome revelado, ela deu detalhes à repórter Gabriela Moreira sobre as situações que passava.

"É uma dor que não acaba, é uma dor que hora nenhuma sai de mim. (...) Eu ficava tensa, eu chegava em casa chorando. No dia seguinte, eu pensava: não vai ser tão ruim, eu preciso desse emprego. Não vai ser tão ruim. E eu chegava no trabalho e era pior. (...) A minha depressão chegou num nível que eu pensei: eu vou morrer. Aquela sensação de não conseguir respirar, de não conseguir viver minha vida, aquilo ali foi acabando comigo", contou.

A secretária relatou que Caboclo chegou a compará-la a uma cadela e a ofereceu ração de cachorro em um dia de trabalho. Caboclo temia que ela contasse sobre os assédios a um diretor da CBF.

"Ele começou a fazer comentários sobre um determinado diretor da CBF e ele falou pra mim: 'Você vai contar pro fulano. Você é a cadelinha do fulano'. E no que eu comecei a falar, ele começou a latir pra mim. Eu fiquei em estado de choque e não consegui nem falar. Nisso, ele vai para a cozinha e vem com um saco de biscoito de cachorro, tira um biscoito do saco e me ofereceu. E aí, no dia seguinte, eu fui confrontá-lo a respeito desse episódio. E ele começa a falar que não ia mais falar mais da minha vida pessoal, mas, se ele não falava mais da minha vida pessoal, ninguém mais podia falar também, que eu não poderia ser mais amiga de ninguém dentro da CBF, que não podia mais sorrir para ninguém, e que eu também deveria mudar a minha forma de vestir. Ele quis demonstrar mais poder sobre mim, não só como meu patrão, mas como homem".

A decisão de denúnciar o assédio sexual e moral ocorreu depois que Rogério Caboclo começou com ameaças e insistiu com perguntas de cunho sexual.

"Eu tinha medo dele, eu tinha muito medo dele. Ele falava: 'Eu sou um homem de R$ 100 milhões, quem ela pensa que é'. Ele mandou ameaças, ele mandou um carro na porta da minha casa, o carro dele para ficar me vigiando. Até que ele pergunta se eu me masturbo. Eu literalmente saí correndo. Foi o limite', contou a funcionária da CBF.

Em depressão, a secretária pediu licença médica de cinco meses e avisou a Rogério Caboclo que não ele deveria deixar o cargo de presidente da CBF.

Já ciente de que a secretária queria tornar o caso público, Caboclo tentou comprar o silêncio da funcionária. 

"Foi através de um interlocutor, porque eu não queria mais ter contato com ele. Ele se recusou a sair da presidência e, em troca, ele me ofereceu uma indenização para comprar um apartamento, me ofereceu um curso na Europa, com todas as despesas pagas e me ofereceu uma promoção dentro da CBF para um cargo de gerência para eu ficar lá até eu me aposentar. Só que, ao negociar esse acordo, o Rogério Caboclo fazia pedidos absurdos que eu nunca aceitaria. Pedia para eu falar que nunca fui assediada, e que eu tinha me afastado da CBF exclusivamente por problemas familiares. A partir dali eu pedi para meus advogados redigirem a denúncia. Não vou assinar nenhum acordo com esse cara".

A secretária retornou ao trabalho no início de setembro e acha que tudo valeu a pena. Nos últimos meses, outras duas Outras duas funcionárias da entidade também denunciaram Rogério Caboclo por assédio.

"A CBF tem sido minha casa há mais de nove anos, então, estar de volta me traz uma alegria imensa de rever meus colegas, de estar de volta ao meu cantinho, ao meu dia a dia. O melhor momento pra mim foi quando uma funcionária chegou e me abraçou, e ela falou que a vida dela mudou depois da minha denúncia. Ela não abaixa a cabeça mais para ninguém. A partir dali. Valeu a pena. Tive momentos difíceis e estar aqui hoje, de cabeça erguida, lutando pelo que eu acho certo, pelas mulheres, lutando pela mulher trabalhar no futebol, que é um mundo masculino, machista, é um esporte tão amado pelas mulheres também. Eu acho que vale a pena sim", concluiu a secretária, emocionada, em entrevista ao Fantástico.

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