Automobilismo

Na marca do pênalti

Ferrari manifesta pela primeira vez na temporada insatisfação com o desempenho de Felipe Massa e crescem rumores de mudança iminente

Rodrigo Gini




A Ferrari deu os primeiros sinais de ter perdido a paciência com as dificuldades enfrentadas por Felipe Massa nos cinco primeiros GPs do ano, e, pela primeira vez, deu a entender que o brasileiro, antes defendido e protegido, está na marca do pênalti. Se até o GP da Espanha a principal cobrança por mudanças vinha da imprensa italiana, a análise do fim de semana em Montmeló divulgada pela escuderia em sua página na internet mostrou que um expediente não usado desde 1992 – ano em que Ivan Capelli acabou substituído por Nicola Larini duas corridas antes do fim do campeonato – pode ser novamente empregado em Maranello. As conversas nos bastidores durante o fim de semana apenas ajudaram a alimentar as especulações e a tornar o clima mais tenso.

“No que diz respeito ao rendimento da escuderia e de seus dois pilotos, Fernando (Alonso) manteve um nível elevado, enquanto se faz sentir a queda de Felipe, que, a esta altura, dois anos atrás, somavam 49 pontos, e 24 em 2011 (este ano são apenas dois). Em Montmeló Felipe teve muito azar tanto na qualificação quanto na corrida, mas todos, a começar por ele, esperam uma mudança de marcha já a partir do GP de Mônaco, sua segunda corrida de casa, já que mora a poucas centenas de metros do traçado”, avaliou o diretor- geral Stefano Domenicali.

A mudança de postura é consequência do novo fôlego garantido por Alonso, que, com um carro ainda bastante inferior ao dos principais rivais (a primeira evolução do F2012 não aproximou a escuderia de Lotus, Red Bull e McLaren , que também evoluíram com seus novos pacotes aerodinâmicos), voltou a colocar a Ferrari na briga pelos títulos de pilotos e construtores. Praticamente sozinho, ele garante o quarto posto na classificação das equipes, com as adversárias ainda na alça de mira. Com mais de dois terços do campeonato pela frente, qualquer esperança de fim do jejum vermelho esbarra na necessidade de pontuar constantemente, o que Massa não tem conseguido.

O que se comenta nos bastidores do circo é a possibilidade de o brasileiro ser substituído de forma provisória até o fim da temporada, dando à Ferrari tempo para acertar com um nome de peso para formar dupla com Alonso até 2016, quando chega ao fim o compromisso atual do espanhol. Como o contrato de Massa se encerra em dezembro, a multa rescisória não seria tão elevada quanto a paga a Kimi Raikkonen em 2009 – o finlandês ainda tinha 12 meses de contrato quando acabou substituído por Alonso.

CANDIDATOS Raikkonen, aliás, seria uma das opções para longo prazo. Apesar da saída conturbada, o finlandês e seu empresário, Steve Robertson, nunca criticaram a escuderia ou rejeitaram a possibilidade de retorno. Robert Kubica também é um candidato avaliado de perto pela cúpula ferrarista, que ofereceu sua estrutura para a recuperação do polonês e chegou a prometer um teste com o carro de 2010 assim que ele for liberado pelos médicos – já fez dois treinos com carros de rali e vários testes com karts indoor.

Mark Webber teve seu nome cogitado – também foi empresariado por Flavio Briatore, como Alonso, e estaria disposto a ser escudeiro do companheiro, diante da perspectiva de perder o posto na Red Bull. Até mesmo Jenson Button, confortável na McLaren, teria sido sondado. O bicampeão Sebastian Vettel admite trocar um dia o touro vermelho pelo cavalinho empinado, mas preferiria que Alonso já estivesse aposentado na ocasião, e apenas uma eventual saída de Adrian Newey do time de Milton Keynes ou queda acentuada de competitividade do RB8 poderia antecipar os planos.

Caso os patrocinadores principais da Ferrari – especialmente o banco espanhol que bancou a contratação de Alonso – optem por mais um latino, também não faltariam alternativas. O mexicano Sergio Pérez integra a academia de pilotos da Ferrari e poderia deixar a Sauber em troca do fornecimento gratuito de motores, abrindo espaço para o compatriota Esteban Gutiérrez, hoje reserva dos suíços, que agradaria igualmente a Telmex, do bilionário Carlos Slim.

Mesmo o venezuelano Pastor Maldonado poderia chegar a Maranello sem grande dificuldade. Sua carreira também é gerida por Nicholas Todt, empresário do brasileiro, e a pretensão salarial seria modesta diante do valor pago a Massa – que recebe em torno de US$ 6 milhões (R$ 12 milhões) por temporada –, apesar do novo patamar alcançado com a primeira vitória na F-1.

PERIGO REAL E IMEDIATO
Os nomes cogitados para ocupar o cockpit do carro 6 este ano

Adrian Sutil (ALE)
» Está desempregado (no ano passado se envolveu numa briga com um dirigente da Lotus em Xangai), mas foi o nono no Mundial’2011 com a Force India
Chance: grande

Nico Hulkenberg (ALE)
» Seu empresário é Willi Weber, o mesmo que levou Michael Schumacher à F-1 e mantém bom relacionamento com a Ferrari
Chance: grande

Paul di Resta (ESC)
» O discreto escocês foi uma das revelações de 2011, tanto assim que vem sendo cogitado como substituto de Michael Schumacher em 2013 na Mercedes. Mas um convite da Ferrari pode mudar os planos
Chance: média

Jarno Trulli (ITA)
» Experiente e atualmente parado, aceitaria sem dificuldades a condição de interino no restante do campeonato. Já trabalhou com Alonso na Renault e seria capaz de resistir às cobranças
Chance: média

Jerome d’Ambrosio (BEL)
» Reserva na Lotus (o grupo que comanda o time também gere sua carreira), seria a solução mais barata, mas dificilmente traria os resultados esperados
Chance: média

Jules Bianchi (BEL)
» Integrante do programa de jovens talentos da Ferrari, foi emprestado à Force India para o posto de terceiro piloto. O mais provável é que seja efetivado com a saída de um dos titulares
Chance: pequena