SELEÇÃO BRASILEIRA

Gilmar Rinaldi fala sobre o trabalho de Dunga: 'Nasceu para ser técnico da Seleção Brasileira'

Responsável pela escolha do treinador elogia evolução dentro e fora do campo

postado em 12/10/2014 09:00 / atualizado em 12/10/2014 08:32

AFP PHOTO/VANDERLEI ALMEIDA

Pequim - Ele tem carta branca do comando da CBF e ao mesmo tempo é uma espécie de escudo para Dunga, o técnico que escolheu. Articulado, com sua experiência, Gilmar Rinaldi aposta num projeto a curto prazo para resgatar o futebol do país.

O que o levou a aceitar esse convite num momento delicado do futebol brasileiro?

Em primeiro lugar, o desafio. Eu digo que Seleção Brasileira é convocação, e não emprego. Servir a Seleção é uma intimação. Num momento como este, pela dificuldade, tinha a obrigação de dizer sim. Só pedi um tempo para conversar com a família, que achou que eu deveria aceitar. Não tenho medo. Sou do meio, a vida inteira vivo do futebol e jamais teria dificuldades. É meu habitat. Estou aqui para dar minha experiência e aprender também, para dar o que há de melhor à Seleção.

Depois da comoção na Copa, Dunga foi contratado para dar resultado até 2018 e não para um trabalho a médio prazo. Não é conflitante?


Nossa cultura não permite trabalho a longo ou médio prazo. Quando decidimos que o Dunga seria o treinador, já sabíamos que o perfil era o dele. Mas no Brasil tem de trabalhar muito e colher os resultados imediatos. Está na hora de mudar, mas a realidade é outra. Não estamos preocupados com o resultado a médio prazo. Achamos e acreditamos que o resultado vai ser a consequência do trabalho. A pressão virá, mas vamos aprender a lidar com ela. Não há outro caminho.


Se Dunga não vencer a curto prazo, então, será demitido?
Não é bem assim. A confiança, minha e dos presidentes Marin e Marco Polo, nele é grande, mas a cobrança sempre existe. Não adianta falar que o trabalho será a médio prazo, pois na hora da crise eles terão de decidir. Não quero pensar nisso. Queremos trabalhar e esperar que esse trabalho dê resultado bom. Mas acho que os dirigentes nos darão respaldo, no momento de crise, que certamente virá.

José Maria Marin disse que só quer adversários fortes e tenta um jogo contra a Alemanha para se vingar dos 7 a 1. É mesmo necessário?
Nós fomos consultados e dissemos que queremos enfrentar as grandes seleções. Esse negócio de revanche não é conosco. Queremos enfrentar dificuldades agora, para estar preparados nas competições. E só conseguiremos encarando adversários fortes, de primeira linha.

Dunga não quer enfrentar sul-americanos no ano que vem por causa da Copa América e das Eliminatórias?
Realmente, ele pediu para não jogar contra equipes que vamos enfrentar na Copa América e no começo das Eliminatórias, pois não tem sentido. Fui eu quem fiz essa colocação. Queremos adversários europeus.

Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai têm equipes definidas, com trabalho mais adiantado. Serão as Eliminatórias mais difíceis da história?
A prioridade serão as Eliminatórias e a classificação para o Mundial. Vai ser muito difícil e temos de nos preparar mais e melhor. São jogos difíceis, desgastantes, e o nível das equipes subiu muito. Temos de impor o nosso futebol e mostrar que também poderemos evoluir.

Você acha fundamental mesclar experientes e jovens?
Sim. Temos de ter referência em campo. Gente que já superou dificuldade, que já sofreu. O jovem tem muito talento e força, mas não viveu o suficiente para os momentos difíceis. Mas o perfil dos experientes tem de ser bom.

Como administrar Kaká e Robinho no banco?
Justamente por isso eles estão aqui. Não se opuseram em nenhum momento, querem ajudar a Seleção e estão dispostos a dar sua cota de sacrifício. Esse é o perfil que queremos. Temos jovens muito talentosos, que terão suporte desses mais experientes para brilhar também.

Você participa da escolha dos jogadores ou deixa tudo com Dunga?
Participo de todas as conversas com Dunga sobre convocação, formação do time e tudo o mais. Nós nos conhecemos há tempos e temos sintonia. Pensamos muito de forma igual. E procuramos ser rigorosos e queremos fazer justiça. Temos um software especial e moderno, com o qual conseguimos acompanhar todas as ações dos jogadores nos times.

Os grandes times do passado foram formados por divisões de base fortes. Como resgatar isso?
Hoje não conseguimos mais formar os jogadores. Acho que a CBF pode proporcionar uma forma de os clubes voltarem a investir na base. Temos algumas ideias, vamos buscar treinadores nossos para treinar monitores nos clubes, oferecendo cursos, tecnologias e ferramentas, para que trabalhem melhor a base, que é a origem de tudo.

Você concorda que a safra não é boa?
Olhe, a safra não é tão boa, mas estou encantado com esses meninos que estão aqui. Acho que estamos atrasados não é na qualidade do jogador, e sim na organização e no planejamento. Tenho a certeza de que, quando equilibrarmos isso, teremos mais uma safra fora de série.

E a dependência de Neymar?
Estamos trabalhando para ter um time forte coletivamente, pois temos apenas um expoente, o Neymar. Estamos à procura de mais expoentes para equilibrar o time e não depender apenas de um craque. A nossa intenção é fazer um time forte em todos os setores.

Você não acha injusto tirar jogadores de clubes durante as competições? Corinthians e Cruzeiro foram prejudicados na reta final do Brasileiro.
Já conversei isso com os presidentes e não queremos prejudicar os clubes. Mas temos limitações pelo calendário e pelo número de datas. É difícil convocar jogadores sabendo que farão falta aos clubes, mas estamos fazendo isso com cuidado. Falamos com as pessoas do Cruzeiro, Atlético, São Paulo, Corinthians, e elas não se opuseram. Então, tomamos o cuidado de convocar apenas dois jogadores por clube, usando apenas o critério técnico. Nossa situação é difícil, mas falamos sempre com os treinadores dos clubes e dirigentes.

Como resgatar o amor do torcedor brasileiro depois dos 10 a 1?
Além de ex-jogadores, também somos torcedores, e aquilo doeu muito na gente. Sabemos que será importante a reaproximação. No momento certo, faremos jogos no Brasil. A gente entende que a torcida está magoada, mas, quando voltarmos a mostrar qualidade e o nosso verdadeiro futebol, ela vai se reaproximar naturalmente.

De que forma ex-jogadores ajudam a comissão técnica nas delegações?
Trocamos ideias. Peço que sejam duros e críticos. Agora, trouxemos o Edu, ex-Santos. Sempre peço que depois dos jogos eles me mandem um relatório. São referências, como Dunga, Taffarel, eu, Mauro Silva, Edu, todos vencedores. Aqui não é o ponto de chegada, e sim de partida. Não basta jogar pela Seleção, tem de ganhar.

Rivellino criticou abertamente essa postura, dizendo que é demagogia
Ele não foi convidado, então, não pode falar disso. Mas respeito a opinião dele. Só sei que há um leque de ex-jogadores para ser convidados e que estão doidos para participar e ajudar o futebol brasileiro. Acho isso muito importante. É também uma convocação.

O que pesou para você convidar Dunga?
Muita coisa. O momento que vivemos, a história dele como jogador, como superou as dificuldades e, acima de tudo, o fato de ter nascido para técnico da Seleção. Olhem os números dele e comprovarão o que digo. Ele amadureceu e tem visão do futebol. Tem uma capacidade incrível de ver as coisas.

Ele está inovando em termos de treinamentos?
Até eu fiquei surpreso. Ele estuda muito antes de dar esses treinos. Amadureceu, evoluiu até no tratamento com a imprensa. Cada vez me convenço mais de que é o técnico certo para este momento. Estou pronto para ser leal com ele e a comissão técnica. Meu dever é comandá-la. Tenho como dever proteger a todos e defender nossas ideias até o fim.

 

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