SELEÇÃO

Gallo revela que só pensa na Olimpíada e que Alemanha será a maior adversária em 2016

Técnico revelou que ainda não pensa em um dia assumir a Seleção principal

postado em 13/10/2014 10:25 / atualizado em 13/10/2014 11:57

Marcos Paulo /Correio Braziliense

Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press
Aos 47 anos, Alexandre Tadeu Gallo é o novo desafiante de um tabu que tem como vítimas Jair Picerni (1984), Carlos Alberto Silva (1988) e Mano Menezes (2012). Todos eles levaram o Brasil a uma final olímpica e perderam a chance de conquistar a inédita medalha de ouro. Escolhido para comandar a Seleção em casa, nos Jogos do Rio-2016, o treinador tem todos os degraus friamente calculados para chegar ao alto do pódio, mas deixou claro, ontem, em uma entrevista exclusiva ao Correio Braziliense, no hotel em que a Seleção Sub-23 está hospedada para enfrentar os EUA, nesta segunda-feira, às 19h30, no Mané Garrincha, que um fantasma o assombra. Segundo ele, a Alemanha – algoz da maior humilhação da história centenária da Seleção – será a nossa maior adversária.

A seguir, Gallo fala também de um protocolo “antimarra” para regulamentar o comportamento da garotada, coloca Neymar entre os três convocados acima dos 23 anos e dribla ao falar do polêmico dossiê que recomentou Luiz Felipe Scolari a escalar a Seleção de forma retrancada diante da Alemanha na semifinal da Copa do Mundo. Felipão teria desobedecido a recomendação e o Brasil apanhou por 7 x 1.

Brasília é uma das cidades-sede do futebol nos Jogos do Rio-2016, que será em um período de seca. Isso explica a escolha da capital do país para o amistoso contra os EUA?

A ideia é fomentar as 12 arenas da Copa. Houve essa possibilidade, agora, tanto em Cuiabá quanto aqui, em Brasília. O importante é o nosso jogador atuar no Brasil, diante da nossa torcida, em partidas de alto rendimento, como foi contra a Bolívia (3 x 1), em Cuiabá. É o que esperamos também dos EUA. É um adversário físico, forte e nos trará muito aprendizado.

Em qual estágio está o seu projeto nas categorias de base?

O ápice é a Olimpíada, tem que ser a Olimpíada. Entrei em 1º de fevereiro de 2013. Em 21 meses, eu acho que equacionamos bem a questão da base, organizamos. A Fifa tem 208 países filiados e 207 trabalhavam com jogadores abaixo dos 14 anos. O único que não fazia isso era o Brasil. Isso é um grande passo para evitar a saída precoce dos nossos jogadores do país.

Rafael Ribeiro/CBF

O que é mais importante para o Gallo: colecionar títulos ou deixar um legado?
As duas coisa caminham juntas. É como a sorte e a capacidade. Não posso só revelar e nem só ganhar títulos. Queremos um trabalho de excelência. Nunca foi feito, por exemplo, um ciclo olímpico como esse que estamos realizando agora.

Estamos carentes de um camisa 10 clássico e de um centroavante. Você tem solução a curto prazo na base?

Nós temos jogadores que fazem essa função, mas não podemos ter um time previsível. Hoje, nós temos o Talisca e o Rafael Alcântara, dois meias canhotos comprometidos com o trabalho tático. Portanto, não é que a gente não forma mais. O futebol encurtou as linhas e exige que os meias sejam voluntariosos, que tenham velocidade, marquem, sejam fortes, e o jogador tem que se adaptar a isso. Não cabe mais aquele jogador que dependia do espaço, era mais lento, com espaço para fazer um lançamento. Hoje, o meia tem que ser mais dinâmico.

Por isso o Ganso é descartado?

Eu acho ele um craque, mas o Ganso que vai ter que se adaptar a essa evolução. Na Copa do Mundo, o Biglia, segundo volante da Argentina, correu 15,km em um jogo. Um absurdo. Na minha época de volante, eu corria 8km. Tá aí a evolução do futebol. A parte física.
Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press

O futebol brasileiro tem problemas graves de erro de passe e depende cada vez mais das bolas paradas e dos cruzamentos. A base está revendo isso?
A gente trabalha muito isso. Não podemos colocar tudo na conta de um desastre, de uma tragédia como os 7 x 1. O passe é um fator importante, mas estamos trabalhando muito todos os fundamentos. Nós fizemos até agora 34 jogos com 27 vitórias e 7 empates. A nossa filosofia defende a posse de bola no campo do adversário e marcação forte na saída de bola, mas não podemos nos esquecer dos fundamentos.

A Alemanha campeão do mundo tinha apenas três jogadores acima de 1,80m. A sua primeira convocação depois da Copa tinha vários jogadores acima de 1,80m. Tamanho é documento no projeto das categorias de base do Brasil?
Eu discordo bastante. Na minha primeira convocação, a média de altura era de 1,77m. A média, em Valencia, agora, era a terceira ou a quarta, atrás da Argentina e do Equador. Isso não é verídico. A nossa preferência é sempre pelo aspecto técnico.

Mas no Figueirense falavam que você preferia jogadores fortes fisicamente...
Isso é balela.

Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press

Como você está monitorando a saída precoce de jogadores que se naturalizam para defender outras seleções?
O monitoramento é em cima dos jogadores de excelência. Fiz um levantamento no ano passado. Só jogadores nascidos em 1995 nós temos 32 em grandes clubes. Não é porque joga fora do Brasil que tem de vir para a Seleção. O filtro é jogar em um grande clube. O Brasil vai perder inevitavelmente. Não dá para cercear tudo. Saem mais de mil atletas por ano em média daqui, como vamos controlar? Estamos atrás de jogadores que estão em grandes clubes, não são mais Sub-20 e não defendem nem a Sub-20 nem a principal do país.   Há casos de jogadores que começam a se desenvolver mais tarde, como o Diego Costa.

Os treinadores anteriores da Seleção Olímpica costumam usar as três vagas acima dos 23 anos para um goleiro ou zagueiro, um volante ou meia e um atacante. Pensa assim?

Eu tenho um conceito inicial. Quero fortalecer um setor. Se nós fossemos jogar, hoje, contra a Argentina, e eles tivessem um ataque formado por Messi, Higuaín e Aguero, eu precisaria de uma defesa forte. Se a Alemanha viesse com Schweinsteiger, Khedira e Kroos, eu necessitaria de força no meio de campo. Do contrário, perderia um setor importante. No ano que vem eu penso em trazer um trio acima dos 23 anos para fazer um teste e vou conversar com o Dunga.

Carlos Silva/CB/D.A Press

Você só pode convocar 18 jogadores para as Olimpíadas. Neymar é um. Restam 17 vagas?
Não é que o Neymar está convocado. Se Portugal vier, o Cristiano Ronaldo não será um dos convocados? Se Argentina entrar, o Messi não vem? Com um jogador desse naipe, extraclasse, não tem como pensar a Seleção Brasileira sem um Neymar. É inevitável (risos).

De que forma você trabalha os efeitos da derrota por 7 x 1 para a Alemanha com a garotada?
Temos de canalizar essa pressão para algo positivo. Eles precisam entender que a responsabilidade é nossa, mesmo, e cabe a mim detectar quem suporta isso psicologicamente. Temos 34 jogos e mais 15 datas Fifa pela frente, sem contar Sul-Americano e Mundial Sub-20 e Pan-Americano. A minha missão é encontrar atletas com esse perfil. Esses jogos que estamos fazendo no Brasil é para observar qual jogador vai suportar de forma positiva, canalizar essa emoção para dentro das quatro linhas.

Quando foi anunciado como técnico da Seleção olímpica, você propôs uma cota de 40% a 50% de jogadores com faixa etária para os Jogos de 2016 na Seleção principal. Por que essa integração não tem acontecido?
Era uma ideia inicial, mas nós tivemos de adaptar por causa das datas Fifa. Ficou bom tanto para o Dunga quanto para mim. Eu posso estar com 100% do grupo que eu quero e ele pode observar o nosso trabalho. É claro que o Marquinhos era um zagueiro que poderia estar com a gente, mas está jogando em alto rendimento lá na principal.

Como está a tabelinha com o Dunga? É possível padronizar as seleções taticamente, da base à principal, como fazem, por exemplo, Barcelona, Espanha e Alemanha?
Nós tínhamos essa padronização no ano passado com o Felipão. Com o Dunga, ainda não tivemos tempo de conversar sobre isso. As seleções de base atuam todas da mesma maneira desde a minha entrada. Eu entendo que essa é a forma correta de trabalhar. É assim que começa desde a Sub-15 para que nós tenhamos o ciclo completo.

Você acompanhou in loco a Copa de 2014. Quais foram as novidades, as revoluções ou evoluções? Por que a Alemanha foi campeã e o Brasil fracassou dentro de casa?
A evolução passou pelo encurtamento das linhas, a velocidade do jogo. Foi uma Copa muito boa, com jogadores atuando em alto nível, com ótima qualidade no passe, rapidez. A Alemanha ganhou porque trabalhou. Eles precisaram de oito anos para ganhar um título. Aqui, no Brasil, é inviável eu dizer para você que preciso de oito anos para ser campeão.
Rafael Ribeiro / CBF

Você e o Roque Júnior foram os observadores técnicos do Felipão e teriam recomendado um time mais forte na marcação diante da Alemanha. O Gallo tem a consciência tranquila em relação ao que aconteceu naquela tarde de 8 de julho, no Mineirão?
Vou deixar essa resposta com o que o Felipão falou. Ele era o nosso comandante e foi uma coisa que se tornou muito polêmica. Eu prefiro ficar com a resposta dele. Sou grato ao Felipão por me dar a oportunidade de trabalhar na Copa das Confederações e na Copa do Mundo.

Você foi auxiliar do Parreira, Luxemburgo, Felipão, Muricy, Abel... O que absorveu de cada um deles?
Sou um privilegiado. Trabalhei com vários treinadores vitoriosos do Brasil. Tirei um pouco de cada um e formatei a minha linha de conduta. Estou aprendendo muito na base. Eu nunca fui treinador de base. Nunca trabalhei na base. A ideia da CBF era trazer alguém do profissional para profissionalizar a base e a escola com todos esses caras me ajudou bastante.

Como você lida com a marra da garotada. Brinco, cor de cabelo, corte. Qual é o limite?
Não sou apenas um treinador. Eu tenho de pensar como formador. Aqui na Seleção a gente tem um protocolo. Quando o jogador veste a camisa da Seleção pela primeira vez, eu entrego para ele e ele respeita com naturalidade. Aqui dentro, com a camisa da Seleção, o jogador não usa nenhum acessório ou adereço que não seja o uniforme da Seleção. Fora daqui, ele usa o que quiser, faz o que quiser. Já convoquei jogador que usa brinco, cabelo moicano, não tenho problema nenhum com isso... Mas, dentro da Seleção, não podemos infringir o protocolo. Temos muitos patrocinadores e, às vezes, algumas coisas chocam.

É uma ambição saudável do Gallo assumir um dia a Seleção Principal?
Eu não posso pensar em outra coisa que não seja a Olimpíada. É um sonho tão grande, tão latente dentro de mim, que o único objetivo é pensar na medalha de ouro. O resto eu entrego nas mãos de Deus.

Quem é a maior pedra no caminho da inédita medalha de ouro?

A Alemanha é a grande adversária. Assisti à final da Eurocopa Sub-21 entre Alemanha e Portugal e gostei muito daquela equipe deles. Estamos mapeando os possíveis adversários. A Alemanha vai ser uma adversária dura, com um trabalho forte na base que conta com o apoio institucional do governo. São bons jogadores, técnicos e fortes taticamente.
Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press