100 anos

Primeiro jogo de futebol entre Brasil e Argentina completa um século neste fim de semana

O Correio falou com protagonistas das seleções para descobrir que, no fundo, tudo não passa de admiração mútua

postado em 21/09/2014 15:19 / atualizado em 21/09/2014 15:55

Braitner Moreira /Correio Braziliense , Marcos Paulo Lima /Correio Braziliense

Ilustração/Kleber/CB/DA Press
O futebol, essa inovação do século 20, fez um grupo de brasileiros enfrentar uma semana de viagem de navio, saindo do Rio de Janeiro, para fundar aquela que se tornaria a maior rivalidade entre seleções. O jogo de 20 de setembro de 1914, em Buenos Aires, terminou com vitória por 3 x 0 da Argentina sobre o Brasil. Os 18 mil torcedores presentes no domingo de um século atrás certamente não acreditariam se alguém dissesse que nas pequenas Três Corações e Lanús, dali a um tempo, nasceriam os dois cardeais do esporte que se tornaria o mais popular do mundo: Pelé e Maradona.

O tempo cuidou que, desde aquele dia, dois times que nem flâmula tinham para trocar com o adversário rapidamente construíssem um dualismo na modalidade. Bastaram quatro jogos para que o superclássico terminasse em batalha campal pela primeira vez. Desde então, a rivalidade se tornou um confronto equilibrado nos resultados, nos gols, nas confusões. Em 95 duelos, foram 35 vitórias brasileiras e 36 argentinas. E tempo suficiente para que alguns dos maiores jogadores do mundo desfilassem.

Se o Brasil teve em Edson Arantes do Nascimento o homem que era aclamado o jogador do século, bem antes da virada do milênio, a Argentina logo se vingou com Maradona, dono de um pé direito inexistente, mas de um pé esquerdo tão endiabrado quanto seu gênio difícil. Os dois nunca se enfrentaram em campo — as principais batalhas ocorreram fora dele, em décadas de provocações de lado a lado. Sem o tira-teima definitivo com o maior da história de cada país, a rivalidade seguirá perene.

Só não é garantido que a disputa entre os países vá continuar da mesma forma. O século de confrontos — na bola, na economia, na política — tratou de modificar a forma como Brasil e Argentina passaram a se enxergar. O que hoje é rivalidade, antes, já foi mais respeito e admiração. “A análise histórica dos jornais da Argentina mostra que os adjetivos mais usados em relação à nossa seleção são alegria, diversão e habilidade. Esse conjunto enfatiza mais admiração do que ódio. Na verdade, é um ode à escola sul-americana”, avalia Ronaldo Helal, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Para ele, que estudou a disputa entre os países, a mudança se deu a partir da aposentadoria de Maradona. “Desde então, o futebol-força virou marca argentina, e isso aumentou a rivalidade em ambas as partes. Antes, só o brasileiro precisava do argentino para marcar sua identidade. Agora, é uma via de mão dupla”, aponta Helal. O aumento da rivalidade pode ser comprovado pela evolução histórica. Segundo estudo deste ano da Universidad Nacional de Tres de Febrero, o Brasil é o maior rival argentino, segundo 32% do país — a Inglaterra ficou com 21,8%.

Ainda que não houvesse alguma pesquisa do tipo há meio século, o comportamento era bem diferente. Na Copa do Mundo de 1970, a última que a Argentina não disputou, o país apoiou o Brasil rumo ao título. “Quando eu era criança, vesti a camisa amarela, toda a minha família torceu. Era a América do Sul contra a Itália”, recorda o atacante Jorge Burruchaga, campeão mundial em 1986, em entrevista ao Correio. De fato: a capa do Clarín, no dia seguinte ao tri brasileiro, estampou que o mundo voltava “a vestir-se de futebol”.