ENTREVISTA

Invicto há quatro jogos na Seleção, Jefferson fala sobre sucessão de Júlio César

Em conversa com o Correio, goleiro afirma estar pronto para encarar qualquer um após pegar pênalti de Messi, diz que a dor do 7 x 1 supera queda do Botafogo e revela: Taffarel trabalha para torná-lo líbero, como Neuer

postado em 07/02/2015 22:05 / atualizado em 07/02/2015 20:15

Marcos Paulo Lima /Correio Braziliense

Gustavo Moreno/CB/D.A Press


Aos 32 anos, Jefferson de Oliveira Galvão se levanta com autoridade de dois tombos. Reserva de Júlio César na pior derrota da história da Seleção Brasileira — o 7 x 1 diante da Alemanha —, o goleiro assumiu a camisa 1 depois da Copa do Mundo e não sofre gol há quatro partidas. Em uma delas, defendeu pênalti do segundo melhor jogador do mundo, Messi, e garantiu o título do Superclássico das Américas diante da Argentina.

Lapidado pelo preparador de goleiros Taffarel, ele conta na entrevista a seguir ao Correio que o tetracampeão pretende transformá-lo em um líbero como Neuer, da Alemanha. A virada de anos só não foi perfeita para Jefferson por causa do rebaixamento do Botafogo para a Série B. Em mais uma prova de amor ao alvinegro, ele decidiu ficar. O capitão do Glorioso diz por que resistiu ao assédio de outros clubes. Emocionado, reforça que pretende encerrar a carreira em General Severiano.

O desafio de segurá-lo foi lançado na sexta-feira pelo Botafogo. O clube inaugurou o site
www.nossojefferson.com.br. A torcida tem a chance de contribuir financeiramente para a manutenção do ídolo. Um contador mostra o total arrecadado. Quem investe no projeto ganha uma máscara de Jefferson.

Você começa 2015 como titular da Seleção Brasileira e não sofre gol há quatro jogos. Qual é a sensação de estar invicto há 360 minutos com a amarelinha?
Todos nós sabemos que o goleiro sempre entra em campo com a missão de não sofrer gol, mas, além disso, todo goleiro sempre quer terminar a partida vencedor. Enquanto eu estiver atuando pelo Botafogo ou pela Seleção Brasileira, o mais importante sempre será a vitória.

AFP PHOTO/ VANDERLEI ALMEIDA
Você viveu dois momentos de impacto em 2014: a derrota da Seleção por 7 x 1 para a Alemanha e o rebaixamento do Botafogo. Qual doeu mais?
Perder uma Copa do Mundo em casa é um sentimento que só nós, que estávamos em campo, sentiremos por toda a nossa vida. Superamos as adversidades levantando a cabeça e passando por cima dos obstáculos. Temos que usar essas tristezas como lição para alcançar nossos próximos objetivos.

Sente a Seleção Brasileira pronta para começar a volta por cima na Copa América do Chile?
A primeira convocação e o primeiro encontro do grupo com o Dunga foi o momento mais estranho. A gente ainda estava absorvendo aquela derrota. A maioria dos jogadores convocados estava naquela nova convocação. Mas logo a nova comissão técnica nos fez sentir confortáveis e entender que estava começando uma nova era para a Seleção Brasileira. Nossa volta por cima vai ser sempre a próxima partida que sairmos de campo com a vitória.

A defesa daquele pênalti do Adriano na final do Carioca de 2010 o levou para a Seleção, e a defesa do pênalti do Messi no Superclássico das Américas o consolidou como dono da camisa 1. Qual foi mais importante?
São momentos distintos vestindo camisas diferentes. O Botafogo estava em um longo período sem conquistar o Estadual e conseguimos. O pênalti do Messi tem sua importância pela representatividade do jogador que estava cobrando e diante de um adversário que é um dos maiores rivais do Brasil.

Nos amistosos de março, os rivais serão Benzema (França) e Alexis Sánchez (Chile)…
Trabalho muito durante o dia a dia para enfrentar qualquer atleta em qualquer situação.

Neuer foi finalista da Bola de Ouro por ter sido um líbero na Copa. Excelência na saída com os pés é um desafio para o Jefferson até a Copa de 2018?
Essa é uma nova qualidade que os goleiros estão adquirindo nesses últimos anos. É importante trabalharmos isso. O Taffarel acredita que o goleiro moderno seja assim, quase um líbero. Para ele, jogar bem com os pés é fundamental. Isso está fazendo parte dos treinamentos dele.

Por falar nisso, e aquela caneta na estreia do Botafogo no Estadual?
Aquele foi um momento do jogo que enxerguei como a melhor solução para sair jogando. É uma jogada arriscada e acho difícil que vá acontecer novamente.

Qual é a sensação de ser treinado pelo tetracampeão Taffarel, titular em três Copas do Mundo?
O que mais chamou a nossa atenção nessas primeiras convocações foi a facilidade e a qualidade na batida da bola dele, tanto com as mãos quanto com os o pés. É um cara que dispensa elogios. É um dos ídolos do nosso país.

Diego Alves (Valencia) e Victor (Atlético-MG) são os principais concorrentes?
O Brasil felizmente está bem servido de goleiros. De alguns anos para cá, muitos bons goleiros foram revelados no futebol brasileiro, atuando aqui e lá na Europa.

Paulo Victor, do Flamengo, é um deles?
Mais um ótimo goleiro que ganhou oportunidade de jogar como titular e agarrou a chance.

O Brasil tem ótimos pegadores de pênalti. Os milagres do Taffarel influenciaram toda uma geração?
O treinamento de goleiros evoluiu muito nos últimos anos, e as fontes de informações que recebemos dos nossos clubes e da Seleção aumentou. Diante de qualquer adversário, a comissão técnica reúne informações dos principais batedores e estudamos as maiores possibilidades. Isso acontece com todos os goleiros fora e dentro do Brasil.

AFP PHOTO/VANDERLEI ALMEIDA
Você viu o 7 x 1 do banco e viveu o vestiário. Quais são as lembranças?
Foi um dia que não esqueceremos jamais.

O que você disse ao Júlio César depois daquele jogo?
A história do Julio César na Seleção é maravilhosa e nada apagará o que ele construiu. Meu dever, como goleiro também, era abraçá-lo e dizer algumas palavras de apoio e carinho. O Júlio é um grande amigo que a profissão me deu. Um cara que merece o meu respeito e o de todos os brasileiros.

Por que a Seleção sofreu a pior derrota da história?
Não há uma explicação que possa ser dita para aquele dia.

Nota diferença entre os métodos de trabalho do Mano, do Felipão e do Dunga?
São três excelentes treinadores. O que mais desejo é absorver com eles toda a experiência que conquistaram ao longo desses anos para me ajudar a desenvolver como atleta.

Em 2002, o Marcos era titular da Seleção, foi rebaixado com o Palmeiras e permaneceu no clube para a Série B. Em 2015, você faz o mesmo no Botafogo. Por que ficou?
Tenho uma gratidão muito grande pelo Botafogo. No momento em que eu mais precisei, foi o clube que estendeu a mão e me proporcionou retomar minha carreira após passagem pela Europa. Além disso, foi o clube que me fez chegar à Seleção, e isso ficará marcado para sempre. Em todas as minhas entrevistas, eu disse que queria encerrar a minha carreira no Botafogo e estou seguindo para esse caminho.

O Botafogo tem um garoto que começou aqui no DF, no Brasiliense, com potencial para ser ídolo como você.
Como tem ajudado o Jobson?
Todos nós conhecemos o talento do Jobson e sabemos da capacidade dele de desequilibrar dentro de campo. Infelizmente, algumas más influências o levaram para caminhos distantes do futebol, mas vejo nele um garoto com muita vontade de dar a volta por cima. Pude observar que, desde os primeiros treinos da pré-temporada, ele demonstrou que está a fim de mostrar ao torcedor aquele futebol que o levou a conquistar o carinho das arquibancadas. Ele é uma peça importante para o nosso time e tenho certeza de que vai nos dar muita alegria este ano.

Renê Simões classificou a Jamaica para a Copa de 1998, quase levou a Seleção feminina ao ouro nas Olimpíadas… É o cara certo para alavancar o Fogão?
É um cara que eu não conhecia pessoalmente, mas que foi muito importante na minha renovação de contrato este ano. É um cara transparente e que vem fazendo um trabalho muito bom com o elenco do Botafogo. Espero que nosso time consiga, com ele, conquistar os objetivos traçados na temporada.

Você foi vítima de atos racistas? Como encara esse problema?
Graças a Deus nunca sofri nenhum tipo de ato racista na minha carreira, mas recrimino veementemente qualquer ato de discriminação racial. Sempre fui tratado com muito respeito pelos torcedores do Botafogo e das outras equipes.

Quando você começou na escolinha do Clélio, lá em Assis (SP), insistia para ser jogador de linha. Teria chegado à Seleção como atacante?
Acho que não. Agradeço aos responsáveis que me trilharam ao caminho de ser goleiro. Felizmente, hoje, posso levantar a cabeça com orgulho da minha trajetória profissional.

Você morou num apartamento de um quarto com a mãe e os irmãos e dormia no corredor para priorizar as mulheres da casa. Isso o ensinou a superar qualquer obstáculo na vida?
Sabemos que essa dificuldade no início de carreira é uma situação normal na maioria dos jovens que busca o caminho do futebol. Felizmente, nunca passei fome e minha mãe sempre tratou a mim e aos meus irmãos com carinho e amor. Temos que estar preparados para superar qualquer tipo de obstáculo.