DA ARQUIBANCADA

Um conjunto vazio

"O ridículo vem nos rondando perigosamente. Não fosse pela Libertadores e Copa do Brasil, em que nos mantemos vivos sabe-se lá como, eu diria que a luta é pra não cair"

postado em 15/07/2017 14:32 / atualizado em 15/07/2017 14:36

EM/D.A Press

Finalzinho do primeiro tempo, pênalti para o Atlético. Logo aquele juizão, versão atualizada dos Wrights que atravessaram nossas vidas, todos filhos daquela a exercer a primeira das profissões. Jamais imaginaria, a não ser que o zagueiro, digamos, sacasse uma arma. E atirasse, porque se apenas ameaçasse fazê-lo, era capaz de ficar tão impune quanto o inimputável senador, cujo primo continuava vivo até o fechamento desta edição. Mesmo assim o juizão, conhecido apoiador do Bolsonaro (os filhos daquela em geral o são), apontou a marca da cal. Eu não acreditei.

Era um roteiro bem apropriado aos filmes que nos acostumamos a ver nos últimos anos – entre a adrenalina do Tarantino e o dramalhão do Clint Eastwood, este um eleitor do Trump, só podia. Tudo no script: o Galo precisava ganhar e começara muito bem. Mas, para sublinhar as emoções, resolveu entregar a rapadura num pênalti que, mesmo não sendo, ainda assim teria sido, porque o referido juizão era o referido juizão. Mas combinemos que foi. Foi e o Victor pegou. São Victor. Glorifiquemos de pé. O mesmo e entediante roteiro, que nunca nos cansa. Escola de Hollywood. Escola do Aguinaldo Silva.

Depois desse ocorrido, então, vem o pênalti inimaginável. Aquele a nosso favor, assinalado pelo bolsominion (de amarelo, claro). Mas à terra dada não se abre a boca, ensinou João Cabral, aquele do galo sozinho que não tece a manhã. Agora éramos muitos Galos mirando a marca da cal – e aquele pênalti, a manhã que prenunciava outros tempos. O velho roteiro. Clint Eastwood na veia.

E lá vai o Fred. Aquela malemolência carioca, adquirida em anos de CBFlu. Aquele passinho de bosta. Aquela paradinha marota. Aquele traque. Aquela bombinha de festa junina que a gente comprava pra jogar na testa do cruzeirense quando ele subia a Abrahão Caram em dia de clássico, na época em que a galhofa ainda não tinha se degenerado em violência. Contra o Botafogo foi o Rafael Moura. Agora, o Fred. Pô, meus amigos, chuta essa porra direito. Fecha o olho e mete uma bica. Faz igual a PM de São Paulo: mira na cabeça (vocês no goleiro, eles no catador de papelão) e senta o dedo sem dó.

O pênalti perdido não tava no script. O Galo de 2017 não tava no script. É um time com atacantes que não fazem gols. Armadores que não armam. Volantes que não marcam. Reservas que não mudam o jogo. Um técnico que parece o Einstein em suas teorias e explicações, mas pelo visto se esqueceu de como se fazem as contas armadas de multiplicar e dividir. Não há vibração, não há alegria nem tristeza. Parece que tanto faz ganhar ou perder. O Atlético é hoje um conjunto vazio, onde ninguém faz a diferença, ninguém é essencial ou insubstituível. Assemelha-se à Selegalo, enquanto o atleticano, no fundo, prefere mesmo é o Galinho que tirou o Vasco aos 45 do segundo tempo e ganhou do Flamengo na final. O nosso roteiro. Tarantino na veia.

O Santos ficou sem goleiro boa parte do segundo tempo. Sem goleiro. Não houve um chute a gol durante os 10 minutos de acréscimo. Nenhum. Em dois jogos, transformamos dois goleiros em heróis – Jefferson e Vanderlei. Por competência e raça de ambos, sem dúvida, mas ainda mais por absoluta incompetência da nossa parte.

O ridículo vem nos rondando perigosamente. Não fosse pela Libertadores e Copa do Brasil, em que nos mantemos vivos sabe-se lá como, eu diria que a luta é pra não cair. O Atlético de 2017 tem a cara do Internacional de 2016. Deus, se existir, que nos livre e guarde. Mas considerando a hipótese não existir, como desconfio, melhor tirar logo a lição dos últimos dois jogos: a bola pune quem merece. E no final.

Tags: atleticomg