COLUNA DO JAECI

TV deixa clubes reféns e futebol mais pobre

Quando o ano começa, os clubes já estão de pires na mão, mendigando dinheiro aqui e ali. E não adianta o governo federal ficar dando Refis, pois os clubes incorrem nos mesmos erros e a dívida vira uma bola de neve

postado em 05/12/2018 12:00

Gilvan de Souza / Flamengo
Dudu foi eleito o craque do Campeonato Brasileiro. Em 2013 e 14, o escolhido foi Éverton Ribeiro (foto), na época, no Cruzeiro. Aí, eu pergunto aos caros leitores e leitoras: Dudu e Éverton Ribeiro são craques?. Sim, para o péssimo nível técnico em que se encontra o nosso futebol. Em outras épocas, seriam considerados apenas bons jogadores, mas para os padrões atuais figuram na lista de cima da prateleira. O Palmeiras foi o campeão brasileiro, invicto em 23 jogos, com a melhor média de gols e a defesa menos vazada – normalmente, o campeão tem esses índices –, mas com futebol abaixo de qualquer crítica. Pragmático e previsível, como sempre foi a cara de Felipão. Ele diz que não vai carregar os 7 a 1 para sempre. Pois vai sim. Ninguém jamais esquecerá o maior vexame da história da nossa Seleção. Para mim, a maior vergonha do esporte mundial. Claro que a vida dele não parou. O Grêmio, do saudoso presidente Fábio Koff, o acolheu e o trabalho não foi bom. Depois, foi para a China, onde foi tricampeão chinês e voltou ao Palmeiras, pegando o time em sexto lugar e levando-o ao título. Justamente nos mata-matas foi mal e não conseguiu a taça da Libertadores e da Copa do Brasil, mas ganhou uma até mais difícil: a do Brasileirão por pontos corridos.

Dizem que o Palmeiras é decacampeão. Para mim, é hexa, pois títulos reconhecidos no papel são estranhos. Claro que os jogadores que disputaram Taça Brasil e Roberto Gomes Pedrosa sentem-se campeões brasileiros, pois eram as competições nacionais na época, mas que é estranho, é. De uma hora para outra, os clubes são reconhecidos como campeões brasileiros daqueles torneios. Afinal, eram torneios ou campeonatos? Não importa. O que vale ser lembrado é que nosso futebol vai afundando em nível técnico a cada temporada. Ontem, conversei com um veterano jornalista do Rio de Janeiro, que me disse que as dívidas de Botafogo, Vasco e Fluminense, se somadas, beiram os R$ 2 bilhões. Dívida impagável. Sinal de que na próxima temporada as três equipes farão figurações nas competições, com possibilidade de repetir neste ano, quando lutaram para não cair até a última rodada – casos de Vasco e Flu, já que o Botafogo arrancou com cinco vitórias salvadoras.

Os culpados, não há a menor dúvida, são os presidentes que dirigiram essas equipes. Deixaram chegar a esse ponto com gestões equivocadas, algumas fraudulentas, irresponsáveis. O dinheiro das cotas de TV é adiantado, e quando o ano começa, os clubes já estão de pires na mão, mendigando dinheiro aqui e ali. E não adianta o governo federal ficar dando Refis, pois os clubes incorrem nos mesmos erros e a dívida vira uma bola de neve. O Palmeiras foi campeão brasileiro em 2016 e 2018 graças a um patrocinador, digamos, gentil, cuja dona é palmeirense doente e sonha presidir o clube. Claro que ela não gasta mais de R$ 100 milhões por ano só por amor ao clube. Seus objetivos são outros. Ela quer ser presidente e ponto. Quando perdeu a Parmalat, o Palmeiras ficou 22 anos sem ganhar nenhum título brasileiro. É o caso do Fluminense, que quando tinha a Unimed ganhou em 2010 e 2012 e depois que perdeu o parceiro mergulhou nessa crise sem precedentes. Será que os dirigentes não percebem que essa forma de gerir os clubes se exauriu? É hora de os clubes virarem empresas, ter donos que saibam o valor de uma gestão equilibrada, gastando apenas o que o orçamento permitir.

Não entendo essa resistência ao novo modelo. O país mudará a partir de 1º de janeiro e o futebol precisa acompanhar essa mudança. Os clubes não podem e não devem ficar reféns de uma emissora de TV, principalmente quando essa emissora está na mira do governo, que promete cortar 90% da verba publicitária e abrir a caixa-preta do BNDES, que, supostamente, teria emprestado dinheiro ao Grupo Globo para os canais a cabo, a chamada Globopar. Curvar-se aos caprichos da emissora, com jogos em horários indecentes, pagando aquilo que ela quer pagar, é uma aberração. Alguns leitores me mandaram mensagem lamentando o fato de no domingo a emissora ter passado para Minas Gerais o jogo Palmeiras x Vitória e Ceará x Vasco (dependendo da praça), em vez de Fluminense x América. O jogo do time mineiro passou no canal fechado, em que é preciso pagar para assistir.

Enquanto adotarmos esse modelo falido, em que uma tevê determina os rumos do futebol, os clubes estarão quebrados e falidos. É exatamente isso o que ela quer, para mantê-los sob sua chibata. Ou os dirigentes enxergam essa triste realidade ou vão continuar vendo São Paulo dominando o futebol, já que nem o Rio consegue competir – está ficando para trás, junto com outros estados. Se não houver uma reação, continuaremos e ver “Dudus e Évertons da vida” ganhando prêmio de craques do Brasileirão. Como diz um amigo meu, “é o que temos para os dias de hoje”.

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