TIRO LIVRE

De mocinhos a bandidos

Ao analisar a trajetória de Atlético e América no Brasileiro, a primeira conclusão à qual se chega é a de que o roteiro não precisava ser tão sofrido

postado em 30/11/2018 10:03 / atualizado em 30/11/2018 10:28

Ramon Lisboa/Em/D.A Press

Para os torcedores de Atlético e América, o Campeonato Brasileiro chega à derradeira rodada com aquela sensação de capítulo final de novela. O suspense é bem ao estilo do saudoso “quem matou Odete Roitman?”. Conseguirão Galo e Coelho se despedir da temporada com seus objetivos alcançados? Depois de tantos altos e baixos ao longo da temporada, haverá um happy end escrito em letras garrafais após o último ato? Aos jogadores, treinadores e dirigentes, caberá o papel de mocinhos ou a alegoria de bandidos? Ao apito final do jogo de amanhã, contra o Botafogo, sairá a torcida alvinegra feliz do Horto, com a vaga na Copa Libertadores assegurada? No domingo, poderão os americanos comemorar a permanência na elite, depois da partida contra o Fluminense, no Rio?

Ao analisar a trajetória de Atlético e América no Nacional, a primeira conclusão à qual se chega é a de que o roteiro não precisava ser tão sofrido. Um sanguezinho a mais naquela derrota que você julgava inofensiva, uma batida mais caprichada na bola naquele gol que você achou que não faria falta e a parada estaria definida há mais tempo. Não era necessário deixar para o último minuto do último jogo. Mas aí ganha sentido aquela velha máxima: “Se pode complicar, para quê simplificar?”.

Vamos aos números para comprovar essa tese. Apenas em três das 37 rodadas do campeonato (na segunda, quando foi o 11º colocado; na oitava, quando ficou em oitavo; e na nona, quando estava em 10º) o Galo ficou fora do G-6 – que garante a vaga, pelo menos, na fase preliminar da Libertadores. No G-4, que assegura lugar diretamente na etapa de grupos do torneio continental, foram 12 rodadas, sendo duas como vice-líder e uma como primeiro colocado.

Nos últimos meses, contudo, ficou a leve impressão de que a Libertadores era uma espécie de amor não correspondido pelo Atlético. Aquele tipo de relação em que só um lado se dedica para dar certo, e esse lado não era o do time alvinegro. Havia, no ar, uma certa indiferença, ainda que disfarçada; uma falta de esforço para se manter ali. Não foram poucas as vezes em que a equipe contou com tropeços dos adversários para se manter no G-6. Fosse a Libertadores um pouco mais orgulhosa (taurina, talvez), já teria feito a fila andar, entregando seu coração a quem realmente lutava por ele. Mas a Libertadores resistiu. Foi fiel. Agarrou-se ao Galo com todas as suas forças, tirando do caminho quem quer que ameaçasse o reencontro entre eles.

Agora, o time atleticano chega à última rodada dependendo apenas de si para comprovar que o amor é pra valer. Para o Botafogo, já garantido na Copa Sul-Americana, vencer amanhã no Horto significaria tão somente a subida do nono para o oitavo lugar na classificação (isso, se o Cruzeiro, hoje em oitavo, no máximo empatar com o Bahia) e, como consequência, R$ 300 mil a mais de premiação: o valor pago pela CBF ao oitavo colocado é de R$ 2,1 milhões, enquanto para o nono é de R$ 1,8 milhão. Dentro do orçamento futebolístico, esses R$ 300 mil a mais no cofre não fariam tanta diferença ao clube de General Severiano. Por isso, na prática, triunfo botafoguense, em pleno Independência e diante de todas as circunstâncias, vai servir mesmo é para matar o atleticano de raiva.

A situação do América é bem semelhante. Das 37 rodadas, apenas em sete o Coelho esteve na temida zona de rebaixamento. O problema é que nada menos do que seis foram, justa e consecutivamente, na reta final – para mostrar o tamanho do estrago de forma mais precisa, basta pontuar que isso ocorreu nas últimas seis rodadas.

Até a 28ª rodada, a trajetória do Coelho poderia não fazer os olhos do americano brilhar, mas o desempenho irregular em campo ainda não tinha produzido efeito negativo na classificação. Até aquela altura do campeonato, a equipe oscilava entre os nono e o 13º lugar, e o Z-4, por mais assustador que fosse, ainda não se configurava num monstro tão ameaçador.

Na 32ª rodada, o América completou nove jogos sem vencer com a derrota para o Cruzeiro (2 a 1) e retornou ao grupo da degola – que havia visitado, brevemente, na 14ª rodada. De lá não saiu mais. A queda ganhou contornos dramáticos quando o time perdeu para o já rebaixado Paraná, no Horto, e caiu para a vice-lanterna. O fundo do poço estava logo ali. Até que veio a vitória salvadora sobre o Bahia, que permite ao time comandado por Givanildo Oliveira depender apenas de si para se manter na Primeira Divisão. Um senhor privilégio, convenhamos.

Mas para não dizer que só falei das flores... Derrota no Maracanã jogará o Fluminense na fogueira, e pode o tricolor acabar rebaixado, caso Vasco (que visita o Ceará) e Chapecoense (que recebe o São Paulo) ganhem seus jogos. Portanto, a missão do América não é nada fácil. Mas, nos melhores scripts, é assim que se forjam os heróis.

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