TIRO LIVRE

O fundo do poço

O ano de 2005 mostrou que nada é tão ruim que não possa piorar. E ignorar os indícios de que há algo muito errado é praticamente sentenciar-se à morte novamente

postado em 26/04/2019 10:00 / atualizado em 26/04/2019 14:29

<i>(Foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)</i>

Há alguns lugares em que a gente evita conhecer, por ouvir por aí que não são muito agradáveis de visitar. O fundo do poço é um deles. Uma vez lá dentro, é preciso muita força de vontade (e às vezes até ajuda externa) para sair e, por mais que a passagem por ele abra novas perspectivas sobre a vida, não há dúvida de que é melhor aprender por caminhos menos tortuosos. Há quem consiga captar os ensinamentos na primeira derrocada, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Contudo, em alguns casos, a reincidência é compulsória, até que as lições sejam de fato compreendidas. Esse parece ser o perfil do Atlético, que de novo ronda perigosamente a borda do poço, como se não soubesse o perigo que se avizinha. O fundo está logo ali, basta apenas mais um vacilo, e não têm sido poucos os sinais de alerta para o alvinegro.

Pra começo de conversa, é preciso ressaltar que o Galo atualizou as definições de fundo do poço em 2005, quando caiu para a Série B do Campeonato Brasileiro. Foi o ápice do que de pior poderia ocorrer com o clube, que vivia um pesado jejum de títulos de expressão e vinha de seguidas campanhas decepcionantes em competições nacionais. Mas nada era tão devastador quanto o famigerado rebaixamento.

O descenso para a Segunda Divisão, há pouco mais de 13 anos, foi uma espécie de morte anunciada. Afinal, esse não é o tipo de problema que chega sem aviso. Não vem de surpresa. Não acontece da noite para o dia. É construído com erros, recorrentes, que aos poucos vão se tornando uma bola de neve. Quando o dirigente/torcedor/jogador acorda, é tarde demais. Não há mais saída. Foi. Caiu. No gélido e escuro fundo do poço, nada além de lamentações e arrependimentos. E a necessidade de se reerguer.

Nâo são poucas as pessoas que veem na Série B uma ferida necessária na vida do Atlético. Entendem que, a partir dali, as forças contrárias no clube, que protagonizavam uma queda de braço por semana, precisaram se unir para arrumar a bagunça generalizada. Não havia outra opção que não fosse encarar o problema e resolvê-lo. E isso demandava deixar vaidades de lado, abafar o ego, criar coragem.

Dentro dessa mesma teoria, existe a certeza de que todas as agruras vividas naquele momento tiveram relação direta com o período vencedor de 2013/2014. Era como se o Universo retribuísse ao atleticano sua dose de benevolência a partir da filtragem de todo o sofrimento. Um ciclo se encerrava. O círculo se fechava com as conquistas da Copa Libertadores e da Copa do Brasil. Especialmente do jeito que foi.

A partir dali, era hora de apreender a existência dos dois caminhos, afinal, o Galo havia passado por ambos. Sabia que estaria diante de uma rota que o levaria ao sucesso, mas a encruzilhada também reservava outra, cujo ponto final é o fracasso. Eis que, mais uma vez, o clube (na figura de quem o comanda), se embrenhou pela trilha errada. Ignorando os sinais amarelos, tem seguido insistentemente adiante, mesmo tendo a chance de mudar o percurso.

Desde o ano passado, fantasmas que pareciam exorcizados voltaram a assombrar. Equipes limitadas, desacertos dentro e fora de campo, resultados pífios, rodízio de treinadores, jejum de títulos, torcida revoltada, salários atrasados, dívida alarmante e crescente. Tudo causa e, ao mesmo tempo, consequência. Um cenário bem familiar. A temporada de 2019 acabou por ressuscitar, definitivamente, velhos demônios.

Ainda não é o fundo do poço. Fosse na fase pré-rebaixamento, poderíamos até dizer que o Galo já bateu lá. Mas o ano de 2005 mostrou que nada é tão ruim que não possa piorar. E ignorar os indícios de que há algo muito errado é praticamente sentenciar-se à morte novamente.

Não há desavisados no Atlético, muito menos pessoas inexperientes, novatos em futebol. Pelo contrário. Muitos do que estão no clube atualmente acompanharam o processo que levou à queda para a Série B. Se não de dentro, pelo menos de muito perto. E eu sei porque também acompanhei tudo aquilo, como repórter responsável pela cobertura do clube. Muito do que vem sendo feito agora não passa de reedição de erros passados, e que renderam muitas pautas naquela época.

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