Com derrota para a Holanda, o Brasil, de Rivellino, perdeu a chance de disputar a final com Alemanha
Defender um título de Copa do Mundo já não é tarefa das mais fáceis. Fazê-lo quatro anos depois do tricampeonato do mais brilhante selecionado que já vestiu a amarelinha em um Mundial era missão delicada. E mais complicado ainda era tentar a façanha sem vários de seus craques – entre eles Pelé, Tostão e Gérson. Dos 22 atletas convocados pelo técnico Zagallo para a Seleção Brasileira que disputou a Alemanha’1974, apenas três haviam sido titulares no Mundial do México’1970: Piazza, Rivellino e Jairzinho. Leão, Luís Pereira, Marinho Peres, Marinho Chagas, Nelinho, Leivinha, Valdomiro e Paulo César completavam o time que entrou em campo pela primeira vez em 13 de junho, num empate sem gols com a Iugoslávia, em Frankfurt, partida válida pelo Grupo B, que também tinha Escócia e o estreante Zaire.
Apesar das mudanças, o Brasil chegou como um dos favoritos à nova taça, já que a Jules Rimet havia sido entregue em definitivo aos brasileiros quatro anos antes. Polônia – do ponta Lato, que se consagraria artilheiro, com sete gols – e os iugoslavos, responsáveis por derrubar Inglaterra e Espanha nas Eliminatórias, corriam por fora, assim como a Argentina e a então vice-campeã Itália – a maior decepção do torneio, eliminada ainda na primeira fase.
Pôster oficial da Copa de 1974
Os outros dois cotados, que se enfrentariam em final histórica, opunham o pragmatismo à criatividade: a anfitriã Alemanha, liderada pelo líbero e capitão Franz Beckenbauer, e a Holanda, do maestro Johan Cruyff. Sem Pelé, que se aposentou da Seleção em 1971, Beckenbauer e Cruyff dividiram os holofotes do Mundial: O Kaiser pelos lançamentos precisos, marcação e espírito de liderança em equipe que contava também com os experientes e não menos consagrados Sepp Maier, Paul Breitner e Gerd Muller; e o holandês por ser a personificação do Carrossel, o revolucionário esquema tático implantado por Rinus Mitchells, com os atletas (entre eles os também habilidosos Neeskens e Rensenbrink) se movimentando e variando de posições.
A Copa do Mundo’1974 foi a primeira do brasileiro João Havelange ocupando o cargo máximo da Fifa, que assumira no lugar do inglês sir Stanley Rous. Além disso, a competição sofreu uma mudança de formato, passando a contar com uma segunda etapa de grupos no lugar do tradicional mata-mata das quartas de final e semifinal. Foram formadas duas chaves de quatro seleções, com os primeiros de cada uma classificando-se para a final, e os segundos colocados disputando o terceiro lugar.
As duas primeiras atuações do Brasil foram desanimadoras – dois empates sem gols com Iugoslávia e Escócia – e suscitaram dúvidas quanto à capacidade de o selecionado nacional passar à segunda fase pelo novo regulamento. E a vaga só foi confirmada com a goleada contra o Zaire por 3 a 0, na última rodada. No tríplice empate com 4 pontos (uma vitória e dois empates), Iugoslávia (que havia goleado os africanos por 9 a 0) e o Brasil se classificaram, deixando de fora a Escócia, que venceu o Zaire por 2 a 0.
Na fase seguinte, o Brasil caiu na Chave A, ao lado de Holanda, Alemanha Oriental e Argentina. Rivellino, de falta, garantiu a vitória sobre os alemães, pelo placar mínimo. E foi a patada atômica do camisa 10, de fora da área, que abriu o placar contra a Argentina, que empatou ainda no primeiro tempo com Brindisi, de falta. No início do segundo tempo, Jairzinho, o Furacão da Copa de 1970, garantiu a vitória.
Invictos, Brasil e Holanda se enfrentaram em Dortmund, em 3 de julho, valendo a vaga na decisão contra a Alemanha Ocidental, que no mesmo dia venceu a Polônia, com gol solitário de Gerd Muller. Com uma formação bastante modificada em relação à estreia (Zé Maria, Carpegiani e Dirceu conquistaram um lugar entre os 11), os brasileiros não foram páreo para encarar a Holanda de Neeskens e Cruyff, que fizeram os gols da vitória por 2 a 0. Antes, Zagallo havia desdenhado o adversário: “O time deles é bom, mas os holandeses não têm tradição em Copas e isso pesa. A Holanda não me preocupa. Estou pensando na final com a Alemanha”.
Na disputa pelo terceiro lugar, o Brasil, abatido e com a insatisfação aberta do goleiro Leão com o lateral Marinho Chagas, perdeu para a Polônia, de Lato, autor do gol. JOGO CLÁSSICO Na decisão do Mundial, em 7 de julho, em Munique, o futebol tradicional, mas eficiente, se sobrepôs à novidade. Se na Suíça’1954 os alemães haviam conquistado seu primeiro título ao superar a revolucionária Seleção da Hungria, de Ferenc Puskas, coube a Benckenbauer e cia., 20 anos depois, impedir o título da Holanda, vencendo por 2 a 1. O Kaiser voltaria a conquistar o título 16 anos mais tarde, na Itália’1990, desta vez como treinador. Campanha do Brasil
Primeira fase 13/6 Brasil 0 x 0 Iugoslávia 18/6 Brasil 0 x 0 Escócia 22/6 Brasil 3 x 0 Zaire Gols: Jairzinho 12 do 1º; Rivellino 6 e Valdomiro 34 do 2º
Segunda fase 26/6 Brasil 1 x 0 Alemanha Oriental Gol: Rivellino 15 do 2º 30/6 Brasil 2 x 1 Argentina Gols: Rivellino 32, Brindisi 35 do 1º, Jairzinho 4 do 2º 3/7 Brasil 0 x 2 Holanda Gols: Neeskens 5 e Cruyff 20 do 2º
Disputa de terceiro lugar 6/7 Brasil 0 x 1 Polônia Gol: Lato 31 do 2º
PERSONAGEM
Lateral-esquerdo Marinho Chagas é lembrado como vilão das derrotas
Marinho Chagas Apesar dos elogios da imprensa alemã pela velocidade e estilo ofensivo, o lateral-esquerdo Marinho Chagas (foto) é lembrado como vilão das derrotas do Brasil na Alemanha. Uma das estrelas do Botafogo, o potiguar foi levado por Zagallo à Copa com status de titular, deixando no banco o tricampeão mundial Marco Antônio (Fluminense), Ainda que o Brasil tenha terminado com a defesa menos vazada, com Zé Maria, Luís Pereira e Marinho Peres, o lado esquerdo, o de Marinho, era o mais vulnerável, o que rendeu ao jogador de cabelos longos e louros o apelido de “Avenida Marinho Chagas.” O goleiro Leão, que já estava impaciente com o jogador por deixá-lo cara a cara com os adversários na derrota para a Holanda, orientou o defensor a não subir ao ataque na disputa pelo terceiro lugar contra a Polônia. Marinho não obedeceu e o gol saiu em suas costas, com o perigoso ponta Lato entrando pela direita. Leão chegou enraivecido ao vestiário e partiu para cima do lateral.
VOCÊ SABIA?
Campeão Alemanha
Vice Holanda
Artilheiro Lato (Polônia) 1) Ameaças do ditador Na partida contra o Brasil, o jogador Ilunga Mwepu, do Zaire, protagonizou uma cena inusitada ao chutar para longe a bola quando Rivelino se preparava para bater uma falta. Anos mais tarde, o atleta disse que se desesperou, pois a equipe foi ameaçada pelos guardas do ditador Mobutu caso levasse mais de três gols. O jogo terminou 3 a 0.
2) A mando de outro ditador O ditador do Zaire não foi o único a interferir na vida de seus atletas. O haitiano Ernst Jean-Joseph, depois de se tornar o primeiro jogador a ser pego no antidoping (pelo uso de efedrina) foi sequestrado por capangas de Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, levou uma surra e ficou preso por dois anos.
3) Campeão em faturamento US$ 1,2 milhão era o rendimento anual do holandês Johan Cruyff, entre publicidade, premiações e salários, o que fazia do atleta do Barcelona o jogador da Copa com maior faturamento.
4) O primeiro vermelho O chileno Carlos Caszely levou o primeiro cartão vermelho da história das Copas, logo na estreia do Chile contra a Alemanha Ocidental (derrota por 1 a 0). O sistema de cartões foi implantado na Copa’1970, mas ninguém foi expulso no México.