#PiuDay: Alison dos Santos voa para fazer história e levar bronze em Tóquio

Brasileiro de 21 anos fez valer o favoritismo e chegou ao pódio nos 400m com barreiras no atletismo dos Jogos Olímpicos

03/08/2021 00:27 / atualizado em 03/08/2021 08:03
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Brasileiro completou a prova em 46.72s, a terceira melhor marca de todos os tempos dos 400m com barreiras
foto: Andrej Isakovi/AFP

Brasileiro completou a prova em 46.72s, a terceira melhor marca de todos os tempos dos 400m com barreiras

Alison dos Santos foi um menino tímido na infância. O acidente com óleo quente, quando tinha dez meses de vida, deixou marcas - na pele e no psicológico. Mas aquele garoto instrospectivo encontrou no atletismo uma maneira de seguir em frente. E seguiu. Até a medalha de bronze nos 400m com barreiras nos Jogos Olímpicos de Tóquio, uma das provas mais impressionantes da centenária história olímpica, disputada na madrugada desta terça-feira (início da tarde no Japão).



Fotos do bronze de Alison dos Santos, o Piu, o Malvadão



Aos 21 anos, o 'Piu', como é conhecido, percorreu o trajeto na pista do Estádio Olímpico em 46.72s e quebrou o recorde sul-americano pela sexta vez este ano. À frente dele, apenas o norueguês Karsten Warholm, que fez a prova em 45.94s, menor tempo da história. A prata ficou com o estadunidense Rai Benjamin (46.17s). Cumpriu-se o #PiuDay, hashtag utilizada nas redes sociais para incentivá-lo.

"Realmente foi uma prova uma prova louca, muito forte, histórica, em que fizeram o que achavam que era impossível: quebrar a barreira do 46s. E três atletas correram abaixo de 47s. Foi a prova mais forte da história e eu fico muito feliz de estar fazendo parte disso. Quando você está correndo, não tem noção do tempo que vai fazer, mas eu sabia que a prova tava realmente muito forte", disse, pouco após o bronze.

Nascido em São Joaquim da Barra, interior de São Paulo, o brasileiro conquistou a primeira medalha brasileira no atletismo nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Na raia 7, Piu ouviu incentivo das arquibancadas que ecoavam pelo suntuoso estádio com capacidade para 68 mil pessoas, mas que só receberam alguns jornalistas e atletas que não estavam competindo.

"Bora, Piu!", gritavam os poucos atletas-torcedores brasileiros presentes, enquanto outras provas se desenvolviam no local. E bastou. Piu buscou forças do apoio que teve e, muito concentrado, foi o primeiro a se ajeitar na raia e iniciar o aquecimento. Ao retornar para o ponto de partida, mostrou as palmas das mãos para os céus como se pedisse apoio divino para cumprir o sonho olímpico.

Só depois do aquecimento é que Piu, enfim, respondeu aos gritos da arquibancada. Timidamente, fez um sinal com a mão direita e se direcionou, ao lado dos adversários, para a parte interna do estádio. E só voltou para fazer história.
 
 

Piu nem parecia estar em uma final. Ele se divertiu. Feliz, leve e descontraído, o “Malvadão” para a torcida brasileira, levou as mãos à cabeça sem acreditar no que havia conseguido fazer. Foi protagonista ao conquistar a primeira medalha olímpica individual do Brasil nas pistas de atletismo desde o bronze de Robson Caetano nos 200m em Seul, 1988.

O segredo para uma performance tão impressionante? Aproveitar o momento. Ou melhor: “xavecá-lo”. “Sempre me dei muito bem aquecendo descontraído, levando tudo na leveza, escutando música, me divertindo e realmente ‘xavecando’ o momento”, contou Piu, em declaração que tirou risadas dos jornalistas que o entrevistavam.

Mas engana-se quem pensa que Piu não sentiu a pressão. O jeito descontraído é justamente uma forma de aliviá-la. “Eu estava muito ansioso, muito nervoso, com medo, porque tem pessoas que estavam assistindo. Queria dar orgulho para elas, porque tem o trabalho de pessoas, que estavam na pista comigo, e eu não poderia decepcioná-las”, admitiu.



 

Da timidez ao estrelato 


Natural da cidade de São Joaquim da Barra, em São Paulo, Alison Brendom Alves dos Santos. Por ser muito alto mesmo jovem, chamou a atenção de professores de um projeto social do município paulista já aos 14 anos. Contudo, Alison se recusava a participar.

O garoto era tímido, muito por conta de uma cicatriz que carrega consigo por conta de um acidente doméstico quando criança - aos dez meses, uma panela de óleo de cozinha quente caiu sobre ele, o que impede o nascimento de cabelo em certos pontos da cabeça. Após insistência dos professores e de pessoas próximas, o modesto Alison, que já tinha seus 1,90m, aceitou dar início no atletismo.

Desde a primeira competição - no Centro Olímpico de São Paulo, quando correu com uma touca amarela por vergonha da cicatriz - até os Jogos Olímpicos, Piu teve um crescimento enorme. Entre 2014 e 2019, quando se firmou como atleta olímpico, Alison dos Santos se sagrou campeão dos Jogos Pan-Americano de Lima, em 2019, e foi sétimo colocado no Campeonato Mundial de Atletismo de Doha, também em 2019.
 

Fotos do bronze de Alison dos Santos, o Piu, o Malvadão

 

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