Jackson rejeita título de melhor do mundo dos anos 80, mas admite dinastia da 12

Ex-ala do antigo futebol de salão foi o craque do time que conquistou a primeira Copa do Mundo da categoria para o Brasil e eternizou o seu número

postado em 06/12/2011 10:00 / atualizado em 06/12/2011 12:00

Arquivo pessoal
Muito antes de Falcão e Manoel Tobias, o futebol de salão, hoje transformado e denominado futsal, teve um craque que marcou a geração que acompanhava o esporte nos anos 80. O mineiro Jackson foi o principal nome da Seleção Brasileira e dono dos gols dos títulos das primeiras Copas do Mundo da categoria, em 1982 e 1985.

A importância de Jackson era destacada em meio a outros grandes jogadores, como Douglas e Carlos Alberto. O ala-esquerda, no entanto, era considerado o principal jogador do Brasil e foi apontado como o melhor do mundo em várias oportunidades nos anos 80.

Modesto, o mineiro rejeita o título e divide os méritos com os seus companheiros de Seleção e clubes que defendeu. “O pessoal me deu esse título e eu não me considero pelo seguinte, o grupo de atletas das seleções e clubes que joguei eram sempre de primeira linha. Essa marca acabou ficando porque ganhei muitos títulos seguidos. Foram 143 títulos, por isso que acharam que eu era o melhor do mundo”, explica.

Contudo, ele lembra da sua importância nos momentos importantes dos campeonatos. “Sempre jogava e fazia os gols que se tornaram decisivos. Foi assim no Mundial, Pan-Americano, Sul-Americano... Os títulos vieram e consequentemente o respeito de todo mundo também”, diz.


Na primeira Copa do Mundo, Jackson fez o gol do título em uma sofrida e difícil final contra o Paraguai, potência do futebol de salão da época. O Brasil venceu por 1 a 0. “Acabei fazendo o gol, mas o time todo era muito competitivo. Eu tive esse privilégio de ser o gol do título, mas poderia ter sido outro jogador também”.

A campanha do Brasil foi impecável, com 100% de aproveitamento no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. O caminho da final viu triunfos ante Argentina, Costa Rica, Tchecoslováquia, Uruguai e Colômbia. Ante o Paraguai, o Brasil teve que enfrentar também o goleiro Romero, que marcou a partida e irritou os torcedores presentes.

“Ele era uma figura e fez isso no campeonato todo. O Paraguai tinha um time muito bom. O Romero era muito catimbeiro. Bebia água durante a partida, colocava o copo na trave, oferecia para a torcida. Foi um jogo digno de decisão e uma vitória muito bonita”, recorda.

Reprodução/internet
Em 1985, o Brasil bateu a Espanha, tradicional rival, na final, na casa do adversário. O placar foi de 3 a 1 e o gol do título foi novamente de Jackson. Em 1988, na Austrália, Jackson ficou fora do Mundial, fruto da característica amadora ainda presente na categoria, na época.

“Eu poderia ter jogado essa Copa do Mundo mas fiquei fora. Na época, eu trabalhava para o Bemge e o banco não me liberou do trabalho. Como minha remuneração vinha do banco, e não do futebol de salão, eu não pude ir”, lembra.

O Brasil perdeu a final, em 1988, para o Paraguai, por 2 a 1. Depois, já sem Jackson, foram três títulos conquistados em sequência, até a Espanha ganhar em 2000 e 2004, aumentando a rivalidade no esporte, já com novas regras e com o nome de futsal.

Em 2008, a Copa do Mundo voltou a ser disputada no Brasil, que ganhou o título nos pênaltis justamente ante os espanhóis. A próxima edição da competição vai ser disputada no ano que vem, na Tailândia.

Dinastia da camisa 12

No Mundial de 1982, Jackson era um dos jogadores mais jovens da Seleção. Por isso, escolheu o seu número por último. Dentre as opções, ficou com a 12, que seria eternizada a partir de então.

“A camisa 12 começou a ser usada no salão, como a 10 do Pelé está para o futebol. Joguei dez anos na seleção, entre 1982 a 1991 como melhor do mundo. Foram títulos simbólicos. Quando se fala do 12 do salão, era como se fosse a do Pelé”, conta.

Depois de Jackson, Vander Iacovino e Falcão mantiveram a tradição na Seleção. “O Vander entrou na Seleção quando eu ainda estava. Acabei saindo e ele pediu para ficar com a 12. Depois, passaram ela para o Falcão. A história ninguém apaga. O primeiro a usar foi eu”, afirma, orgulhoso.

Saudosismo com o “futebol de salão”

Arquivo/Estado de Minas
Quando Jackson se destacava nas quadras, as regras e o nome do esporte eram diferentes. O futsal, como hoje é conhecido, era o futebol de salão. O ala-esquerda não esconde a preferência pelos “tempos antigos”, quando ele desfilava talento com a camisa do Olympico, em Belo Horizonte.

“Eu sou mais saudosista e tenho um carinho especial pelas regras do passado. O presente não me atrai muito. O jogo de hoje não tem emoção nenhuma. O pessoal cria a emoção de hoje através de marketing. Antes, era mais desafiador, porque a quadra era menor e o espaço era menor. Você era obrigado a chegar perto do gol para marcar. O goleiro não jogava”, afirma.

Segundo o craque mineiro, futsal e futebol de salão podem ser considerados esportes diferentes. “O futebol de salão que joguei, não tem nada a ver com o futsal. A bola é diferente, a postura do goleiro é diferente, as mudanças de atletas são diferentes, as dimensões da quadra aumentaram. O tamanho da bola já é um prenuncio de que o esporte mudou consideravelmente. O lateral com o pé não tem nada a ver com o lateral com a mão...”, afirma.

Hoje, Jackson diz que nem sequer joga mais nas quadras. Para ele, o principal esporte agora é o tênis. Futebol, só em pelada com os amigos em campo de grama. Mas a proximidade com o mundo esportivo nunca deixou de existir. Tanto que Jackson, formado em economia, é dono de loja de material esportivo, na Pampulha. Ele está no ramo desde que se aposentou das quadras, em 1995.

Bate-bola com Jackson

Arquivo/Estado de Minas
Você nunca pensou em jogar o futebol de campo, como Manoel Tobias, Lenísio e Falcão tentaram?
É o que eu falo. Tenho 55 anos. Eu não jogava salão, que para mim era recreação. Jogava era campo no final de semana. Mas não podia jogar naquela época profissionalmente. Não tinha como deixar o emprego ou os estudos para ir para algum clube, como Atlético, Cruzeiro ou outro. Meu pai não deixaria. A remuneração não era boa como hoje. Mas, na realidade, eu sempre joguei futebol de campo.

Depois que você se aposentou, não pensou em ficar no meio do futsal, como técnico, dirigente ou em outro cargo?
Não me procuram para isso. Acabei não correndo atrás e montei a loja. Só tem um clube que trabalha com isso aqui no estado, que é o Minas. O mercado já estava restrito. O Minas já tinha sua comissão. Se fosse em São Paulo ou morando em Santa Catarina, as perspectivas seriam outras, porque são mais equipes.

Como foi a sua passagem pelo Atlético, no primeiro grande time que ele montou no futebol de salão?
Elias Kalil que me convidou, em 1984. Fiquei feliz porque não perdemos nenhum jogo e nenhuma competição. Isso me deu um certo respeito. Nós ganhamos tudo o que entramos.

Acompanhou o time montado depois, no final dos anos 90?
Acompanhei e era um bom time. Manoel Tobias, Vander Carioca, Lenísio e outros. Eram todos grandes jogadores.