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Único remanescente do time "Campeão do Gelo", Vavá revela frustração e cobra reconhecimento

Aos 83 anos, ex-jogador relembra primeira grande excursão de um brasileiro à Europa

postado em 31/03/2015 08:00 / atualizado em 31/03/2015 09:39

Reprodução BH News - entrevista de 2012
O ex-jogador Walter José Pereira é uma lenda viva de uma história que todo atleticano deve se orgulhar. Vavá, como é conhecido, é o único remanescente da excursão do Atlético à Europa em 1950, quando o clube alvinegro conquistou o simbólico titulo de “Campeão do Gelo”.

O tempo, esse adversário imbatível, levou quase todos os membros daquela viagem, apagando, aos poucos, memórias de um momento importante para o Atlético. Talvez tão triste quanto a morte seja o esquecimento.

A falta de reconhecimento entristece Vavá, que, aos 83 anos, ainda insiste em resistir. O feito em 1950, de tão heroico, está imortalizado no hino do Atlético: “Nós somos campeões do Gelo / O nosso time é imortal”. Hoje, é palavra vazia. Muitos torcedores, inclusive, nem sequer conhecem essa página da história alvinegra.

“Fico frustrado não é por mim, não é por vaidade, é pela história do futebol brasileiro. O brasileiro, muitas vezes, não tem sensibilidade para estas coisas. É por isso que eu fico chateado”, conta Vavá. “Fico com pena de pessoas que brincam perguntando se a taça derreteu. É total falta de conhecimento e de respeito do que aquilo representou”, explica.
23/10/1950 - Arquivo Estado de Minas


Vavá tem razão no que diz. Aquela foi a primeira grande excursão de um clube brasileiro à Europa. As partidas do Atlético em solo europeu iniciaram o intercâmbio no futebol entre os continentes. “Como o nosso futebol era mais evoluído tecnicamente, eles vieram aqui procurar um clube para fazer uma série de amistosos na Europa. A ideia era levar um time que condensasse os valores do esporte praticado no Brasil. Embora o futebol naquela época ficasse muito restrito ao eixo Rio-São Paulo, o Atlético acabou sendo escolhido porque tinha uma equipe muito boa tecnicamente, éramos campeões mineiros”, conta.

Em dois meses, o Galo participou de dez jogos em cinco países (Alemanha, Áustria, Bélgica, França e Luxemburgo). Venceu seis partidas, empatou duas vezes e perdeu outras duas. No fim, recebeu, por parte da imprensa, a alcunha de ‘Campeão do Gelo’. Os bons resultados do Atlético foram surpreendentes também em função das adversidades climáticas. Era a primeira experiência daqueles jogadores em temperaturas negativas. Os destaques do Atlético foram Lucas, Nívio e Vaguinho, que anotaram três gols cada. “Foi uma surpresa grande, nunca nenhum de nós tinha ido à Europa. Lembro que precisamos comprar roupas de frio porque não levamos agasalhos suficientes”, conta Vavá, que, na época, com apenas 19 anos, era um dos suplentes do time.

Nas duas primeiras partidas, vitórias sobre Munich 1860 (3 x 4) e Hamburgo (0 x 4). “Recordo que em Hamburgo o campo estava lotado, o tempo estava firme, e demos um show de bola. Em Munique também, na estreia, fizemos um ótimo jogo”, diz Vavá. O Atlético ainda venceu Schalke 04 (1 x 3), Saarbrücken-ALE (0 x 2), Anderlecht (1 x 2) e Stade Français (1 x 2). Os empates vieram contra Eintracht Braunschweig (3 x 3) e Seleção de Luxemburgo (3 x 3).

O Galo perdeu para Werder Bremem (3 a 1) e Rapid Viena (3 a 0). “Contra o Werder Bremen entramos em campo um dia depois do jogo diante do Hamburgo, que vencemos por 4 a 0. Chegamos em cima da hora do jogo. Mas o que mais nos atrapalhou foi a neve. O campo lá era muito fofo e com a neve ele ficou encharcado”, diz.

“Perdemos para o Rapid Viena porque o Zé do Monte foi expulso, os jogadores do Atlético ficaram nervosos. Era um jogo que nós normalmente não perderíamos”, afirma Vavá. O curioso é que o time austríaco tinha em seus quadros Ernst Happel, que depois se consagraria como um dos idealizadores do futebol total.

Na Europa, o Atlético encontrou um cenário de pós-guerra. O maior conflito mundial, que durou de 1939 a 1945, deixou marcas que impressionaram os jogadores. “As cidades na Alemanha estavam destruídas por causa da Segunda Guerra Mundial. Foi um impacto que chamou muita atenção. Partes das cidades em ruínas, muitas construções destruídas. Mas mesmo assim a gente via a capacidade do alemão de recuperação, a gente via que eles já estavam refazendo a Alemanha”, disse.

O momento, que ainda era de austeridade, foi sentido pelos atleticanos. “A Alemanha passava por um regime severo e tínhamos um limite de comida no prato. A base era de batata e carne de porco”. Por outro lado, as belezas naturais também encantaram. “Viajamos de ônibus da Alemanha para a Áustria margeando rios incríveis. Me lembro da beleza de Viena, uma cidade linda”, destaca.

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Fizeram parte da viagem os goleiros Kafunga e Mão de Onça; os defensores Afonso, Juca, Márcio Pulit, Moreno, Oswaldo, Vicente Peres; os meias Barbatana, Zé do Monte, Haroldo e Lauro; e os atacantes Alvinho, Lucas, Murilinho, Nívio, Vagnho, Vavá e Zezinho. O técnico era o uruguaio Ricardo Diez. Também viajaram um médico (Dr. Abdo Arges), dois jornalistas dos Diários Associados (Francisco Américo era um deles), um interprete (Teodora Breickport), além do chefe da embaixada (Domingos Dângelo) e sua esposa (Dona Celeste).

Na volta a Belo Horizonte, uma multidão esperava a delegação alvinegra. Um banquete foi oferecido aos campeões, muito assediados por jornalistas e torcedores. “Foi uma coisa apoteótica. Belo Horizonte ainda não era uma grande metrópole. Acredito que metade da população estava na Avenida Antônio Carlos e na Afonso Pena para nos saudar”, conta Vavá, que reclama o esquecimento até do próprio Atlético.

“Nem lá no clube não há esse conhecimento. Lá só o Emerson Maurílio (do Centro Atleticano de Memória) conhece a fundo essa história. Ele inclusive foi à Europa, visitou os museus do Hamburgo e do Shalke. Lá, eles dão mais destaque ao nosso feito do que a gente aqui. Falta reconhecimento”.

Em Hamburgo, o clube local conserva dois minutos de filmagem de momentos que precedem a partida e alguns lances do jogo. Em Gelsenkirchen, uma linha do tempo retrata a importância do confronto para o Schalke 04. Por sua vez, o Atlético tem expostos em sua sede dois troféus (das partidas contra o Schalke 04 e Stade Français). Relíquias, como o passaporte do ex-jogador Kafunga, uma máquina fotográfica utilizada pelos jogadores e fotos, ficam longe do público por não haver um local ideal para exposição.

Hoje, Vavá descansa em sua casa no bairro Itapuã, na Pampulha. Segundo o site Galo Digital, o ex-atacante vestiu a camisa do Atlético em 118 partidas e marcou 58 gols. Encerrou a carreira de forma prematura, aos 23 anos, depois de descobrir um problema no coração. Tempos depois soube que o exame estava equivocado, e seu coração ainda está em ótimas condições. Fora das quatro linhas, fez carreira na Receita Federal. Atleticano apaixonado, Vavá é um dos fundadores do Centro Atleticano de Memória. Até por isso, ele insiste e resiste em lutar por mais divulgação dessa bela história.

“Lamento a falta de conhecimento do setor esportivo de modo geral. Aquela excursão foi um dos primeiros passos de grandeza de um clube brasileiro. Foi muito mais importante do que um simples título”.

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