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TIRO LIVRE

A reviravolta de Felipão

De uma forma ou de outra, o treinador do Palmeiras comprovou, na pele, a tese de suas próprias palestras

postado em 07/12/2018 12:45

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Não dá para encerrar 2018 sem falar daquele que talvez tenha sido o maior personagem da temporada em gramados brasileiros. Dono de um repertório que parece inesgotável. Que coleciona fãs e desafetos na mesma proporção. Luiz Felipe Scolari (foto). Um protagonista de grandes histórias – muitas delas sem final feliz. Desta vez, o roteiro foi tão positivo que ficou acima de qualquer expectativa. Imagino que até da dele mesmo.

Voltemos ao final do mês de julho. Felipão estava tranquilo em sua casa na bucólica Cascais, uma pequena cidade da costa portuguesa, de ruazinhas enfeitadas por flores, lojinhas de maravilhosos doces lusitanos espalhados por toda parte, enfim, um lugar para se esquecer do mundo, quando recebeu o telefonema que mudaria o rumo de sua vida em 2018. Era o convite para reassumir o Palmeiras. A escolha era: aproveitar o restante do verão europeu naquele oásis de tranquilidade ou voltar para a famosa “turma do amendoim” – como o próprio técnico descreveu os associados do clube paulista, desses que ficam à beira do alambrado, no estádio, a cornetar treinador, jogador, dirigentes e afins.

Sabe-se lá por que, no alto de seus 69 anos (completou 70 em 9 de novembro), Felipão escolheu a segunda opção. Alguém pode soltar de imediato: “Óbvio que foi por dinheiro”. Penso que essa seria a menor das possibilidades, já que a vida financeira dele deve ser das mais saudáveis, após passagens por seleções e clubes de várias partes do mundo.

Fato é que ele voltou. Pegou o Palmeiras em sétimo lugar, substituindo um de seus pupilos, Roger Machado. Depois de 11 rodadas, o time estava na liderança do Campeonato Brasileiro, na arrancada para o título. Terminou a competição com mais de 80% de aproveitamento, em 22 partidas. Desempenho impressionante.

Foi o sexto troféu do gaúcho em três passagens pelo clube, incluindo conquistas expressivas: na primeira, de 1997 a 2000, acrescentou à galeria palmeirense a taça da Copa Libertadores; na segunda, de 2010 a 2012, veio mais uma da Copa do Brasil, e agora a do Brasileiro.

Até 24 de novembro deste ano, a maioria das referências a Felipão estava atrelada ao fatídico 7 a 1 para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo de 2014. Depois da vitória por 1 a 0 sobre o Vasco, em São Januário, ele voltou a ver seu nome associado a triunfos. O comandante do penta, que ganhou a alcunha de perdedor após o traumático jogo no Mineirão quatro anos atrás, voltou a merecer a qualificação de vencedor.

De uma forma ou de outra, Felipão comprovou, na pele, a tese de suas próprias palestras. Desde que retornara ao Brasil, em novembro de 2017 (após deixar o chinês Guangzhou Evergrande depois de dois anos e sete títulos), ele voltou a se apresentar em eventos corporativos, retomando a vida de palestrante. De 2008 a 2012 (parou para assumir a Seleção Brasileira), a tônica do discurso era motivacional. Após o 7 a 1, o tema passou a ser superação, inclusive usando o placar da mais desastrosa partida de sua carreira. “Qual foi o seu 7 a 1?”, perguntava à plateia. “Qual a sua pior derrota?”, questionava. As conferências giraram, então, em torno da capacidade de se reerguer, de seguir em frente. Felipão seguiu em frente. E se reergueu.

Sou da turma que vê no treinador muitas das razões para aquela derrocada diante dos alemães, mas não do grupo que atira pedras nele insistentemente. É preciso reconhecer a volta por cima. Vou além. A lembrança que tenho de Felipão é até doce, se comparada a algumas respostas atravessadas que ele andou distribuindo a repórteres nos últimos anos.

Meu relato data de 2001, quando ele dirigia o Cruzeiro. Os treinos ainda eram na Toca da Raposa I, e eu, repórter do Estado de Minas, e Roberto Nery, do Diário da Tarde, estávamos na portaria do CT, à espera do carro da empresa, depois de acompanhar a atividade comandada pelo técnico. Eis que Felipão, em seu veículo importado, passa pelo portão e para próximo ao local onde estávamos. Ele abre a janela e nos pergunta, com o forte sotaque gaúcho: “Estão à espera de carro? Para onde vão? Posso lhes dar carona”. Agradecemos a gentileza e dissemos que íamos aguardar, porque o carro da empresa já estava chegando. Ele então sorriu, acenou e seguiu seu caminho.

Felipão mostra como a vida é feita de ciclos. Como a gente precisa ter paciência e resiliência nas tempestades, para esperar o sol voltar a brilhar. De alguma maneira, muitas vezes quando a gente menos espera, ele volta a brilhar.

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