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Histórias de superação para Blanco

Talvez o maior exemplo recente por essas bandas, e em quem Gustavo Blanco deva se mirar, esteja na Toca da Raposa II: o zagueiro Dedé

postado em 08/02/2019 08:41 / atualizado em 08/02/2019 08:46

<i>(Foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)</i>
Cair e levantar. Quantas vezes forem necessárias. Para o jogador de futebol, a metáfora, muitas vezes, está fora de campo. São os “carrinhos da vida”, que levam a interrupções forçadas na carreira por episódios médicos, um dos maiores pesadelos da vida de um atleta. O volante Gustavo Blanco (foto), do Atlético, teve a primeira lição em julho do ano passado, quando uma lesão no joelho esquerdo o afastou dos campos em momento em que atravessava grande fase. Na quarta-feira, o destino decidiu recolocá-lo à prova, com outra contusão grave no mesmo joelho. A má notícia ele já teve. A boa é que a recuperação e a volta aos gramados dependem sim dos médicos, mas também dependem muito dele. O que não faltam são casos para provar.

Talvez o maior exemplo de superação recente por essas bandas, e em quem Gustavo Blanco deva se mirar, esteja na Toca da Raposa II: o zagueiro Dedé. Nos últimos anos, ninguém por aqui sofreu mais do que o defensor celeste com contusões graves e deu a volta por cima com tamanha excelência. Contratado pela Raposa em abril de 2013 por US$ 6,5 milhões (maior transação feita, até então, pelo clube em sua história), ele chegou carregando a alcunha de Mito, pelas grandes atuações pelo Vasco. Foi um dos pilares da conquista do Campeonato Brasileiro daquele ano pelo time celeste. O calvário começou em 2014, quando estava no auge da carreira – Dedé tinha 25 anos, apenas um a mais que Blanco.

A primeira lesão no joelho direito foi inicialmente tratada de forma conservadora. Não adiantou e, em 2015, foram nada menos de três cirurgias. Após 14 meses fora da equipe, o zagueiro voltou a atuar em fevereiro de 2016, mas a alegria durou só seis jogos. De novo, o joelho direito, desta vez com uma fratura na patela. Mais tratamento sem sucesso, outra operação e mais um ano perdido. Em março de 2017, a tentativa de recomeço acabou interrompida por um edema ósseo no joelho esquerdo. E uma artroscopia atravessou seu caminho. Veio 2018 e, com ele, a redenção. Mais experiente e mais forte, mental e espiritualmente, Dedé voltou a ser o melhor zagueiro em atividade no Brasil.

Um ex-cruzeirense é outro exemplo para Blanco: o armador Montillo. Em junho de 2017, ele chegou a anunciar sua aposentadoria após cinco lesões seguidas em seis meses de Botafogo. Não suportou as dores físicas, nem o sofrimento emocional. Montillo se retirou para se tratar, mas não aguentou ficar definitivamente longe da bola e no fim daquele mesmo ano assinou contrato por produtividade com o Tigre, da Argentina, com salário fixo simbólico e reajustes segundo metas cumpridas. Em janeiro do ano passado, contudo, atravessou mais uma tormenta: em amistoso contra o Deportivo Morón, sofreu grave lesão no joelho direito, com rompimento do ligamento cruzado. Foram seis meses afastado. Em agosto, voltou a atuar, e tem sido importante para a equipe, que tenta se salvar do rebaixamento no Campeonato Argentino.

A biografia do futebol tem vários outros casos de superação para motivar Gustavo Blanco, mas uma delas foi, por assim dizer, fenomenal. O atacante Ronaldo sofreu e muito com as contusões durante sua vitoriosa carreira internacional. Quando não eram os problemas médicos, eram os físicos, decorrentes do tempo distante dos gramados. Psicologicamente, também precisou de acompanhamento para não sucumbir à pressão. Os primeiros sinais de problema apareceram em 1995, com tedinites crônicas nos dois joelhos. Na temporada 1999/2000, com a camisa da Internazionale, o rompimento do tendão patelar do joelho direito o tirou de combate por cinco meses. Na volta à ativa, após apenas sete minutos em campo em partida contra a Lazio, Ronaldo rompeu o tendão do joelho completamente. Caído no gramado, chorou copiosamente, numa imagem que rodou o mundo. Foram mais 15 meses de recuperação. No início de 2008, já no Milan, se machucou de novo, aos 2min de jogo contra o Livorno. Desta vez, foi o joelho esquerdo que fez o atacante chorar. Diagnóstico: rompimento do tendão patelar. De novo, lá estava na mesa de operação de um hospital. Mas o craque sempre voltou como craque. E, em meio a todo esse calvário na carreira, foi eleito o melhor do mundo três vezes (1996, 1997 e 2002) e conquistou uma Copa com a Seleção Brasileira (2002).

A seu favor, Gustavo Blanco tem não só a juventude, mas também um amadurecimento acima da média no mundo da bola. Articulado, é o tipo de pessoa que pensa antes de falar – acredite, é uma grande virtude, que nem todos têm. Também é um jogador que em vez de se limitar a correr atrás da bola ou dos adversários, corre atrás de conhecimento. Em entrevista ao repórter Túlio Kaizer, do Superesportes, no fim do ano passado, revelou ter aproveitado o período de tratamento para fazer cursos na área financeira. Essa sede de saber é outro indicativo de quão diferenciado Blanco é. Gosto de pessoas assim, que não se contentam em viver no automático.

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