Cruzeiro

E a bola voltou à rua

Cruzeiro leva categoria de base para treinar no asfalto. Projeto busca reviver o lado lúdico do futebol com o 'retorno às origens', de onde saíram vários craques

Para a comissão técnica da Raposa, a variação com os trabalhos fora de campo ajuda a despertar o lado criativo dos atletas
O futebol de rua, uma velha tradição que foi perdendo terreno com a expansão urbana, e que era uma fonte de revelação de craques, é a mais nova aposta do Cruzeiro. Desde março, o clube adotou um projeto em que seu time sub-13 treina não só no campo da Toca da Raposa I, mas também no asfalto. A Rua Varese, próximo ao centro de treinamento, vem recebendo a garotada. Os primeiros frutos já começam a ser colhidos, com jogadores promovidos para a categoria acima, a infantil. Douglas, Votorantim e Popó integraram o time que venceu o Atlético por 2 a 1, sábado, na Arena do Jacaré, em Sete Lagoas, partida do hexagonal final do Mineiro Sub-15.


O projeto foi elaborado por Klaus Câmara, diretor das divisões de base celeste. “Adotamos isso em março. O objetivo era resgatar o valor lúdico do futebol, o prazer em jogar bola, exercitar a criatividade, dar chance ao improviso. Estes sempre foram elementos que favoreceram o jogador. O começo de tudo, antigamente, era jogar na rua. Depois, o futsal. Então, resolvemos adotar a rua como parte dos nossos treinamentos e tem dado certo.”

Ver os meninos jogando “fora” é contagiante. Descalços, eles são pura desconcentração, sem perder a concentração na atividade. Ali, muitos têm cortes nos pés, esfolam os dedos, a canela. Mas parecem não se importar, como se estivessem envolvidos numa brincadeira.

Para o programa, profissionais do Cruzeiro foram escolhidos a dedo. O treinador é Lucas Batista. O preparador físico, Rafael Calado. O preparador de goleiros é Derli de Paula, que descobriu figuras como Rafael, reserva de Fábio, Gabriel, hoje na Itália, e Elisson. O supervisor, Lucas Drubsky, é filho do treinador Ricardo Drubsky.

Quando os trabalhos são feitos no quarteirão da Varese, uma vez por semana, normalmente pela manhã, há colaboração tanto de moradores quanto de motoristas, já que o trânsito não é interrompido. Os veículos param ou reduzem a velocidade quando a bola está rolando. E os vizinhos devolvem a pelota se ela cai em seus terrenos. Klaus tem a preocupação de seguir tudo de perto. “Quem está de fora avisa se vem carro”, observa.

Descalços, os garotos do time sub-13 participam de atividades pelo menos uma vez por semana na Rua Varese: dedos esfolados em meio a muita descontração
Uma parte do grupo, que tem 25 meninos, é oriunda do futsal, como Davi. O pai dele é o ex-volante Marcos Paulo, que jogou pela Raposa no fim dos anos 1990, e a mãe é uma ex-líbero do Minas, Renatinha. “O esporte está no sangue lá em casa”, diz Davi, que era atleta do Olympico, conhecido como bom marcador e articulador de jogadas. No futebol de campo, é armador.

Já Matheus, filho do ex-goleiro Milagres, técnico da base do América, optou por outra posição. “Nunca pensei em seguir a escolha de meu pai. Gosto de fazer gols.” Ele é atacante, mas joga também na lateral esquerda.

Além de Davi e Matheus, quatro jogadores são oriundos do futsal: Gustavo, o Lourinho, era do Sport de Juiz de Fora; Alan, do Olympico; Juan Nilson e Enock, do Repique, de Contagem.

CONCILIANDO COM ESTUDOS Uma política adotada ainda na década passada permite que o Cruzeiro mantenha esse grupo de garotos. Os que são do interior moram na Toquinha. Além de alimentação e dormitório, estudam na Escola do Cruzeiro. Os que vivem na capital, como Davi, vão diariamente ao CT. “Sei que o estudo é importante e, por isso, gostaria de morar aqui e estudar com os outros meninos.”

MEMÓRIA
Com Yustrich de olho

No passado, Dorival Knippel, o Yustrich, tinha por hábito não só acompanhar as peladas de rua, mas também fornecer as bolas para os meninos, trazidas dos times que treinava em Minas. O técnico passaria por Atlético, América, Cruzeiro, Villa Nova e Siderúrgica. Ele morava na esquina das ruas Dante com Camões, no Bairro São Lucas. As peladinhas aconteciam na garagem de seu prédio, que era grande, ou no quarteirão seguinte, onde morava ninguém menos que Carmine Furletti, que, ao lado de Felício Brandi, foi o grande responsável pelo crescimento da Raposa. Ali também moravam parentes de Roberto Batata, atacante celeste nos anos 1970. Dois de seus primos, Didi e Serginho, foram levados para a base do Coelho. Além deles, saíram de lá Zé Ernesto (goleiro), Rodrigo (zagueiro), Carlos Cutia (zagueiro), Léo Fallabela (armador), Juninho (atacante) e Lucindo (ponta-esquerda), todos garimpados por Yustrich.

POR DENTRO DA PELADA

As etapas do treinamento


1) Controle: três jogadores na linha e um no gol. O trio troca passes sem deixar a bola cair. A partir do terceiro toque, vale o chute. Cada gol (o muro é a meta) vale um ponto. O goleiro pontua com defesa firme ou bola fora. Ao terceiro ponto, troca-se o goleiro, ou este vai para a linha, caso seja vencedor

2) Paulistinha: o mesmo critério do controle, mas com a bola rolando

3) Cruzamentos: um jogador cruza da direita e outro da esquerda para o cabeceio ou complemento ao gol com um dos pés

4) Peru: na roda de bobo, um jogador fica ao meio tentando tomar a bola dos demais, que trocam passes em um ou dois toques. Quando ele toma a bola, o último a tocá-la se torna o peru.