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Fred diz que presidente do Cruzeiro está 'transferindo responsabilidade' e garante: 'Rescisão indireta foi único caminho que restou'

Atacante ainda criticou condução do Conselho Gestor no primeiro trimestre

postado em 20/07/2020 16:54 / atualizado em 20/07/2020 17:42

(Foto: Lucas Merçon/Flluminense)
Em nota com muitas críticas ao atual presidente do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, o atacante Fred se posicionou nesta segunda-feira sobre o imbróglio vivido com o clube celeste. Ele afirmou que o pedido de rescisão indireta de seu contrato, feito na Justiça do Trabalho, foi a única saída encontrada para definir um rumo da sua carreira. 

Ele afirmou que o atual mandatário celeste tem tentado ‘politizar’ o caso e transferir a responsabilidade para a gestão do ex-presidente Wagner Pires de Sá, responsável pela contratação de Fred no início de 2018 (leia a nota do atacante, na íntegra, ao fim desta reportagem).

“Mesmo tendo consciência de que existem sempre dois lados para uma mesma história, não posso deixar de revelar a minha insatisfação com a politização do caso. O que tem buscado a atual gestão é transferir a responsabilidade pelo cumprimento de obrigações validamente assumidas pela instituição a dois antigos integrantes da administração passada. Se esse será o caminho, cabe apenas à justiça a decisão final”, escreveu o atacante, hoje no Fluminense.

No comunicado, Fred também diz que tentou uma saída amigável do Cruzeiro e esteve à disposição do Conselho Gestor - grupo de conselheiros que administrou o clube entre dezembro de 2019 e maio de 2020 -, mas não teve qualquer resposta. 

A intenção jamais foi prejudicar o Cruzeiro. Apesar de compreender as limitações do Conselho Gestor, sentei-me à mesa com eles em mais de uma oportunidade, apresentei os valores da minha rescisão, disse estar aberto a uma composição, mas nunca obtive retorno”, garantiu.

Na última quinta-feira, durante uma live, o presidente do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, que assumiu o cargo em 1º de junho, disparou contra o vínculo firmado pelo clube com Fred

“É um contrato dos mais desastrosos que já vi. Eu até queria falar (chamar de) criminoso, mas ainda não temos certeza disso. É um dos piores e mais absurdos contratos que eu já vi na vida em termos de valores, comissões, enfim. Tudo que ele envolve. É um contrato tenebroso para o Cruzeiro Esporte Clube”, disse.

Procurado, o departamento de comunicação do Cruzeiro não se pronunciou até a última atualização desta reportagem.

Conselho Gestor responde


Citado por Fred na nota, o Conselho Gestor também foi procurado pela reportagem. Saulo Fróes, que comandou o grupo, respondeu ao comunicado de Fred. Ele afirmou que o atacante não quis dar "um centavo de desconto" no acordo.

"Essa é a versão dele, vamos para a nossa e verdadeira. Realmente, houve essa reunião para acerto, mas as condições que ele e o procurador propuseram fugiam totalmente a uma proposta para um acordo com interesses mútuos. Como todos sabem, era um contrato fora de qualquer realidade e que todos já comentaram: absurdo!", disse Fróes. 
 
"A proposta dele não contemplava um centavo de desconto, e apenas dividia os valores. Mas ele queria imediatamente começar receber mensalmente um valor e o restante seria dividido a partir maio 2021 (...) O acordo seria mais de R$ 30 milhões e incluia a multa do Atlético e até rescisão da saida (do Atlético)", explicou Saulo.

"Ainda bem que tivemos lucidez e não fizemos esse acordo, porque seríamos tachados de irresponsáveis, tanto é que o atual presidente também ficou apavorado quando viu as bases do contrato dele", complementou. 

Entenda o caso


Em ação ajuizada em 7 de fevereiro deste ano, Fred pleiteou tutela de urgência para rescindir o contrato de maneira unilateral com o Cruzeiro, além de cobrar salários, férias, 13º, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), aviso prévio, luvas e cláusula indenizatória. Somados, os valores superam R$ 70 milhões.

Na contestação ao processo movido pelo atacante Fred na 1ª Vara do Trabalho de Belo Horizonte, o Cruzeiro solicitou a reativação do contrato por discordar de todas as alegações do jogador à Justiça, especialmente em relação a uma cláusula compensatória de R$ 50 milhões.

O clube esclareceu que não quer Fred de volta. Na verdade, a instituição usou “argumentos técnicos” para tentar derrubar a cláusula compensatória milionária.

Em antecipação à audiência com Fred agendada para sexta-feira, 31, a defesa do Cruzeiro ainda pediu que o ex-vice-presidente de futebol, Itair Machado, e o ex-presidente, Wagner Pires de Sá, fossem incluídos como responsáveis solidários no imbróglio envolvendo o centroavante e o Atlético, em batalha judicial paralela.

Com 90 páginas, a petição do Cruzeiro é uma resposta à liminar obtida por Fred, em fevereiro, e que lhe garantiu a rescisão contratual devido a atrasos salariais e outros direitos não cumpridos. O jogador assinou por dois anos com o Fluminense, pelo qual já disputou três partidas, sem balançar a rede.

Os advogados celestes pedem a reconsideração do “deferimento da tutela de urgência”, uma vez que o atleta não sofrerá “prejuízo na profissão”, e o reestabelecimento do  “contrato especial de trabalho desportivo, até solução final da lide ou após seu termo final”.

Contrato de Fred


No resumo da argumentação, a defesa do Cruzeiro listou os compromissos firmados na gestão de Wagner Pires de Sá com Fred, como o salário mensal de R$ 800 mil entre 1º de janeiro de 2018 e 31 de dezembro de 2020, os bônus estabelecidos no contrato de trabalho, uma cláusula compensatória de R$ 50 milhões e pagamentos de valores a título de luvas, de mais de R$ 10,4 milhões.

O Cruzeiro entende que Wagner e Itair assumiram o risco de fechar um contrato de três anos com Fred, mesmo sabendo que o Atlético, ex-clube do atacante, havia estipulado uma multa de R$ 10 milhões em caso de transferência para a Raposa.
 
Entre os motivos para a inserção dos ex-dirigentes como responsáveis solidários estão o crescimento substancial em ações trabalhistas contra a instituição e um indício de fraude ao colocarem como garantia de pagamento ao rival as receitas de televisão oriundas da Rede Globo.
 
A respeito da indenização de R$ 50 milhões, o Cruzeiro pediu nulidade por entender que se trataria de enriquecimento ilícito, uma vez que a intenção de encerrar o vínculo partiu do próprio jogador, sem a anuência da diretoria que sucedeu Wagner Pires de Sá.

Segundo o Cruzeiro, Fred também não fez qualquer manifestação de insatisfação com remunerações atrasadas no período em que a equipe disputava a Série A do Campeonato Brasileiro, entre abril e dezembro de 2019. O desejo de deixar a Toca se tornou público somente depois do rebaixamento à Série B, consequência de “gestão temerária correspondente aos períodos de 2018/2019”.

Passagem de Fred pelo Cruzeiro


Em sua segunda passagem pelo Cruzeiro, Fred disputou 69 jogos e marcou 25 gols. Na temporada 2018, ele teve a sequência prejudicada por causa de uma grave lesão no ligamento cruzado anterior do joelho direito, em março. Seis meses depois, o camisa 9  se recuperou do problema e voltou a entrar em campo pelo Campeonato Brasileiro, além de ficar no banco de reservas na campanha do hexacampeonato da Copa do Brasil.
 
Em 2019, Fred começou bem o primeiro semestre, sendo artilheiro do Campeonato Mineiro, com 12 gols, e ajudando o Cruzeiro a levantar o troféu. Depois, caiu de produção, especialmente no Brasileiro, no qual não conseguiu render de maneira satisfatória para livrar o time do rebaixamento. O centroavante de 36 anos deixou a Toca com 81 gols em 140 partidas, dividindo com Fábio Júnior 22ª posição entre os maiores artilheiros da história do clube.

Nota publicada por Fred nesta segunda-feira


Ao longo dos últimos meses, tenho notado um crescimento no número de entrevistas, declarações e notas à imprensa a respeito do meu contrato com o Cruzeiro Esporte Clube, especialmente da parte dos integrantes da nova diretoria, recém-empossada. É compreensivo (e até mesmo natural) que um Presidente eleito esteja sedento para resolver os conhecidos problemas que assolam o Cruzeiro, colocando toda a sua energia na tentativa de aproveitar o seu capital político atual, algo que tem sido lamentavelmente raro no Clube.

Até mesmo por compreender o momento, procuro evitar debates via imprensa. Acredito que polêmicas apenas geram mais polêmicas e em nada contribuem para uma melhor solução do problema, que deve ser sempre aquela com menor desgaste possível para todos os envolvidos. Infelizmente, não tem sido essa a postura do Presidente Sérgio Santos Rodrigues, que nunca me procurou para discutir qualquer assunto relacionado ao Cruzeiro. A sua postura, ao contrário, tem sido a de fazer colocações públicas carregadas de duplo sentido, tentando gerar no torcedor a ideia de que a minha negociação com o Clube foi repleta de irregularidades. Muitas vezes, em suas declarações, o Sr. Presidente tem ultrapassado a sutil barreira que separa a liberdade de expressão do respeito à dignidade de um profissional (extensível aos seus familiares). Justamente por entender que alguns limites têm sido ultrapassados é que irei me posicionar publicamente.

Os meus representantes foram procurados pelo Cruzeiro e acertaram a minha transferência para o Clube. A situação contratual com o Atlético e as minhas pretensões salariais foram expostas com absoluta transparência, como fazem prova os documentos que hoje são parte integrante de um desgastante procedimento arbitral e de uma ação trabalhista ainda em fase inicial. Posso dizer, com absoluta tranquilidade, que as bases do meu contrato com o Cruzeiro seguem o padrão estabelecido ao longo de minha carreira, sem nada que possa ser considerado aberrante, anormal. O processo que hoje corre perante a Justiça do Trabalho é público e os documentos estão lá à disposição de quem desejar acessá-los.

Alguns esclarecimentos adicionais são igualmente necessários. Ao longo dos últimos anos, convivi com atrasos diversos no cumprimento dos meus contratos, algo que nunca foi exposto publicamente. Não bastasse isso, orientei os meus assessores a colaborarem com o Clube sempre que possível, em todos os aspectos. Reitero: a intenção jamais foi prejudicar o Cruzeiro. Apesar de compreender as limitações do Conselho Gestor, sentei-me à mesa com eles em mais de uma oportunidade, apresentei os valores da minha rescisão, disse estar aberto a uma composição, mas nunca obtive retorno.

A decisão de ingressar na Justiça do Trabalho foi tardia e quase custou o fim precoce da minha carreira. Ao contrário da orientação dos meus advogados, confiava em uma liberação amigável, já que não era interesse do Clube a minha manutenção no elenco, com ou sem a revisão das bases financeiras. Essa hesitação quase me impediu de seguir trabalhando. Não recebia salários, não podia treinar com o grupo, a negociação para a minha liberação não avançava, o Clube ia assumindo novos compromissos, enfim, o cerco ia se fechando e uma decisão precisava ser tomada. O caminho da rescisão indireta foi o único que me restou.

Mesmo tendo consciência de que existem sempre dois lados para uma mesma história, não posso deixar de revelar a minha insatisfação com a politização do caso. O que tem buscado a atual gestão é transferir a responsabilidade pelo cumprimento de obrigações validamente assumidas pela instituição a dois antigos integrantes da administração passada. Se esse será o caminho, cabe apenas à justiça a decisão final.

Sigo tranquilo com o fato de que a questão foi submetida ao Poder Judiciário, que está absolutamente acostumado com assuntos mais importantes e com pressões muito mais intensas. Continuarei evitando entrevistas e declarações públicas, pois aprendi que as partes conversam com o Juiz por meio de petição redigida por seus advogados e não pela imprensa.

Frederico Chaves Guedes

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