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Miguel nas pegadas de Lionel

Mineirinho é o único brasileiro selecionado pelas peneiras do Barcelona este ano

postado em 10/08/2013 08:00 / atualizado em 10/08/2013 08:43

Leandro Couri/EM/D.A Press


Renan Damasceno

Enviado especial

Curvelo – Alguns dentes são de leite, outros nem nasceram, o que não impede o pequeno Miguel de abrir um sorriso desinibido toda vez que é perguntado sobre qual time vai jogar: "Barcelona", resposta semelhante a de qualquer outro garoto de 8 anos, não fosse por um detalhe. Não é sonho, é realidade. Desde 20 de junho, quando recebeu um e-mail que fez toda família desabar em lágrimas de felicidade, Miguel Carvalho Vianna é jogador do maior clube do mundo da última década – o único brasileiro selecionado pelas peneiras do time catalão para a temporada 2013/2014.

Miguel nasceu em Curvelo, na Região Central de Minas, a 170 quilômetros de Belo Horizonte, em 9 de março de 2005. Até abril deste ano, quando embarcou pela primeira vez para a Espanha, nunca havia passado muito além da divisa do estado. Sobrinho do ex-atacante Euller, não demorou muito para dar os primeiros chutes na bola, no gramado sintético da Arena Filho do Vento, escolinha para quase 300 alunos, idealizada pelo atacante, nascido na vizinha Felixlândia, e administrada pelo pai, Clayton Viana, e pela mãe, Sonali Tatiane, irmã do ex-jogador de América e Atlético.

Animado pela desenvoltura do garoto – canhoto, que também chuta bem com a perna direita –, Clayton não passava um dia sem pesquisar datas de peneiras e mandar e-mails para os principais clubes da Europa. Em abril, recebeu uma resposta do Barcelona, que a peneira mundial para meninos nascidos em 2005 estava aberta. Miguel, que havia acabado de completar 8 anos, deveria comparecer ao centro de treinamento do clube em menos de um mês.

Com o pai e o tio Euller, entusiasta e conselheiro da família, embarcou para a capital da Catalunha para o primeiro teste, em 11 de maio, na Cidade Esportiva Joan Gamper, principal centro de treinamento do clube. Entre 300 aspirantes a jogador de todo mundo, foi selecionado para a segunda etapa, em 8 de junho, quando retornou para testes ao lado de apenas 30 meninos (outro brasileiro, um garoto de Cuiabá-MT, ficou pelo caminho). Quase duas semanas depois, recebeu a resposta: estava aprovado para treinar na FCBEscola, a prestigiada escola formadora de atletas do clube catalão.

CONSELHOS E TAPINHA DE MESSI

"Na primeira etapa não foi muito difícil, havia meninos do mundo inteiro e alguns eram bem ruinzinhos. No segundo, foi um pouco mais difícil. Joguei bem, fiz o que eu já sabia. O papai fala que eu jogo demais. Eu tive confiança e passei", conta o menino, antes de citar os jogadores que teve oportunidade de conhecer na véspera do primeiro teste: Xavi, Adriano, Daniel Alves e Messi, seu grande ídolo, que deu um tapinha na cabeça de Miguel, desejando boa sorte, depois de autografar a camisa, já cheia de assinaturas, que o mineiro guarda com carinho.

O brasileiro Adriano deu um conselho ao pé do ouvido, que encheu o garoto de confiança: "Costura os meninos lá amanhã, hein?". De Daniel Alves, ele recebeu uma chuteira e a promessa de ajuda à família, especialmente ao irmão mais velho, João Victor, de 11 anos, capitão do time sub-12 do América, que vai tentar a peneira do rival do Barcelona, o Espanyol.

Miguel, João Victor e os pais se mudam no mês que vem para Barcelona. Como os contratos só podem ser assinados depois que o garoto completa 12 anos – quando também são transferidos para La Masia, o alojamento dos atletas –, a família terá de bancar todas as despesas, que não devem sair por menos de 2 mil euros (cerca de R$ 6 mil) por mês. Nesse período, eles vão viver dos rendimentos da escolinha e de uma loja que mantêm em Curvelo. A expectativa é que, em alguns meses, de acordo com o rendimento do garoto, o clube possa dar ajuda de custo, como aluguel e estudo.

"O Barcelona exige que a gente more na cidade. Na idade dele, eles não ajudam em nada. O clube ainda não conhece o jogador direito. Com o tempo, até pelo que eu conversei com outros pais, eles procuram para dar uma atenção especial", conta Clayton. "Pelo que a gente percebe, o Barcelona convoca um jogador para a vida toda. A gente sabe que nem todo mundo vai ser estrela. Alguns desistem, outros são dispensados por índice técnico. Muita gente pergunta até quando a gente vai ficar lá. Se tudo der certo, pelo resto da vida", completa a mãe, Sonali.

Enquanto a viagem não chega, João Victor e Miguel dividem o tempo entre jogar futebol na varanda de casa, assistir jogos pela TV e treinar entrevistas em espanhol, como conta o irmão mais velho. "Eu faço as perguntas e ele me responde em espanhol. Às vezes ele enrola e inventa umas palavras, mas tem que ensaiar para chegar lá e fazer tudo direitinho."


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