Superesportes

DITADURA E FUTEBOL MINEIRO

As históricas entrevistas de Reinaldo e Tostão que 'desafiaram' a ditadura militar no Brasil

Regime ditatorial se iniciou em 31 de março de 1964, há exatos 55 anos

João Vitor Marques Tiago Mattar
Entrevistas de Tostão ao Pasquim e Reinaldo ao Movimento tiveram grande repercussão - Foto: Reprodução/Pasquim e Reprodução/Movimento

O futebol mineiro teve personagens que desafiaram, direta ou indiretamente, a ditadura militar no Brasil (1964-1985), período iniciado em 31 de março de 1964 - há exatos 55 anos. Foram os casos de Reinaldo, ex-Atlético, e Tostão, ex-Cruzeiro. Para relembrar essas histórias, o Superesportes revisitou entrevistas históricas dos dois ex-jogadores, que incomodaram o poder à época.

Reinaldo

Artilheiro do Atlético, Reinaldo tem uma série de declarações em que contesta a ditadura militar. A entrevista mais emblemática do jogador foi publicada em 6 de março de 1978, pelo jornal oposicionista Movimento. Leia a seguir trechos marcantes da reportagem, assinada por Aloísio Moraes, Maurício Azêdo e Valério Campos:

“Reinaldo: bom de bola e bom de cuca”

“O mais novo fenômeno do futebol, o centroavante Reinaldo também é bom de ideias. A favor da organização dos jogadores em associações, critica o individualismo, defende a anistia, a Constituinte e, ao contrário de Pelé, acha que o povo brasileiro está preparado “como sempre esteve” para votar.”

Leia algumas declarações de Reinaldo em meio ao texto dos repórteres:

Reinaldo foi destaque seguidas vezes do Movimento - Foto: Reprodução/Movimento

Críticas a Pelé: “Afirmando que Pelé se perdeu no meio de seus assessores e por isto não tem opinião própria, “pois no futebol é muito difícil preservar a personalidade”, Reinaldo, ao contrário de Pelé, acha que o povo brasileiro está preparado “como sempre estava” para votar. “Eles fizeram o povo se afastar da política, mas é claro que o povo tem maturidade para votar. Isso já foi demonstrado diversas vezes no passado e não é possível que quem já votou uma vez vá ficar imaturo depois de velho.
Está na hora de aproximar todo mundo das decisões políticas. O povo tem sua opinião e essa opinião deve ser respeitada”.”

Anistia política: “Ao comentar o problema da anistia, o artilheiro do Campeonato Nacional além de defendê-la diz que “ela vai acontecer mais cedo ou mais tarde porque em tudo deve haver oposição, pois é assim que surgem novas ideias e caminhos diferentes”. Também concordando com a necessidade da convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte para eleger os colaboradores de uma nova Constituição. Reinaldo acrescenta que “em tudo o povo tem que ter participação. Nós temos que depositar confiança em quem votamos para sermos retribuídos de alguma forma, nem que as futuras gerações seja beneficiadas”.”

Defesa pelo voto direto: “Esse mesmo pensamento em torno da participação popular nas decisões nacionais ele demonstra em relação ao voto direto, salientando que “a participação maior tem que ser do povo, a renovação é necessária em tudo, o povo tem o direito de votar e escolher seus governantes. Ainda bem que ultimamente o povo está participando mais da vida do país demonstrando seu interesse em participar”. Também favorável a uma distribuição de renda, o atacante do Atlético observa que “a gente dá mais lucro para o dono e o salário não dá. Você trabalha oito horas e o patrão só paga o salário que na verdade só corresponde a uma hora de serviço. Devia-se dar mais atenção para esse problema porque a coisa não pode ficar assim”.”

Tostão

Mais comedido que Reinaldo, o ídolo celeste Tostão também se posicionou contra a ditadura e as restrições de liberdade impostas pelo regime militar. Em histórica entrevista ao semanário alternativo Pasquim, publicada em 10 de maio de 1970, o ex-jogador fala sobre questões consideradas polêmicas à época. Leia a seguir trechos marcantes da entrevista, feita por Marilene Dabus, Sérgio Cabral, Sérgio Oliveira, Ziraldo, Martha Alencar, Fortuna e Tarso de Castro:

“Tostão: apresentado por Saldanha”

Imagem da entrevista de Tostão ao Pasquim - Foto: Reprodução/Pasquim

Defesa a dom Hélder Câmara, grande defensor dos direitos humanos durante a ditadura militar no Brasil: “Eu sou mais da linha de D. Hélder. Eu acho que o que vale é o que a gente faz na vida, se a gente faz bem ou mal a uma pessoa.
Se a gente faz o bem, não importa que a gente vá à igreja, que a gente reze, isso é um pouco secundário. Mas nós temos que seguir uma coisa, uma forma de vida pra que isso seja realmente uma rota da nossa vida. Eu acredito em Deus, acho que tudo vem de Deus e nós não conseguimos nada sem Deus. Eu acho que temos que viver todas as coisas que são boas e que a gente almeja. Agora, essa questão de ir à igreja, de rezar, comungar, confessar é uma questão de rotina, de natureza e como eu disse antes, eu não sou um católico fervoroso de ir à igreja, de confessar.”

Sobre Deus: “Às vezes, o ídolo não pode dizer porque vai de encontro ao povo. Pode existir um grande ídolo que não acredite em Deus, o que não é o meu caso, então ele nunca diz que não acredita em Deus, porque ele ele disser o povo vai contra ele. Ele precisa conservar sempre a imagem do ídolo popular.”

Críticas à falta de liberdade durante a ditadura: “Infelizmente, ainda não podemos agora dizer o que queremos porque estamos privados de muita coisa. Eu acho que isso é um direito de todo homem, está escrito na Constituição, isso é lei. Mas infelizmente… Quer dizer, está na Declaração dos Direitos do Homem. Às vezes, a gente tem que ficar sujeitos a coisas que vêm de cima, então a gente não pode dizer o que quer, o que pretende.
O certo seria que todo mundo tivesse as suas ideias, falasse as  suas ideias e mostrasse o que pensa, o que acha, e não a gente ficar numa coisa só e ficar sujeito a aceitar isso e não poder dizer mais nada, eu acho isso errado.”

No meio do futebol: “Eu acho que às vezes a gente é privado de dizer muita coisa que quer dizer. Isso a gente não pode negar, mas no meio do futebol isso acontece muito menos. A gente tem liberdade, principalmente entre os jogadores de dizer o que pensa e o que quer.”

EUA na Guerra do Vietnã: “Eu acho que é uma guerra realmente suja. Eu acho que ninguém é a favor da guerra do Vietnã, é uma guerra mais econômica. A América do Norte precisa manter sempre a sua produção de aço em atividade, com isso eles estão lucrando. Eu acho que é mais uma guerra econômica do que uma guerra de ideais.”

Pílula anticoncepcional: “Eu acho que isso depende de cada um, é uma coisa que não deve ser controlada. O excesso de população pode ser um mal no mundo, então eu acho que deve ser um problema resolvido por cada um.”

Críticas a Yustrich, técnico conhecido por ser disciplinador: “Como técnico eu acho ele um grande técnico, mas eu não concordo com o modo de ele trabalhar com os jogadores, porque eu acho que o jogador deve ser mais respeitado, não deve ser tratado como um escravo, mas como um ser de responsabilidade. Às vezes, o Yustrich vai muito além das suas condições de técnico.”

Encorajamento a jogadores: “Se o jogador não procurar reagir, entrar em contato com outras coisas, ele fica bitolado, preso a futebol só e, quando ele para de jogar, fica às vezes sem saber o que fazer no mundo, sem ter condições para tentar outras coisas.”
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