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NEGÓCIOS DO ESPORTE

SAF: especialista vê investidores mais interessados em clubes de formação

Na visão de Claudio Pracownik, especialista em negócios do esporte, clubes grandes ainda vão demorar a receber investimentos vultosos do exterior

postado em 06/12/2021 17:34 / atualizado em 06/12/2021 21:35

(Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)


Cruzeiro se tornou nesta segunda-feira (6) a primeira Sociedade Anônima do Futebol no Brasil. Em parceria com a XP Investimentos, a cúpula celeste trabalha agora para captar investidores que viabilizem a volta do clube aos seus dias de glória. A Assembleia Geral votará, no dia 17 de dezembro, proposta de nova mudança no Estatuto que possibilite a venda de até 90% das ações. Assim,  interessados poderão se sentir mais atraídos a aportar dinheiro na SAF. Mas, em geral, qual tem sido o olhar de eventuais compradores sobre a nova lei que rege essa transição e sobre os clubes-empresas do país?

Em entrevista ao programa Grande Círculo, do SporTV, Claudio Pracownik, um dos responsáveis pela reestruturação financeira do Flamengo, disse que o olhar dos investidores internacionais ainda é de desconfiança.

O receio, segundo ele, não se deve apenas à histórica desorganização dos clubes no país, mas também a questões macroeconômicas.

Ex-vice de administração e finanças do Flamengo, Pracownik criou a empresa Win The Game recentemente justamente para alavancar negócios do esporte, estruturar instituições e ser interlocutor entre investidores e clubes.

"Temos conversado com muitos investidores. Muitos têm uma grande curiosidade sobre o tema, mas têm grandes receios sobre a aplicabilidade da lei. Nós temos que entender que além do risco do clube, existe o risco soberano, que é o risco do país. O país precisa estar num momento para atrair investimentos. Se o próprio país não estiver num bom momento para atrair investimentos, é difícil atrair capital privado para as empresas do país e isso inclui os clubes de futebol que virarem empresas", explicou.

E ele complementa: "A primeira questão que vem à baila quando se conversa com os investidores é o risco soberano (do país). O segundo é a estabilidade jurídica, o arcabouço jurídico do país. É difícil compreender. E a gente passa um bom tempo conversando com eles sobre como isso funciona. Depois, vem efetivamente a preocupação deles com o risco histórico e político dos clubes nacionais. São histórias complexas".

Com questões macroeconômicas e de credibilidade em jogo, fica claro que a captação de investimentos externos nos clubes nacionais não é tão simples como se imagina. Um investidor visará sempre o lucro e isso exigirá dos clubes (SAF's) uma organização nunca antes vista no país.

Não bastasse isso, a Lei 14.193, sancionada em 9 de agosto deste ano pelo presidente Jair Bolsonaro, ainda não foi colocada em prática em nenhuma instituição. É mais um fator que, segundo Pracownik, faz o investidor externo ter receio de aportar milhões e milhões em grandes clubes. 

"Existe uma curiosidade grande (dos investidores) e eu vejo um maior querer desses investidores exatamente em investimento em clubes formadores de atletas. O Brasil tem essa vocação histórica de ser exportador de capital. (...) Então, eu vejo que essa primeira onda, e está vindo já, está vindo para clubes da Série B, mais simples até, mais fáceis de se administrar a questão política, com menos pressão da torcida. Os exemplos virão daí e até clubes que têm um histórico de formação de atletas para que eles possam ir para fora do país", disse o especialista em negócios.

"Não tenho visto ainda esse apetite de investidores que tenham famílias de clubes lá fora vindo aqui para comprar, agora, neste momento, clubes de grande massa de torcida. Porque eles esperam, na minha visão, que esses clubes estejam um pouco mais organizados. Vejo observação, vejo investidores observando e prontos para fazerem investimentos pontuais, para ganhar dinheiro vendendo jogadores. Esse é um modelo de negócio que já se provou. Você não precisa comprar clubes, você pode comprar centros de treinamento alocados aqui no Brasil, na América do Sul inteira. Não vejo investidores olhando, pelo menos os que me procuraram, fazendo investimentos relevantes nos clubes grandes", completou Pracownik.

Alerta nas negociações

Por fim, o ex-vice-presidente de administração e finanças do Flamengo destacou que o principal fator atraente no momento para investimentos no Brasil é a desvalorização da moeda. Isso torna os clubes brasileiros baratos para compradores de países com moedas fortes, como o dólar e o euro.

"O que vejo é um grande número de espectadores, interessados, acompanhando de perto. Nós temos um produto maravilhoso que é o futebol brasileiro, temos uma moeda desvalorizada, então o investimento fica mais fácil, a moeda vem aqui e consegue comprar ativos por um preço muito mais barato, é uma oportunidade, mas ainda não existe a estabilidade jurídica e política necessária para que investimentos relevantes aconteçam em grandes clubes. Se acontecerem, e eu não sou senhor da razão, temo que eles aconteçam por um preço vil ou pelo investidor não adequado àquele grande clube. Esse é um temor que eu possuo", concluiu.

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