Vôlei

Adeus ao mestre

Principal responsável pelo tricampeonato nacional do Minas (1984/1985/1986), que mudou a história do esporte no país, sul-coreano Young Wan-Sohn morre aos 76 anos

postado em 05/10/2011 07:00 / atualizado em 05/10/2011 09:07

A terça-feira foi um dia triste para os mineiros apaixonados pelo vôlei. Logo cedo chegou a notícia da morte, aos 76 anos, do ex-treinador Young Wan Sohn, que vivia atualmente na Coreia do Sul, vítima de um câncer no esôfago e enfisema pulmonar. Junto com ele lá se vai parte da história não só do vôlei mineiro e brasileiro, mas principalmente do time masculino do Minas, que conquistou sob seu comando, o tricampeonato brasileiro (1984/85/86), quebrando a hegemonia dos times de Rio e São Paulo, a tal ponto que hoje o clube é o maior detentor de títulos na modalidade, com sete ao todo.

Em 1981, o país experimentava o início do profissionalismo no vôlei, com a chegada dos patrocinadores. Em Minas Gerais, no entanto, esse tempo ainda iria demorar um pouco, mais precisamente até março de 1984. Foi quando o Minas conseguiu o patrocínio, bastante modesto, da Fiat Automóveis para sua equipe de vôlei masculino.

E para comandar a equipe, era preciso um técnico que levasse o time e o clube a novos tempos, ao futuro. O presidente era Urbano Brochado Santiago e a escolha recaiu sobre Sohn, que em 1982 levou a Seleção Argentina à conquista da medalha de bronze no Campeonato Mundial de Buenos Aires, atrás apenas da extinta URSS e do Brasil.

O Minas, lembra o atual presidente, Sérgio Bruno Zech Coelho, passava por uma transformação. “Tínhamos perdido praticamente todo o time para o Atlético e era preciso recomeçar. Tínhamos uma base forte, mas era preciso um comandante. O Sohn foi esse homem. Ele mudou a história do vôlei nacional com aquele tricampeonato, isso em função de ter implantado uma filosofia diferente, uma nova metodologia.”

Hoje auxiliar técnico de Marcelo Fronkowiack no time adulto do clube, o ex-oposto Pelé fala com saudade do ex-comandante. “O Sohn nos levou às conquistas do tri brasileiro e do tri sul-americano. Ele mudou toda uma história, revolucionou ao introduzir a psicologia. Com isso, encorajava o time. Ele nos mostrou que a gente não era pior que ninguém e que se estivesse junto, unido, poderíamos vencer qualquer um. E foi o que fizemos.”

Pelé era uma espécie de líder do time para o treinador, seu representante em quadra. O ex-jogador lembra das conversas que tinha. “Ele me chamava para conversar e me colocava como se fosse um carro-chefe do time. Dizia: ‘Se você estiver bem, todo o time vai estar bem’. Ele me dava essa responsabilidade. Eu sabia, com isso, que não podia errar.”

“Pai de todos”, bem que esse poderia ser o apelido do ex-treinador, segundo Pelé, que diz que Sohn se preocupava em ajudar todo o grupo. “Ele pensava em todo mundo. Usava um copo d’água e uma gota de iodo para mostrar o que sentia. Ao jogar a gota de iodo na água, ela começava a se espalhar. Se referia a isso como se houvesse uma maçã podre num grupo e que ela contaminaria todo mundo. Não queria que ocorresse com a gente, caso contrário não chegaríamos ao título.

AUXILIARES Não eram só os jogadores que adoravam o coreano. Ele foi ousado em sua chegada ao clube. Pôs os jogadores para treinar ginástica olímpica. “Depois disso, nunca mais me contundi”, lembra Pelé. José Antônio Martins, o Batata, era técnico de ginástica olímpica e foi chamado por Sohn para treinar a equipe. “Lembro que era na hora do almoço. Ele mostrou, com isso, o benefício que os jogadores tiveram. Foi o responsável pela introdução dos preparadores físicos nas equipes do Minas.”

Outro que trabalhou com Sohn foi o preparador físico Rommel Milagres. “O Minas já tinha uma história importante na formação de atletas. Com o Sohn, isso ganhou impulso e deu uma importância maior à base. Do time tricampeão, só dois eram de fora, Carlão e Luiz Alexandre. Olha que até ginástica livre a gente chegou a fazer. O pessoal aqui costumava brincar dizendo que era balé e perguntava se a gente não ia colocar um collant rosa.”

Pacome, auxiliar de Sohn, vai além. Para ele, Sohn é o responsável pelo profissionalismo no Minas. “O dia 22 de janeiro de 1985 é, para mim, o dia mais importante do Minas. Perdíamos, no Maracanázinho, por 2 a 0 para o Bradesco. Era a final do Brasileiro de Vôlei. Ele mudou a maneira do time jogar, só com palavras de incentivo, e viramos. Lembro que o ginásio inteiro cantava o samba-enredo da Mangueira. Todos já festejavam o título deles. O patrocínio era pequeno. Depois daquele jogo, aumentou. O clube se profissionalizou.”

Sohn teve duas passagens pelo Minas. Na primeira, de 1984 a 1989, além do tricampeonato brasileiro, foi vice-campeão em 88. Na segunda, na temporada 1993/94, o time não chegou à decisão da Liga Nacional, como passou a ser chamado o torneio.

 

Passagem polêmica pela Seleção

 

A história de Young Wan Sohn no vôlei nacional não se restringiu ao Minas. Ele foi também treinador da Seleção Brasileira, em 1987 e 1988, numa época que ficou marcada pelo manifesto de alguns jogadores, que culminou com sua demissão.


Sohn foi convidado por Carlos Arthur Nuzman, então presidente da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) – hoje presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) –, que queria ver a Seleção Brasileira, que tinha sido vice-campeã mundial em 1982 e medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles’84, repetir o sucesso do Minas.


Mas ao assumir o comando da Seleção, Sohn começou a desagradar os veteranos da equipe, como Bernard, Mário Xandó, Renan, Montanaro, Amauri, William, Domingos Maracanã. Eles não gostavam do estilo do treinador, a quem acusavam de não dar treino e de apenas ficar conversando e dialogando. Havia também o fato de que Sohn fumava. A aversão começou a aumentar quando ele tirou os medalhões do time titular, colocando os mineiros Pelé e Helder, além de apostar num jovem levantador que viria a ser o melhor do mundo em 1992: Maurício.


Isso foi o bastante para que os veteranos da geração de prata fossem aos jornais e começassem a criticar o treinador e também Nuzman, que acabou cedendo à pressão, demitindo o coreano.