TRICAMPEÃO BRASILEIRO

Nós jogamos com o time

Das incursões angustiadas na Arena do Jacaré à euforia com a descoberta da Rua Líder (pertinho do Mineirão) e as festas do título, os momentos marcantes da conquista do tricampeonato no relato, em primeira pessoa, de um jornalista cruzeirense

postado em 16/11/2013 09:04 / atualizado em 16/11/2013 08:08

 (Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

Faltavam seis minutos para acabar o jogo contra o Corinthians, na Arena do Jacaré, em Sete Lagoas, quando Luan se livrou da bola no meio de campo e achou um lançamento. Élber, que havia entrado na vaga de Éverton Ribeiro, ultrapassou o lateral corintiano Fábio Santos e foi empurrado. Pênalti! Eu era um dos 15.082 que enfrentaram a BR-040 para assistir ao segundo jogo do Cruzeiro em casa, ou melhor: distante 78,2 quilômetros da minha residência, no pornográfico horário das 21h50. No sábado anterior, o time havia perdido para o Botafogo. Vagava no limbo da tabela de classificação, com uma goleada ante o Goiás e um empate com o Atlético-PR.

A Arena do Jacaré foi o palco daquele jogo porque o estádio do Cruzeiro, o Mineirão, e o estádio do América, o Independência, estavam entregues à Fifa para a Copa das Confederações. Um sentimento estranho, difuso, que mistura pânico e imensa alegria toma o cruzeirense quando ele chega a Sete Lagoas. O terror da lembrança dos jogos medíocres do Campeonato Brasileiro de 2011 se funde ao êxtase pelo resultado da última rodada. A goleada de 6 a 1 livrou o time do rebaixamento e impôs uma humilhação ao adversário que não encontra adjetivos no léxico acostumado com vitórias do torcedor do Cruzeiro. Alguns chamam essa postura de arrogância. Entendo que é o hábito do sucesso.

Eu e centenas de torcedores estávamos aglomerados no alambrado – que, para o bem do futebol, ainda existe em Sete Lagoas. Xingávamos com todas as forças o goleiro Cássio, a mãe dele, a irmã e até as futuras gerações do prognata corintiano. Era o início do campeonato, mas tínhamos certeza que aquele time jogava futebol para ser campeão (entre nós poderia até haver alguma hesitação; mas, se fosse para admitir, seria em terreno baldio, nunca na presença de outros torcedores). Dagoberto pegou a bola e colocou na marca do pênalti. Gol!

Na volta para BH, enquanto cochilava no banco do carona, comecei a ter um pesadelo. Veio novamente aquela tensão de 4 de dezembro de 2011, véspera dos 6 x 1. Nos barrancos da beira da estrada em Ribeirão das Neves e Esmeraldas, brotavam torcedores do adversário zombando dos motoristas que seguiam na BR-040 para o jogo. O motorista da vez dizia que estava a caminho de Sete Lagoas somente para fugir da festa dos adversários. Não acreditava na vitória. Outro amigo, o pessimista, capaz de temer por uma virada quando o time está vencendo com oito gols de vantagem, garantia que iria a todos os jogos do ano seguinte, mesmo na Segundona. Eu insistia e repetia o mantra: "Time grande não cai", "Time grande não cai". Se perdesse para o rival, o time seria rebaixado para a Segunda Divisão, que imagino ser pior do que comemorar o título de campeão do gelo ou o inferno. Tanto faz.

O pesadelo virou sonho. Ganhamos. Aliás, não vencemos apenas, invertemos a possibilidade de passar a maior humilhação da história para uma goleada que lembrarei até meu último dia. E mesmo depois da morte: uso esse relato para pedir aos meus familiares que estendam a camisa número 6 do Cruzeiro no caixão durante meu velório. Obrigado. Agradeço também ao Leandro Guerreiro, Wellington Paulista e Anselmo Ramon. Sem vocês, que encarnaram naquela tarde o futebol de Zé Carlos, Palhinha e Niginho, a taça deste ano não seria possível. O Cruzeiro seguiria com seis títulos nacionais.

O número seis, aliás, se tornou um amuleto. O time goleou o Santos de Pelé por seis em 66 e ganhou seu primeiro título de expressão mundial. Depois venceu a Libertadores em 76. A Copa do Brasil de 1996 com Dida — que acostumou a torcida com o impossível —e abriu o caminho para a Libertadores do ano seguinte. Além, é claro, da vibração da torcida cruzeirense por todos os jogos da Segunda Divisão realizados em Belo Horizonte em 2006.

Para fundamentar a teoria do 6, entrevistei o professor Lin, numerólogo experiente. Lin é apelido de Paulo Bernardo, de 74 anos. Quando era menino em Resplendor, no Vale do Rio Doce, virou Paulin. A alcunha e as feições de chinês de quinta geração fizeram de Paulin o professor Lin. Mas ele é mesmo a cara do senhor Miaigy. Eu, Daniel San, procurei o senhor Miaigy, em sua sala, no 12º andar do Edifício Maletta, Centrão de BH.

“A numerologia é uma ciência e não uma arte adivinhatória. É uma ciência porque examina fatos e fatos são os números, nomes, letras e símbolos. Tudo com base no que chamamos de ressonância ou vibração”, detalha o mestre. “Essa ciência tem como criador Pitágoras”, ensina. Depois emenda com um suspiro: “Grande Pitágoras”. Senhor Miaigy (só vou chamá-lo assim) fez a projeção do Cruzeiro para o próximo ano. Disse que, em 2014. o time passará por mudanças, pois é o ano 1. “Ano de plantar e semear”, explica o senhor Miaigy, católico e zen-budista. Agradeci a dedicação, mas expliquei logo a minha teoria do 6.

Senhor Miaigy confirmou: sim, estamos no ano 6. Vamos lá: 2+0+1+3 = 6. O número, segundo ele, representa responsabilidade, união e também a separação. Faz sentido. Enquanto me despeço do senhor Miaigy, ele pergunta minha data de nascimento, faz as contas e crava: meu número é 6. Quando aguardava o elevador para o 12º andar (12 = 6 x 2), senti medo ao me lembrar do acontecido há pouco mais de um mês. Um elevador idêntico havia despencado no edifício e três pessoas ficaram feridas. Quando a porta se abriu, fiquei decepcionado. Esperava que fosse daquelas portas pantográficas. Volto a sorrir ao observar o interior pintado de azul. O temor passa e sigo tranquilo, pois todo cruzeirense é “incaível”.

Arquivo EM
CONVERSA COM NOSSO MAIOR CAMISA 6
Voltando ao número 6, entrevistei o maior de todos os tempos da história do futebol mundial, Raimundo Nonato da Silva, de 46 anos, o Nonato. Se Nonato tivesse nascido em Buenos Aires, e não em Mossoró (RN), se fosse chamado de Juan Pablo e não Raimundo, até as capivaras da Pampulha seriam unânimes em considerá-lo o maior de todos os tempos, mas, como versou Drummond: “Mundo, mundo vasto mundo/se eu me chamasse Raimundo/seria uma rima, não seria uma solução”.

Raimundo Nonato era o lateral-esquerdo do time que mais me encantou, que venceu a Supercopa de 1992. Tinha 10 anos e a final contra o Racing, os 4 a 0, foi um espetáculo da torcida e do time que não esquecerei. Nonato corria pela esquerda, diminuía o ritmo, ajeitava o corpo e com a direita – a perna boa — virava o jogo para Paulo Roberto. O lateral-direito tocava para Boiadeiro, que driblava um, dois e deixava a bola limpa para Luis Fernando Flores. Roberto Gaúcho passava feito um raio na esquerda, recebia o lançamento e cruzava para Renato Gaúcho. Gol! Ou melhor: tá no filó!

Sobre o atual camisa 6, Egídio, que está longe da unanimidade da torcida, Nonato pensa o seguinte: “Ele não começou bem. Chegou a ser reserva do Éverton, mas pegou uma sequência de jogos e ganhou confiança”. Porém, completa: “Mas tem que matar um leão por jogo. Ele não pode errar que a torcida pega no pé”. Egídio titular, portanto, é a prova de que, mais do que futebol, o Cruzeiro deste ano tem sorte.

Nonato destaca três gerações que praticaram um jogo bonito. A de 1992, o time comandado por Alex em 2003 e a atual. “O forte do time hoje é o grupo. Eles mentalizaram que todos os jogos são importantes e que não existe um jogador melhor do que outro”, entende. O Cruzeiro deste ano é, sem dúvida, um time que joga bonito. A troca rápida de passes entre Ricardo Goulart, Éverton Ribeiro e Willian ou Dagoberto encanta.

O intervalo de oito minutos entre os 12 e os 20 do primeiro tempo contra o Criciúma, no Mineirão, pela 31ª rodada, foi um desses momentos. Foram dois gols, bola na trave e uma pressão ensandecida. Os 15 primeiros minutos do segundo tempo ante o time que havia vencido a Libertadores na quarta-feira anterior também impressionaram. Foram dois gols, o terceiro e o quarto, que levaram a torcida gritar por “mais dois” e chegar novamente aos 6. Outros dois não vieram, mas valeu o carimbo na faixa.

Aliás, no caminho do Mineirão para o jogo ante os catarinenses, passamos — eu, o Léo e o Bruno — na Rua Líder. Uma via de apenas 270m paralela ao aeroporto da Pampulha. Vi a rua e dei o grito. O Bruno quis parar, mas estávamos atrasados. “Na volta a gente faz uma foto”, disse, com a certeza de mais três pontos. E a vitória veio, inclusive com o futebol bonito citado no parágrafo de cima. O problema foi o apagão. Após fazer 2 a 0, os jogadores dormiram. O Criciúma virou para 3 a 2.

QUEM VAIA O EGÍDIO VAIA O NÍLTON
Aquela que estava sumida e — infelizmente — é tão querida pela torcida do Cruzeiro voltou ao Mineirão no intervalo da partida contra o Criciúma. A vaia. O que não falta são sociólogos de botequim com teorias sobre os apupos. Há quem defenda e há aqueles que não suportam vaiar o time. Eu nunca vaiei. Sobre o assunto, cito um dos maiores pensadores do futebol brasileiro, Nelson Rodrigues: “A vaia não tem nome e endereço como os envelopes”. Ou seja, quem vaia o Egídio vaia também o Bruno Rodrigo e o Nílton.

Após o intervalo, com a torcida dividida entre o apoio e as vaias, quem mereceu todos os aplausos foi o árbitro Wilton Pereira Sampaio. O juiz expulsou o lateral Suéliton, do Criciúma, em um lance que nem falta foi. Com um jogador a mais, o Cruzeiro virou o jogo e fez mais dois. Obrigado, Wilton. Você é o vencedor do Troféu José Roberto Wright de 2013. Fim de jogo e, de novo, estávamos lá: na Rua Líder.

O futebol bonito (e, dessa vez, sem sustos) foi visto na 25ª rodada, contra a Portuguesa, no Mineirão. A Lusa havia vencido os atuais campeões mundiais, o Corinthians, por 4 a 0, na rodada anterior e esboçava uma reação no campeonato. Porém, nos 30 primeiros minutos, foi um massacre: o melhor do futebol azul apareceu. Toques de primeira, dribles curtos, tabelas: um Barcelona mais veloz e mais criativo (sem exagero). Os minutos seguintes foram uma das melhores atuações do Cruzeiro que vi no Mineirão. Tudo bem que era a Portuguesa, mas, se ali estivesse o Santos de Pelé, também levaria uma goleada. Como aconteceu em 1966.

Sobre a beleza do futebol do Cruzeiro campeão, interrompo o relato da conquista para trazer a palavra do jogador que desfilou o fino da bola. Aquele que, junto com Tostão, foi o maior de todos os tempos: Dirceu Lopes, autor de três gols contra o time de Pelé. “O time foi uma surpresa muito agradável. O Marcelo (Oliveira) devolveu ao Cruzeiro sua maneira de jogar. Com um futebol bonito, vistoso e para a frente”, afirma Dirceu, 224 gols em 529 jogos pelo time.

Para Dirceu, Éverton Ribeiro é “um jogador que cresce assustadoramente”. “Quando ele chegou o Marcelo (Oliveira, técnico) disse que jogava muito. Mas ele corria demais e produzia pouco. Agora ele está invertendo e tirando proveito do que tem de melhor: o drible, a velocidade e o arremate”, analisa. Dirceu Lopes me contou também que, quando Marcelo foi contratado, conversou com o presidente Gilvan de Pinho Tavares. Alertou sobre a rejeição ao nome do treinador, por ter atuado por muitos anos por outro time de Belo Horizonte: “Ele me disse que o Marcelo era o técnico dos sonhos, pois as equipes que ele treinou jogam da maneira que o Cruzeiro sempre jogou”. Os fãs do craque têm a obrigação de ler a biografia, escrita pelo jornalista Pedro Blank. O príncipe – A real história de Dirceu Lopes será lançada até o início de 2014, com bastidores e histórias saborosas.

OS MANTRAS DA ARQUIBANCADA
Não posso deixar, neste relato campeão, de agradecer à CBF por ter mantido em Belo Horizonte o jogo contra o Grêmio: foi um prêmio para a torcida mais fiel do campeonato. Quase 30 mil pagantes de média e o recorde do novo Mineirão (66.854 pagantes). Nós, torcedores, jogamos com o time. Um Brasileirão de músicas, quase mantras, que cantamos repetidamente nas arquibancadas: “Somos loucos/ Uma cerveja, por favor/ Ô, meu pai, eu sou Cruzeiro...”.

A comemoração depois do jogo contra o time de Renato Gaúcho, quando mandamos a matemática às favas e, de forma gaiata, comemoramos o título, foi uma amostra de que o torcedor do Cruzeiro não precisa gritar que acredita. Nós sempre tivemos certeza. A convicção vem da nossa grandiosa história, marcada por títulos internacionais e nacionais e, claro, da nossa paixão e orgulho. A festa após o Criciúma vencer o Atlético-PR — com direito a gol do mártir Wellington Paulista — e do nosso triunfo em cima do Vitória fez deste o melhor campeonato da história. Tivemos duas comemorações épicas. E o dia seguinte à quarta-feira, 14 de novembro, com a cidade toda pintada de azul, entrará nas páginas heroicas e imortais de Belo Horizonte e de seu grande clube.

Sobre minha paixão insana pelo Cruzeiro, recorro novamente à sociologia de botequim para explicar uma tese controversa. Todo ano começa com uma certeza: meu time pode até me decepcionar algumas vezes, mas o outro time nos proporcionará ao menos uma alegria. Só que a festa do rival, no fim de julho, tirou os cruzeirenses daquela área que virou uma expressão banalizada — a zona de conforto. Mas o Cruzeiro não perdeu o bonde. Afirmou a grandeza quando mais precisava. E o protagonista do tricampeonato brasileiro não é o presidente, o técnico, o goleiro, o meia, o atacante. É a torcida.

Como escreveu o inglês Nick Hornby, no ótimo livro Febre de bola (Companhia das Letras, 1992), há uma diferença fundamental entre torcedores e jogadores campeões. É que eu “dediquei mais horas, mais dias, mais anos que eles, e por isso compreendia melhor o significado da ocasião, e sou capaz de entender com mais generosidade por que o sol ainda brilha quando penso naquele dia”.

 

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