TIRO LIVRE

Clássico yin e yang

Enquanto o Cruzeiro chega embalado por atuações consistentes e bons resultados, o Atlético com que o técnico cruzeirense vai se deparar é um mistério

postado em 12/04/2019 14:02

<i>(Foto: Fernando Michel/Divulgação)</i>
Domingo, quando Cruzeiro e Atlético (foto) entrarem em campo para o primeiro clássico da final do Campeonato Mineiro’2019, uma cena vai se repetir pela 14ª vez consecutiva: no túnel celeste estará o técnico Mano Menezes. Desde que ele retornou à Toca da Raposa, em julho de 2016, tem sido assim. O que difere é quem o treinador azul tem encontrado do outro lado – no próximo jogo, Mano vai enfrentar o sexto treinador atleticano diferente nesse espaço de 32 meses. Tal panorama ajuda bem a explicar a trajetória dos rivais nos últimos anos e como, mais uma vez, eles vivem uma dualidade. Quase um yin e yang.

Enquanto o Cruzeiro chega embalado por atuações consistentes e bons resultados (fatores que nem sempre andam juntos no futebol), o Atlético com que o técnico cruzeirense vai se deparar é um mistério. Não precisa nem de treino fechado, esses artifícios que treinadores costumam lançar mão em véspera de clássico. No atual cenário, o que o alvinegro vai apresentar talvez seja uma incógnita até para seus próprios jogadores. Afinal, no banco estará Rodrigo Santana, que até ontem dirigia o Sub-20 e nunca havia participado de um treino sequer com o grupo profissional.

Antes de Rodrigo Santana, que assume o Galo hoje interinamente, Mano Menezes enfrentou, no clássico, Marcelo Oliveira (em jogo que terminou 1 a 1, em 18 de setembro de 2016); esteve frente a frente com Roger Machado cinco vezes (duas vitórias para cada lado e um empate, de fevereiro a julho de 2017); foi derrotado por Oswaldo de Oliveira (3 a 1, em outubro de 2017); disputou cinco duelos com Thiago Larghi (duas vitórias para cada lado e um empate, de março a setembro de 2018); e ficou no 1 a 1 com Levir Culpi, na partida pela fase de classificação do Estadual deste ano.

Quer saber o que esse levantamento mostra de mais curioso? De 2016 pra cá, o Atlético acumula mais vitórias que o arquirrival, mesmo com tamanha rotatividade em seu comando: nesses 13 clássicos, são cinco triunfos alvinegros, quatro do Cruzeiro de Mano e quatro empates. Sabe aquele papo de que clássico é clássico e vice-versa? Então. Basicamente, é a reafirmação de quão particular é o dérbi, em qualquer lugar, em qualquer tempo.

Mesmo com tantos ingredientes a escancarar o favoritismo celeste (muito disso consequência da longevidade de Mano no cargo), o retrospecto recente está aí para avisar que confrontos entre arquirrivais costumam reservar surpresas – um velho clichê que recomenda cautela a quem gosta de fazer prognósticos. Na atual conjuntura, não seria exagero algum dizer que a Raposa tem tudo para largar com vitória no Mineiro, e com ampla vantagem no placar.

A combinação entre Fred e Rodriguinho voando baixo e a defesa atleticana batendo cabeça não daria outra. Em condições normais de temperatura e pressão, essa é a perspectiva mais provável. Mas há mais mistérios dentro das quatro linhas do que pensa nossa vã filosofia, e não são poucas as vezes em que a razão e a lógica são desafiadas no esporte bretão. Aliás, como o próprio Levir Culpi disse em sua última entrevista coletiva como técnico do Galo. “Podemos vencer sim”, afirmou, ainda usando a primeira pessoa do plural – num indício de que não esperava ser demitido depois da goleada sofrida para o Cerro Porteño por 4 a 1, em Assunção, resultado que praticamente decretou a queda da equipe atleticana na fase se grupos da Copa Libertadores.

Por isso, não parece mera preocupação politicamente correta a postura adotada por jogadores cruzeirenses de minimizar o abismo que separa a equipe celeste da alvinegra. O momento técnico, tático e emocional da Raposa é bem superior, quanto a isso não há dúvida. O Cruzeiro é um dos times de melhor atuação no futebol brasileiro atualmente, se não for o melhor.  Se puser a bola no chão e jogar com seriedade, sem firulas, sem desafiar ou desdenhar da sorte, é natural que ganhe mesmo.

Aos jogadores do Galo, caberá mostrar, de cara, que corre sangue na veia deles. Deixar no passado a atuação apática e desastrosa do jogo contra o Cerro. O que ocorreu no primeiro tempo daquela partida em Assunção extrapola questões táticas. A crítica não pode se encerrar aí, precisa atingir em cadeia várias esferas do clube, tão responsáveis quanto. Levir era o elo mais fácil de se desfazer. Só que nem sempre questões complicadas são resolvidas com as  saídas mais fáceis.

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