Conmebol 1992

CONMEBOL 1992

Briga com companheiro e emoção ao erguer a taça: capitão Paulo Roberto Prestes relembra título da Copa Conmebol em 1992

Título sul-americano completa 25 anos neste sábado, dia 23 de setembro

postado em 23/09/2017 06:35 / atualizado em 22/09/2017 22:57

CELSON BIRRO
Entre os principais personagens da conquista da Conmebol de 1992 pelo Atlético está o ex-lateral-esquerdo Paulo Roberto Prestes. Ele jogou no Galo por dez anos e, como capitão, foi o responsável por erguer aquela que foi a primeira taça internacional do clube.

Paulo chegou ao Atlético em 1986, após passagens por Internacional, Botafogo e Palmeiras. Em 1988, já era dono da braçadeira de capitão do time, posto que sustentou até sair do clube, em 1996. Nesses oito anos como principal líder da equipe dentro de campo, o ex-lateral foi tetracampeão mineiro. Em entrevista ao Superesportes, ele explicou a peculiaridade do sentimento de ter levantado o troféu da Conmebol.

"Foi uma emoção muito diferente daquela que tive ao conquistar os outros títulos. Foi a primeira conquista sul-americana do clube e com uma dificuldade imensa, sobretudo na final. Nós chegamos ao Paraguai pensando que íamos jogar em um estádio grande, bacana, mas eles mudaram o local do jogo de última hora, mandaram para um estádio acanhado, pequeno, que dificultou muito. Foi difícil chegar lá, entrar em campo… Foi uma verdadeira batalha, que valorizou demais a nossa conquista. Foi legal demais tudo isso", ressaltou.

Entre os episódios mais marcantes que aconteceram na caminhada do Atlético na competição, Paulo destaca a comemoração - ou a falta dela - após a decisão contra o Olimpia, no Paraguai. O Galo perdeu o jogo por 1 a 0, mas levantou a taça por ter vencido por 2 a 0 no Mineirão.

"Quando nós ganhamos o título, voltamos para o hotel, o presidente abriu uma champanhe, a gente estava tomando uma cervejinha… Comemorando o título mesmo. De repente, aparece o Procópio Cardoso no restaurante do hotel, dá um tapa na mesa e fala: 'Acabou a farra! Pode subir todo mundo para o quarto! Ninguém vai sair, porque temos uma decisão no domingo'. E a gente tinha mesmo um jogo importante pelo Campeonato Mineiro. Mas p..., nós conquistamos um título internacional e não íamos comemorar? Tivemos que subir para o quarto mesmo… Não teve comemoração nenhuma. Até o presidente Afonso Paulino ficou abismado"

Conhecido por ser disciplinador e "estourado", o ex-treinador do Atlético não deixava sua fama de lado nem durante os treinamentos. Paulo Roberto sentiu na pele o estilo "linha dura" do ex-comandante alvinegro.

"Teve uma vez, durante um treino, que o Ryuller deu uma entrada dura em mim. Tinha jogo no dia seguinte, eu levantei nervoso, chamei ele de doido e dei um tapa nele. O Procópio veio com tudo para cima de mim: 'Bate em mim, quero ver você bater em mim, Paulo!'. Ele foi defender o Ryuller e eu fiquei rindo. O Procópio é uma figuraça, sempre foi estourado", contou, aos risos.

Leia, na íntegra, a entrevista de Paulo Roberto Prestes ao Superesportes:

Sentimento de ter levantado a primeira taça internacional do Atlético

Foi uma emoção muito diferente daquela que tive ao conquistar os outros títulos. Foi a primeira conquista sul-americana do clube e com uma dificuldade imensa, sobretudo na final. Nós chegamos ao Paraguai pensando que íamos jogar em um estádio grande, bacana, mas eles mudaram o local do jogo de última hora, mandaram para um estádio acanhado, pequeno, que dificultou muito. Foi difícil chegar lá, entrar em campo… Foi uma verdadeira batalha, que valorizou demais a nossa conquista. Foi legal demais tudo isso.

Reprodução
Papel do técnico Procópio Cardoso na conquista

O Procópio foi um cara importantíssimo naquela conquista nossa. Ele exigia muita dedicação durante os treinamentos, trabalhava com todos os jogadores na igualdade. Não tinha líder e nem estrela no time dele. Se o cara não se doasse, saía do time mesmo. Ele sempre foi muito rígido com concentração e disciplina.

Pressão pela conquista

Existia uma pressão, porque era uma oportunidade para todos. Para o clube e para cada jogador individualmente. O clube ainda não tinha conquistado nenhum título sul-americano, e o torcedor queria muito, até pelo fato de o Cruzeiro ter conquistado a Supercopa. E, individualmente, era importante para valorizar nós, os jogadores. Então, houve muita concentração para a decisão, nos dedicamos ao máximo para conquistar o título.

Por que aquela equipe não engrenou e conquistou outras taças?

É complicado você analisar. Na época dos anos 1980 e 1990, o Atlético tinha uma administração muito conturbada, principalmente em relação à parte financeira. Eu fiquei dez, onze anos no clube e não lembro de um ano inteiro que ficamos com o salário em dia. A gente ficava três, quatro meses com salário atrasado. Nós tínhamos que ajudar funcionário a ir trabalhar no dia seguinte, dávamos cesta básica… Era complicado demais. Nos anos 2000 é que a situação melhorou, o clube deu um upgrade com essas questões de cota de televisão e tudo mais. Mas, na minha época, era muito difícil. O Atlético era um clube com o lado financeiro mal administrado. E, se o lado financeiro de uma empresa não está bem, nada vai bem, não tem jeito. A gente corria, se doava, fazia de tudo pelo clube e ficava três, até quatro meses sem pagamento. Não dava.

Duelo mais marcante durante a campanha

Todos os jogos foram muito difíceis, até por ser uma competição mata-mata. Mas teve um jogo que me marcou demais. Nós fomos até Quito para enfrentar o Nacional, ao meio-dia. Então, juntou calor, altitude, teve jogador passando mal… Foi muito sacrificante aquele jogo. A partir de então, a gente viu que era o campeonato para a gente ser campeão.

"Água no Chopp"

Quando nós ganhamos o título, voltamos para o hotel, o presidente abriu uma champanhe, a gente estava tomando uma cervejinha… Comemorando o título mesmo. De repente, aparece o Procópio Cardoso no restaurante do hotel, dá um tapa na mesa e fala: “acabou a farra! Pode subir todo mundo para o quarto! Ninguém vai sair, porque temos uma decisão no domingo”. E a gente tinha mesmo um jogo importante pelo Campeonato Mineiro. Mas porra, nós conquistamos um título internacional e não íamos comemorar? Tivemos que subir para o quarto mesmo… Não teve comemoração nenhuma. Até o presidente Afonso Paulino ficou abismado.

Briga no avião

A gente tinha enfrentado o Atlético Júnior de Barranquilla (COL) e ia praticamente direto para enfrentar o Guarani em Campinas. Daí, o Procópio falou para a gente dormir assim que entrasse no avião, já que aquele seria o nosso único momento de descanso. Só que aí entrou uma banda venezuelana. Aí o Procópio foi lá reclamar com os caras e deu briga. Ele era estourado demais, não levava desaforo para casa.

Confusão no treino

Teve uma vez no treino que o Ryuller deu uma entrada dura em mim. Tinha jogo no dia seguinte, eu levantei nervoso, chamei ele de doido e dei um tapa nele. O Procópio veio com tudo para cima de mim: “Bate em mim, quero ver você bater em mim, Paulo!”. Ele foi defender o Ryuller e eu fiquei rindo. O Procópio é uma figuraça, sempre foi estourado.

Pressão no jogo contra o Olímpia

A gente reuniu antes do jogo e falou “Oh, vamos ter que nos doar ao máximo. Do lateral-direito ao ponta-esquerda, todo mundo vai precisar marcar”. Foi muito difícil, porque eles vieram para cima da gente. E, fora de campo, nem exame antidoping fizeram, se não me engano. O estádio era pequeno, a gente ia bater lateral e os torcedores davam pedrada e cusparada na gente. Era um alçapão, lembrava muito o Castor Cifuentes, estádio do Villa Nova. Era uma coisa surreal, a gente não sabia se tava indo para um jogo de futebol ou para uma luta.

Recepção da torcida após o título

A recepção foi sensacional. Os torcedores foram até o aeroporto, tinha carro do Corpo de Bombeiros.. Mas na sede aqui em Lourdes que foi a maior festa. Na época, não tinha o Diamond Mall naquele local. Foi muito legal a festa da torcida. O Cruzeiro tinha sido campeão da Supercopa, então, o torcedor estava esperando que a gente ganhasse alguma coisa internacional como resposta. Quando veio, foi uma festa maravilhosa.

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