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Apostas: como 'jogo esquecido' foi determinante para a investigação

Enquanto as atenções estavam voltadas para a 'Batalha de Itu', o jogo que ajudou a desvendar grupo criminoso rolou em Goiânia

12/05/2023 06:00 / atualizado em 12/05/2023 01:33
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Jogo entre Vila e Sport foi determinante para a criação da Operação Penalidade Máxima
foto: Rafael Bandeira / SCR

Jogo entre Vila e Sport foi determinante para a criação da Operação Penalidade Máxima

Seis de novembro de 2022. Última rodada da Série B. Às 18h30 (horário de Brasília), a maioria dos brasileiros estava com as atenções voltadas para Itu, onde Ituano e Vasco faziam um confronto direto pelo acesso à Série A do Brasileirão. Pouca gente se impostou com outro confronto que também importava na luta pela promoção e no fim seria ainda mais importante para o destino do futebol brasileiro. 

O duelo entre Vila Nova e Sport, realizado no estádio Onésio Brasileiro Alvarenga, em Goiânia, foi determinante para a criação da Operação Penalidade Máxima, que investiga a manipulação de resultados no esporte.

Aposta tripla na Série B: o contexto


Apostadores entraram em contato com jogadores de três diferentes times - Tombense, Sampaio Corrêa e Vila Nova - para que eles tomassem decisões que pudessem render grandes apostas. Inicialmente, o desejado era cartão vermelho, mas depois de conversas iniciais com alguns atletas, o objetivo mudou para um pênalti no primeiro tempo.
 
 
A aposta feita pelo grupo que entrou em contato com os jogadores
foto: Reprodução

A aposta feita pelo grupo que entrou em contato com os jogadores

 
A torcida por resultados começa no dia 5, um sábado, já que contava com jogos de equipes que não tinham mais ambições no torneio.

Às 16h, as atenções foram voltadas para o estádio Heriberto Hulse, em Criciúma (SC), com o time da casa enfrentando o Tombense na despedida da temporada. Os apostadores combinaram  a situação com o zagueiro Joseph.

- Vamo Joseph! Cachorro de mangue - diz Bruno Lopez, tido como a cabeça da operação, a outro apostador.

- Esse é sanguinário, rapaz. Tem que pagar com gosto! - responde Ícaro Fernando.

Aos 30 minutos do primeiro tempo, em bola cruzada na área, Joseph puxou o atacante Lohan e o árbitrou marcou pênalti. Deu green. A primeira das três ações da aposta estava confirmada.

Duas horas depois, o grupo passa a observar com olhos atentos o estádio Castelão, em São Luís-MA. Lá, o Sampaio Corrêa recebia o Londrina. O acordo teria sido feito com o atacante Ygor Catatau, mas ele não seria o responsável por cometer o pênalti.

Com 19 minutos da etapa inicial, o artilheiro da Série B Gabriel Poveda abriu o placar para os donos da casa. No entanto, durante a revisão do árbitro de vídeo, o árbitro analisou uma possível falta de Mateusinho ainda na área do Sampaio. Após a revisão, pênalti marcado para o Londrina. Deu green (de novo). Duas das três ações da aposta estavam confirmadas.

Em diferentes conversas, os apostadores comemoraram o pênalti e o erro que "ficou lindo" para o jogador do Sampaio.

Faltava apenas o Vila Nova. E é aí que tudo muda. 

A busca pelo pênalti em Goiânia


- E o mano do Vila Nova é sanguinário? - perguntou Icaro Fernando a Bruno Lopez.

Bruno prontamente respondeu com um print de uma conversa em áudio com Gabriel Domingos. 

Originalmente, o volante Romário foi o primeiro procurado pelo grupo de apostadores. No entanto, ele não podia atuar porque esteve prestes a se transferir para uma equipe dos Emirados Árabes Unidos e rescindiu com o clube. Quando a transferência não foi realizada, ele voltou para o Vila, mas não podia voltar a atuar com o Colorado.

Sem condições de jogo, Romário procurou Gabriel Domingos e o companheiro aceitou a oferta. Um dos apostadores fez uma transferência de R$ 10 mil para Domingos, que repassou R$ 5 mil a Romário por ter feito o contato com os apostadores.

Um dia antes da partida veio a notícia de que Domingos não seria titular, o que dificultaria o esquema das apostas, já que o pênalti deveria ser cometido no primeiro tempo. Isso fez com que Romário fosse atrás de outros atletas do elenco para tentar convencê-los a cumprir o acordo.
O primeiro a ser procurado foi Willian Formiga. Romário mandou uma mensagem para o lateral por volta de 9h40 e ofereceu R$ 80 mil para que o lateral cometesse o pênalti. 

O próximo da lista foi o volante Jean Martim. Por volta de 18h, Romário entrou em contato com o jogador, hoje na Inter de Limeira, oferecendo R$ 50 mil pelo pênalti e foi prontamente rejeitado.

Trinta minutos depois, Romário achou novo alvo: Sousa. Em um período de três horas e meia, Romário fez apelos desesperados ao companheiro, até citando a filha e uma dívida gigantesca, e ofereceu três valores diferentes pelo pênalti: R$ 50 mil, R$ 100 mil e R$ 200 mil. 

Sousa rejeitou as três ofertas, mas uma das negativas chama a atenção. O volante disse que o Vila teria recebido uma "pancada de dinheiro" para vencer ou empatar com o Sport, que ainda tinha chance de acesso.

Houve ainda uma nova tentativa com Willian Formiga, por volta de 20h. Desta vez, a oferta era de R$ 150 mil. O lateral rejeitou novamente. 

Com todas as negativas de atletas do Vila a Romário, os apostadores mudaram o alvo para tentar buscar o pênalti. Já no domingo, duas horas antes da partida, outro membro da organização, Victor Yamasaki, entrou em contato com o atacante Riquelme pedindo que ele pudesse indicar algum jogador que pudesse mudar o resultado do jogo.

Yamasaki prometeu pagamento entre R$ 100 mil e R$ 200 mil para quem Riquelme indicasse, mas o atacante negou a oferta.

O jogo acontece normalmente e termina em 0 a 0. Formiga, Jean Martim e Sousa jogaram e apenas Formiga levou um cartão amarelo. Domingos ficou no banco.

O único fato notável foram as expulsões no Sport: seis jogadores diferentes levaram cartões vermelhos no segundo tempo. Fabinho, Ronaldo e Denner em campo, Vagner Love, Gustavo Coutinho e Luciano no banco de reservas.
 
 

Do jogo às páginas policiais


No dia 10 de novembro, o empresário de Romário, "Erivaldo", entrou em contato com o Vila Nova para avisar que foi procurado por Bruno Lopez para tratar do problema do atleta com a aposta.

Após receber informações do agente, o presidente do Vila Nova, o policial Hugo Jorge Bravo de Carvalho, enviou um ofício ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de Goiás relatando a situação. 

Hugo Jorge Bravo foi quem iniciou a investigação em 2022
foto: Divulgação

Hugo Jorge Bravo foi quem iniciou a investigação em 2022


No ofício, o presidente do Vila Nova chama os pênaltis cometidos por Joseph e Mateusinho de "grotescos" e afirma que Lopez tentava fazer Romário assumir a dívida, um prejuízo de R$ 500 mil em apostas e R$ 2 milhões em lucro.

Hugo conversou diretamente com Lopez, que chegou a sugerir que o presidente bloqueasse o salário de Romário. 

A partir da denúncia de Hugo, o Gaeco do Ministério Público de Goiás começou as investigações da operação nomeada Penalidade Máxima. Durante as ações dos agentes do MP-GO foram descobertos detalhes do envolvimento do grupo liderado por Lopez em atividades com outros clubes, incluindo na Série A, resultando na segunda fase da operação que é o principal assunto do esporte no país atualmente.

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