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Botafogo, com folga e de folga, ganha sem atalhos o direito ao sonho

Paulo Junior: que sonho de time bom é esse que termina em campanha modesta? Não existe essa projeção sem que seja lá em cima

12/06/2023 06:00 / atualizado em 12/06/2023 00:09
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Botafogo ocupa a primeira posição do Brasileirão, com oito vitórias em dez jogos
foto: IconSport

Botafogo ocupa a primeira posição do Brasileirão, com oito vitórias em dez jogos


 
“Corria o mês de abril e o Botafogo tinha acabado de jogar uma esvaziada e melancólica final de Taça Rio contra o Audax para nem duas mil pessoas no Raulino de Oliveira, um confronto fadado ao esquecimento desde a véspera a não ser que um dia motivo de orgulho para algum alvinegro ortodoxo, aquele eu tava lá! que salta de peito estufado depois das dores do tempo, uma barganha de torcedor.

Eduardo Coutinho, mestre máximo do documentário, dizia sobre a arte da conversa que a rotina não lhe interessava, tampouco a verdade. O que lhe acendia a chama do encontro era se dar com a história falada, o causo da vida, aquele fio da memória de uma noite perdida que, narrada tempos depois, ganha contornos épicos e influências notáveis. A memória contada é melhor que a memória vivida, falava. Não é bom estar num Botafogo x Audax em Volta Redonda valendo o quinto lugar num final de semana de Fla-Flu pelo título carioca. O saboroso é poder falar que foi, ainda mais se dali em diante vier uma história melhor, é claro.

Passava a semana e topei com um amigo botafoguense, que fez um pedido simples para a campanha do Brasileirão que surgia à frente: segurança dentro de casa, competitividade nos jogos grandes e firmeza para vencer os adversários mais acessíveis. Respondi para ele que, se a Estrela Solitária cumprisse tamanho desejo, brigaria pelo título, oras. Rimos. Para baixas expectativas ou projeções realistas já nos basta a vida. Que sonho de time bom é esse que termina em campanha modesta? Não existe essa projeção sem que seja lá em cima.

E é bem aí que está a grande falha no sistema que aplicou a liga de pontos corridos às grandes camisas do futebol brasileiro, forjadas em títulos, não em devaneios médios. O torcedor que na fé de virada de ano pede um sétimo lugar estável de abril a dezembro está mentindo. Ninguém joga a moeda naquelas fontes da sorte imaginando um oitavo posto tranquilo. Criança nenhuma canta no ouvido do Papai Noel que o presente pode ser uma quinta colocação suave na tabela. 
 
 

É claro também que imaginar o título, mesmo que de longe, pequeno no fim do horizonte, não significa tratar qualquer possível tropeço à frente como um grande fracasso – não é que a primeira posição seja questão de obrigação ou que a taça esteja na mão, longe, longe disso. Mas o botafoguense chega à parada dos amistosos de seleções líder após dez rodadas. Com seus 24 pontos de 30, tem uma das cinco melhores campanhas da história até aqui. Da turma de cima, jogou com Flamengo, Fluminense e Atlético-MG, e ganhou as três. Tem aproveitamento para virar o turno na casa dos 40 e poucos pontos. Por que não imaginar uma campanha de campeão, cruzando a linha dos 70?

Não há atalho para se ver dono do maior título do país. Até 2002 havia, quem sabe numa classificação no sufoco, uma semana inspirada num Davi x Golias, um mata-mata encaixado e pronto, campeão. Nos pontos corridos vale a folha de ponto semanal, conquistar a confiança de sua gente a cada rodada, arrancando resultados acima do previsto aqui, contando com a boa fase para garantir outros ali. É um caminho longo e geralmente tortuoso, com quartas de dúvidas, domingos de questionamento. É preciso alguma dose de encanto também, para superar ruídos.

Aliás, no final de semana, contra o Fortaleza, se há coisas que só acontecem com o Botafogo, o imponderável tratou de oferecer um gol raro. Tiquinho Soares, o artilheiro do campeonato direto da cidade de Pedro, Gabriel e Cano, perdeu o pênalti, passou da bola no rebote, mas ganhou nova chance num presente vindo da espirrada torta da defesa. Difícil lembrar de um batedor recebendo uma segunda bola tão pitoresca depois de um erro. Sorte nunca fez mal a ninguém.
 
Botafogo sonha com o título brasileiro: por que não?
foto: IconSport

Botafogo sonha com o título brasileiro: por que não?

 

Enquanto isso, os favoritos de rotina ao título Palmeiras e Flamengo também mostram força – e alguma dose de bom agouro. O primeiro, atual campeão, venceu o clássico contra o São Paulo sem seu capitão, Goméz, suspenso, e segue invicto com sua constância inabalável numa tarde em que atacou pouco, mas aproveitou dois vacilos do rival; o outro, com as copas do Brasil e da Libertadores fresquinhas na sala de troféus, finalmente se ajeitou, escalando a tabela e já em terceiro depois de ganhar do Grêmio numa noite em que, competência ofensiva à parte, é difícil explicar como nenhuma bola gaúcha alcançou a rede do Maracanã.

Passaremos uma semana e meia sem jogos, e o Botafogo, sob desejo do seu técnico Luís Castro, somará quatro dias seguidos de folga, nada mais justo pela própria folga na tabela. "É bom para todos", confirmou o português, feliz com o descanso. Passaremos também algum tempo, mesmo com a manutenção das posições, imaginando uma taça mais palmeirense ou flamenguista do que botafoguense, porque tem o elenco, e o retrospecto recente, e a estrutura do clube há mais tempo, e a casca, e tudo que credencia um clube à confiança total de título… Faz parte ponderar.

Nesse meio-tempo, o Brasileiro só terá novo intervalo depois da rodada 23, quando começam as eliminatórias para a Copa do Mundo e a seleção interrompe a agenda local mais uma vez. Alguém aposta no Botafogo líder lá no início de setembro? Talvez melhor perguntar se alguém em abril, vendo aquela comemoração constrangida de taça erguida à meia altura numa Volta Redonda às moscas, apostaria nesse time em primeiro no meio de junho. Ao menos ao botafoguense foi dado o direito de sonhar.”

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