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A mulher por trás do símbolo: órfã, doméstica, retirante, obstinada. A história não contada de Dona Maria

A reportagem do Superesportes embarcou na vida de uma das torcedoras ícone de Pernambuco, conhecida por todos, mas que ninguém sabe quem é

postado em 23/01/2020 17:00 / atualizado em 26/01/2020 13:18

(Foto: Leandro de Santana/Esp.DP )
“Todo mundo que me vê assim hoje, sorrindo, alegre… Não sabe o quanto eu sofri. Mas hoje estou aqui. Não desisti nunca”. O discurso forte, por vezes, contrasta com o olhar distante. Pensativo. Mas dona Maria José de Oliveira sabe que construiu a casca de quem é inabalável. Ao tempo e às dificuldades da vida - contra quem, desde cedo, batalhou incansavelmente para sobreviver. Uma história, no entanto, que ninguém ouviu. Ofuscada, durante muito tempo, pelo próprio brilho. Por uma personagem. Porque Dona Maria José é reverenciada em Pernambuco não por sua trajetória de vida, mas por ser uma torcedora ícone do Sport. Agora, aos 95 anos completados nesta quinta-feira, à reportagem do Superesportes, ela decidiu contar.

Nascida no município de Nazaré da Mata, Zona da Mata Norte de Pernambuco, a torcedora do Sport não gozou do luxo de viver cada uma das etapas naturais da vida. De criança a mulher adulta. Vinda de família pobre e filha única de José Joaquim, lavrador de cana-de-açúcar, Dona Maria teve que tomar as rédeas da própria vida desde muito cedo. Abandonada pela mãe após seu nascimento, Dona Maria passou a  morar com o pai ao lado da madrasta. A ausência da figura materna, nunca conhecida por Dona Maria, também não foi suprida pela madrasta.

“Na minha infância, eu não tive direito a brincar. Quando eu era meninota, a minha madrasta era muito ruim, dava muito em mim e não deixava eu sair para brincar. Aí eu fugia todo dia de casa. Já dormi em canavial de cana no meio da noite, passando o dia todo escondida com medo das cobras, porque não queria apanhar. E meu pai não fazia nada, porque era ‘pau mandado’ dela”, contou. A violência física, no entanto, não foi o único mal conhecido por Dona Maria quando criança. Ela também sentiu na pele o racismo. “Meu pai disse que não queria ficar comigo porque minha madrasta não gostava de mim, porque eu era preta. Aí ele me deixou”, confessou.

(Foto: Leandro de Santana/Esp.DP )
Sem alternativa, Dona Maria foi embora. Mas qual caminho seguir? A resposta veio rápido: Carpina. Todos os domingos à tarde, trens da extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA) faziam o trajeto que ligava Recife até o município da Mata Norte de Pernambuco. Caminho feito pelo próprio pai e Dona Maria, quando, aos finais de semana, iam fazer feira. E foi a partir de uma carona na estação Ferroviária de Carpina, que Dona Maria tentou recomeçar a vida sozinha. 

O recomeço

Recém-chegada em Carpina, Dona Maria foi adotada por Dona Chana, uma senhora que vendia almoços no centro do município. As duas já se conheciam por conta das idas e vindas do seu pai, José Joaquim, aos domingos, para fazer feira na cidade. Foi a vendedora de quentinhas a primeira a ser procurada pela torcedora do Sport, que pedia um teto para morar. A comerciante aceitou o pedido. O ‘sim’, no entanto, marcou o início de um pesadelo que durou 27 anos. Morando com a comerciante, Dona Maria assumiu outro papel: o de empregada doméstica.

“Não tive direito a nada, só a trabalhar. Como eu era preta e ela tinha uma filha, Nininha, bem alva, de cabelo bonito, ela cuidava mais da filha e não cuidava de mim. Eu só existia para trabalhar e a filha dela não fazia nada. Durante os 20 anos que passei lá, desde que cheguei com sete anos de idade, só fiz lavar prato, casa. Eu saía carregando comida de Carpina até Tracunhaém para levar almoço para o genro de dona Chana. Todo dia, no sol quente”, relembrou.

Nesse instante, Dona Maria para a conversa. “Mas, minha filha, foi lá que eu comecei a perceber que precisava tomar outro rumo”, prossegue. Ela lembra que recebeu uma proposta tentadora: construir uma casa e dividi-la uma com a filha de Dona Chana. “E quem não quer ter uma casa? Eu fiquei doidinha para ter uma casa. Eu me danei a bater tijolo, puxar água naquelas cacimbas. Eu batia barro também para botar nas grades. Fiz tudo sozinha. Quando a casa estava pronta, perguntei: ela é minha e de Nininha, não é? Dona Chana disse: não, é só de Nininha. Aquilo ali me deu uma revolta tão grande no mundo, tão grande... Foi por isso que saí de Carpina”, detalhou.

Começar de novo

Na época com 27 anos, Dona Maria novamente procurava um lugar para reconstruir a vida. Sem perceber, a grande paixão da vida começava a se desenhar. “Eu  sempre gostei de futebol, de esportes. E eu ouvia minhas amigas de Carpina falando que no Recife tinha um time de futebol rico, o Sport. Aí eu fiquei empolgada porque queria conhecer esse time de qualquer jeito, não sei o porquê. Vim para Recife também por conta disso”, explicou.
 
(Foto: Montagem/Multimídia)
Como uma retirante, Dona Maria chegou à capital pernambucana em 1959 levando consigo apenas um “mulambinho” de roupa nas costas. À procura de uma nova chance. Mas não tardou para a solução chegar.  "Um senhor, com quem eu estava conversando na rua e pedindo uma casa para morar, conhecia seu Sarubbi, um italiano muito famoso aqui no Recife, dono de uma Alfaiataria no Pátio do Santa Cruz. Ele foi falar com seu Sarubbi e disse: ‘olhe, seu Sarubbi, tem uma ‘moreninha’ de Carpina que não tem para onde ir. Você quer ficar com ela até ela arrumar um canto? Aí ele disse: quero. Aí pronto, fiquei lá”, lembrou. 

A casa do italiano foi o lar de Dona Maria por quase 40 anos, mesmo quando conheceu e esteve casada por 30 anos com João Assis de Oliveira, seu marido. Na casa dos Sarubbi, Dona Maria trabalhou como babá e criou os três “Eu vi nascer, tirei do carro, botei no colo... Criei eles como meus filhos. Todo mundo gostava muito de mim e me tratava bem”, revelou. Aos domingos, a família tinha um compromisso inadiável: ir à praia de Pau Amarelo. “Parecia que era uma praga… Eles iam para Pau Amarelo, e aí batia com o dia do jogo do Sport. Eu ia para cuidar dos meninos, mas chorava demais. Eu chegava atrasada para o jogo, mas eu vinha”, confessou.

A nova família

Dona Maria nunca saiu da vida dos italianos. E vice-versa. Seu Sarubbi e a esposa Maíse faleceram, restando da família apenas os filhos Silvana e Paulo. São eles que, em retribuição ao carinho dado por Dona Maria na infância, cuidam dela até hoje. Por ironia do destino, torcem pelo Náutico. Mas Dona Maria não se atém à rivalidade, e brinca: “É o jeito. Ninguém é perfeito", brinca. Apesar da idade avançada, Dona Maria não parou no tempo. Continua com personalidade forte, independente. Há dois anos, escolheu viver distante dos filhos de criação e hoje mora sozinha em um condomínio de propriedade da família Sarubbi, em Afogados. “Todo dia eles (Silvana e Paulo) ligam, me levam para médico, para passear. Cuidam de mim”, explicou. 

E é dentro do seu ‘cantinho’ que Dona Maria faz o que quer. O cronograma está na ponta da língua. Todos os dias, levanta da cama às seis da manhã, toma café, varre casa, cozinha e lava os pratos. E ainda tem disposição de sobra para fazer uma das coisas que mais gosta: pular corda. “Eu pulo corda aqui dentro de casa porque lá fora, se me verem pulando corda, vão achar que a velha está doida”.

(Foto: Leandro de Santana/Esp.DP )
Outra paixão da torcedora rubro-negra é ler revista de horóscopo e a Bíblia, sempre aberta na mesa de cabeceira perto da cama.  Mesmo analfabeta, tendo “estudado umas letras” no Mobral - Movimento Brasileiro de Alfabetização instituído em 1967 durante a Ditadura Militar -  já com mais de 40 anos, Dona Maria diz que “sapeca” algumas coisas, apesar da dificuldade. “Sei o “o” porque tem no fundo da xícara. Ainda leio alguma coisinha na minha Bíblia, que fica na minha mesa aberta o tempo todo, e minha revista de horóscopo, que eu amo. Sou uma aquariana verdadeira, porque a gente é forte e nunca desiste”, relatou. 

É assim que Dona Maria caminha, segue a vida, inclusive compartilhando o segredo que, para ela, é a fórmula da longevidade:  nunca desejar mal a  ninguém, nem ao próprio inimigo. “Só tome conta da sua vida”, aconselhou. Para quem teve uma vida de batalhas - vencidas -, Dona Maria também não tem medo da morte.

"Quando eu morrer quero sair do Sport, ir em um caminhão do carro dos Bombeiros, passar pelo Palácio do Governo até chegar no cemitério. E quero ser enterrada na frente do cemitério, não é atrás não. Porque quando o negro morre, enterram lá no fundo. E eu tenho muito orgulho da minha cor. Eu vou quando Deus quiser, mas sei que ele não quer que eu vá agora, disso eu tenho certeza", garante. E com a experiência inerente aos seus 95 anos, Dona Maria escolhe aproveitar o presente. "O momento mais marcante da minha vida é estar viva."