Ex-aliados, Ricardo Guimarães e Alexandre Kalil são rivais na política do Atlético (Foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)


Ex-presidente e um dos principais investidores do Atlético, Ricardo Guimarães criticou duramente o novo veto da Prefeitura de Belo Horizonte para a realização de jogos com público na capital devido à pandemia do coronavírus. O empresário acredita que a decisão do Executivo municipal está relacionada à política interna do clube. Sem citar o nome do prefeito Alexandre Kalil, também ex-presidente alvinegro, Guimarães afirmou que pessoas da PBH desejam dificultar o caminho do Galo.  
 
"Minha percepção é de ficar abismado com essa medida. Não vejo motivos para uma decisão tão radical como essa. Se houve erros na partida entre Atlético e River Plate, a prefeitura é também partícipe do erro. Em conjunto com o Atlético e o Mineirão, a prefeitura deveria melhorar o protocolo antes de tomar essa decisão tão radical. Para mim, essa decisão tem mais uma decisão política interna do Atlético do que de uma questão pública da prefeitura. Isso nunca será admitido ou mesmo comprovado, mas a prefeitura parece querer disputar com os dirigentes e colaboradores do Atlético. Parece que, dentro da prefeitura, existem pessoas que desejam dificultar as coisas para o Atlético", declarou o dono do banco BMG, em entrevista à rádio Itatiaia, neste domingo. 



 
Segundo Ricardo Guimarães, a proibição para jogos com torcida em BH é mais um exemplo de como a prefeitura se incomoda com o momento bem-sucedido do Atlético dentro e fora de campo. Ele citou as contrapartidas ambientais impostas ao clube pela PBH para a construção da Arena MRV, futuro estádio alvinegro.  
 
Antes de efetivamente jogar na nova casa, o Galo precisa conseguir a Licença de Operação e cumprir, nesse processo, 89 condicionantes estabelecidas pela prefeitura de BH. São contrapartidas viárias, ambientais e sociais que o empreendedor deve dar à área onde a obra está sendo construída, no bairro Califórnia, na região Noroeste da cidade. Guimarães ressaltou que as medidas da PBH atingem diretamente o Atlético. 
 
"Eu, como colaborador do Atlético e conhecedor do dia a dia, vejo que o sucesso do Atlético tem incomodado pessoas na prefeitura. Basta ver as exigências das contrapartidas absurdas e extremamente onerosas para a construção da Arena MRV e, agora, essa proibição que atinge diretamente o Atlético. Para quem está nos bastidores do Atlético, sabe que o sucesso encaminhado pelos abnegados Rubens (Menin), Rafael (Menin), Renato (Salvador), Sérgio (Coelho), Zé Murilo (Procópio), além do sucesso profissional do Rodrigo Caetano, Cuca e todos os jogadores e colaboradores, pode estar causando inveja e ciúmes em gente na prefeitura. É o que parece. Parece que estão torcendo contra, por mais que digam o contrário", alfinetou. 
 
Por fim, Guimarães ressaltou que a declaração não retrata o pensamento do Atlético. "Como essa é a minha opinião, e não o posicionamento oficial do clube, não precisa ser provado, mas é uma opinião responsável de quem está dentro e está sentindo as dificuldades".



 

Nova proibição

 
O Mineirão foi o palco dos dois eventos-teste para a volta das torcidas em BH após quase um e cinco meses de arquibancadas vazias. O primeiro, na última quarta-feira, ocorreu no jogo entre Atlético e River Plate pelas quartas de final da Copa Libertadores. Mesmo com uma série de restrições e regras pré-estabelecidas, a partida registrou aglomeração e desobediência às normas.

Na sexta-feira, foi a vez de o Cruzeiro receber o público no estádio, em confronto com o Confiança, pela Série B do Campeonato BrasileiroOs problemas se repetiram e fizeram a  Prefeitura de BH, por meio do Comitê de Enfrentamento à COVID-19, vetar a realização de novas partidas na cidade por tempo indeterminado. 
 
Uma reunião organizada pela Prefeitura de BH entre representantes do governo municipal, clubes de futebol - América, Atlético e Cruzeiro - e Minas Arena (concessionária responsável pela gestão do Mineirão) estava prevista para a manhã desta segunda. Contudo, o encontro foi desmarcado e a decisão já tomada neste domingo (22). 



 
O prefeito Alexandre Kalil concederá entrevista coletiva nesta segunda-feira, às 10h, para tratar do caso e se posicionar sobre as declarações dos dirigentes de futebol.

Diferenças entre Guimarães e Kalil

Entre 2001 e 2003, Kalil (centro) era o homem forte do futebol do Atlético durante a gestão de Ricardo Guimarães (Foto: Jorge Gontijo/EM/D.A Press)



Ricardo Guimarães e Alexandre Kalil são adversários políticos no Atlético há vários anos. O banqueiro passou a ter bastante influência na gestão de Sérgio Sette Câmara e a manteve na gestão do atual presidente, Sérgio Coelho. 
 
Enquanto Kalil presidiu o Atlético entre 2008 e 2014, Ricardo Guimarães foi o mandatário entre 2001 e 2006. O afastamento político entre os dois se deu em 2003. À época, Kalil era responsável pelo departamento de futebol do Atlético, justamente na gestão de Guimarães.



 
O racha inicial foi em decorrência da aproximação de Ricardo Guimarães com a Confederação Brasileira de Futebol, então presidida por Ricardo Teixeira. Kalil, por sua vez, era radicalmente contra o estreitamento da relação com a entidade.
 
Por causa dessa divergência, Kalil deixou a gestão de Guimarães em 2003. Em 2004, ele assumiu a presidência do Conselho Deliberativo do Atlético. Quatro anos depois, tornou-se presidente executivo, função que exerceu até 2014.
 
Em março de 2020, o médico Felipe Kalil, filho de Alexandre Kalil, tomou a decisão de deixar o Atlético após tomar conhecimento que Ricardo Guimarães teria pedido a sua demissão ao então presidente Sérgio Sette Câmara.