Fred Melo Paiva

DA ARQUIBANCADA

Os donos do Atlético

E pensar que bastava aos donos do Atlético terem respeitado a tradição democrática do clube, que não deveria ter dono porque é do povo, de sua torcida, da Massa

postado em 10/02/2018 12:00

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press

Quando chegou ao Atlético, segundo o próprio, Oswaldo de Oliveira recebeu dos novos empregadores o seguinte alerta: “Cuidado com o repórter assim, assim, ele é perigoso, tem informantes no clube”. Traduzindo para o português, teriam dito a Oswaldo que o jornalista Léo Gomide fazia, admire você, jornalismo. E assim como um médico tem seu estetoscópio ou um advogado carrega consigo um exemplar do Código Penal, Gomide teria suas fontes. Do ponto de vista dos donos do Atlético, médico com estetoscópio, advogado com Código Penal e jornalista com fonte configuram-se um grande perigo à sociedade.

Segundo Alexandre Gallo, aquele que não faz jus ao nome, a agressão de Oswaldo a Gomide teria sido motivada por um “xingamento veemente” do jornalista (do que se depreende que, diante de xingamentos, tudo bem descer a porrada). Havia uma dúzia de microfones ligados na sala de imprensa no momento em que Gomide teria sido veemente. Tal veemência, no entanto, não foi veemente ao ponto de ser captada por nenhum dos microfones (pobre imprensa, deve estar trabalhando com aparelhos de telex...). “Teria sido em Libras”, ressalvou o blogueiro da ESPN Christian Munaier, vetado há pelo menos dois anos no clube pelo delito de emitir opiniões. O perigoso Munaier.

Os donos do Atlético têm todos os traços de um personagem tipicamente brasileiro: o tosco endinheirado e portanto poderoso. Uma das principais características do tosco endinheirado e portanto poderoso é o absoluto desprezo pela democracia – ou o apreço a ela apenas quando convém. Por conseguinte, seu entendimento sobre mecanismos e instituições que procuram garantir justiça, equidade e liberdade de expressão tem a consistência das colunas gregas de seus edifícios: são de gesso, ocas.

Repare no que disse Alexandre Gallo em sua patética aparição na TV oficial (claro) do Atlético anunciando o impedimento de Gomide exercer sua profissão pelo crime de deixar-se agredir por um funcionário da casa: “Não queremos cercear nenhum veículo de comunicação, queremos uma parceria sempre”. Parceria você faz com agência de propaganda. Jornalismo, se respeitável, tem parceria é com o leitor, o ouvinte ou o espectador, que afinal é quem lhe paga o salário.

O modus operandi dos donos do Atlético para lidar com seus críticos inclui a difamação e o uso de sua espantosa estrutura para descer a mão de ferro sobre os indivíduos (nunca sobre as empresas, e excetuando-se sempre os empregados da Globo). Aconteceu comigo, e segue acontecendo.

No episódio desta semana, a assessoria do clube trabalhou com afinco para colocar Oswaldo em variados programas de TV. Assim como um Temer vendendo a reforma da Previdência, ele peregrinou rifando o pobre repórter, que com muita luta realizara o sonho de chegar a setorista do Galo. Não colou: enquanto injuriava, difamava e caluniava, isso sim um crime, lá estavam as imagens de Oswaldo partindo para as vias de fato. Até minha avó sabia, desde o primeiro momento, que a gestão dessa crise pelo Atlético era desastrosa e insustentável. Mas os donos do Atlético vivem em outro mundo, e o preço disso é a destruição da nossa imagem.

Como não colou, então que se inverta tudo e que se mande embora o Oswaldo. Que várzea, meus amigos! É de se perguntar agora, no caso de ser permitido ao jornalista fazer jornalismo: e a defesa veemente que se fez do técnico? E o xingamento veemente, encontraram algum áudio? Alguém vai se desculpar com o jornalista achincalhado em rede nacional?.

Em apenas dois meses da nova gestão, a narrativa vitoriosa, a esta altura difícil de reverter, é a de que estamos de volta aos tempos mais sinistros da nossa história. E pensar que bastava aos donos do Atlético terem respeitado a tradição democrática do clube, que não deveria ter dono porque é do povo, de sua torcida, da Massa. Quando estive eu nessa posição de achincalhe, respondi respeitosamente à mensagem de um diretor defendendo meu direito e meu dever à opinião – e citando o pouco apreço que pareciam ter pela democracia. “Democracia o caralho”, ele me respondeu. Uma frase lapidar.

Às 10h24 da sexta-feira, Léo Gomide anunciou em seu Twitter: “Oswaldo de Oliveira não é mais técnico do Atlético” (e um sujeito logo abaixo, “entrevista o Temer”). Gomide segue proibido de entrar na Cidade do Galo, e portanto impedido de exercer sua profissão. Não aprendem. O tosco endinheirado e portanto poderoso é antes de tudo um tosco.

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