Fred Melo Paiva
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DA ARQUIBANCADA

O crüzëirënsë deu apenas um azar: nasceu crüzëirënsë

O azar do atleticano não é puramente o azar. É algo que habita a profundeza da alma e a grandeza da luta. Nossa derrota é a derrota de Gandhi, Guevara, Luther King, Zumbi, Jesus Cristo

postado em 03/03/2018 12:00

Rodrigo Clemente/EM/D.A Press
É sabido que o crüzëirënsë nasceu com o fiofó virado pra lua, enquanto o nosso infelizmente apontava pro sol. Por isso o crüzëirënsë tem essa sorte suprema: ganha título por fax, ganha Libertadores sem argentino, vende o Fábio Júnior mais caro que o Ronaldo e é bi com o Marcelo Oliveira (foto) – entre outras façanhas que só se explicam pela largura sobrenatural, quando não pelos senadores que elege. Pão de crüzëirënsë é feito gato: se vai cair com a manteiga pra baixo, pode esperar a pirueta salvadora. O crüzëirënsë deu apenas um azar: nasceu crüzëirënsë – já pensou se acontece uma coisa dessa com a gente?

O azar do atleticano não é puramente o azar. É algo que habita a profundeza da alma e a grandeza da luta. Nossa derrota é a derrota de Gandhi, Guevara, Luther King, Zumbi, Jesus Cristo. É o Belchior dizendo que “eles venceram e que o sinal está fechado pra nós” – se bem que “ano passado eu morri, mas este ano eu não morro”. O nosso azar tem o punho cerrado do Rei. Nossas derrotas são como as do Darcy Ribeiro: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

O crüzëirënsë não compreende essas coisas porque teve o azar de dar sorte sempre. O atleticano foi talhado na dor e na injustiça, e isso expandiu sua consciência sobre Deus e os homens, sobre o sentido do futebol e a força de ser Galo. O crüzëirënsë se fez na alegria frívola das coisas sem consequência. Pra ele, futebol é futebol – conquistar os três pontos, levantar a taça. O título. Em tempos passados, diante da escassez de conquistas, saíamos com esta: “Quem gosta de título é cartório”. Mas essa é, no fundo, a verdade dos fatos. O crüzëirënsë celebra o registro, a firma reconhecida; o atleticano, o amor, a vida, a fraternidade, a luta.

O crüzëirënsë foi alijado das coisas profundas da vida, restando-lhe a existência chocha daqueles que estão sempre ao nível da superfície. Lá no fundo, porém, bem lá no fundo, há um crüzëirënse que luta contra a sua própria banalidade, como um alien que deseja romper-se daquele corpo vulgar. Esse é o crüzëirënsë cujo maior e mais inconfessável dos sonhos é gritar Galo quando cai um copo no chão. Esse é o crüzëirënsë que, não se aguentando mais, envolve a própria cabeça no travesseiro e experimenta o grito de guerra capaz de tirá-lo do armário em que se encontra: “GAAAAAAAAAALOOO”. Digo, sem nenhuma sacanagem: o crüzëirënsë vira-folha – e há muitos – é um revolucionário.

Neste domingo, muitas dessas almas estarão em conflito: por fora, serão Crüzëirö; por dentro, o que todo ser humano merece ser nessa vida, nem que seja por um lapso de tempo – serão Atlético. Fred, o Cone, estará entre essas almas atormentadas: Crüzëirö por fora, Galo por dentro. Acabo de ver sua imagem na chegada ao aeroporto depois da sapatada na Argentina. Manco e cabisbaixo, carregava uma sacola de plástico CVC. Parecia o Maluf chegando na penitenciária. A sacolinha da CVC sugeria seu rebaixamento à classe média inadimplente, sem condição de quitar as dívidas do passado.

Mas não era isso. Era o crüzëirënsë exterior travando sua guerra contra o atleticano interior. Foi o que lhe fisgou a panturrilha. Se pudesse, pagaria os dez milhões jogando de graça no Atlético. Ele sabe: vestir essa camisa é a sorte suprema. O resto é só futebol. #PAZ.

Ps. Parabéns a quem teve a ideia, no Atlético, de falar do Dia Internacional da Mulher, dando voz e projeção a Maria da Penha – aquela cuja tragédia pessoal inspirou a lei. Isso é o Galo respeitando a sua própria história, de luta e inclusão.

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