Corrida por medalhas: como a política explica as potências olímpicas

EUA estão no topo há décadas, enquanto a extinta União Soviética segue como segunda colocada geral. No Brasil, resultados melhoraram só a partir dos anos 1990

Foto tirada durante os Jogos Olímpicos de 1976, em Montreal, mostra atletas do decatlo de três potências olímpicas: EUA (Bruce Jenner, ouro, ao centro), Alemanha Ocidental (Guido Kratschmer, prata, à esquerda) e União Soviética (Nikolay Avilov, bronze, à direita)
foto: Jérôme RASETTI

Foto tirada durante os Jogos Olímpicos de 1976, em Montreal, mostra atletas do decatlo de três potências olímpicas: EUA (Bruce Jenner, ouro, ao centro), Alemanha Ocidental (Guido Kratschmer, prata, à esquerda) e União Soviética (Nikolay Avilov, bronze, à direita)



O esporte, por sua natureza repleta de aspectos imprevisíveis, raramente tem respostas exatas. Historicamente, no entanto, os Jogos Olímpicos sempre tiveram o domínio dos Estados Unidos. Desde 1996 - quatro anos depois de a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), criada após a desintegração da União Soviética, vencer as disputas em Barcelona -, os EUA lideram o quadro de medalhas. Mas, a própria derrota dos norte-americanos na Catalunha para a CEI mostra que os cenários político-sociais sempre tiveram influência no desempenho dos atletas. E este cenário deve ser repetir na Olimpíada de Tóquio.

A liderança dos EUA poderia ser ainda maior caso, por exemplo, não fosse o boicote aos Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou - uma resposta à invasão soviética ao Afeganistão em meio à Guerra Fria. Entre os eventos de Helsinque (1952) e Montreal (1976), as duas nações se revezaram na liderança e vice-liderança do quadro de medalhas: cinco vitórias soviéticas e duas dos americanos.


Em meio às disputas entre comunistas e capitalistas, outra potência esportiva à esquerda surgiu: Cuba. Em 1959, a pequena ilha do Caribe teve sua revolução, derrubando o governo militar de Fulgencio Batista. Logo de cara, criou-se no país dois órgãos que tiveram influência direta no desempenho dos cubanos nos Jogos: a Direção-Geral de Esportes e o Instituto Nacional de Esporte, Educação Física e Recreação (Inder, na sigla em espanhol).

Os trabalhos executados no Inder, a partir dos investimentos no esporte com apoio da também comunista União Soviética e outros países do Leste Europeu por meio do Conselho para Assistência Econômica Mútua, fizeram com que Cuba virasse potência olímpica. Até a primeira edição dos Jogos em Tóquio (1964), o país somava sete medalhas em 18 megaeventos. Só nas disputas de Munique (1972), atletas nascidos na ilha subiram ao pódio oito vezes. O recorde veio em 1992: 31 medalhas.

O país totaliza 213 honrarias, o que o coloca em 21º lugar na série histórica, melhor desempenho entre todos os latinos. Na sequência, aparecem Brasil (129) e Argentina (74). Porém, Cuba tem conquistado cada vez menos medalhas nas últimas edições dos Jogos. Desde as 29 de Sidney (2000), a ilha só caiu em rendimento. No Rio (2016), foram 11 pódios, com destaque, como sempre, no boxe e na luta olímpica.
 

Cuba se prepara para os Jogos de Tóquio em meio a uma convulsão social que culminou em uma onda de protestos contra o presidente Miguel Díaz-Canel. O governo local coloca as dificuldades vividas pelo país na conta do embargo comercial imposto pelos EUA e classifica os protestos como "mentira". Já os críticos ao regime acusam o país de não escutar as demandas da população, até mesmo com repressão às manifestações a partir do corte da internet do país.

Os problemas refletem até mesmo na delegação cubana. O saltador triplo Jordan Díaz abandonou a delegação do país e não vai mais disputar os Jogos de Tóquio. Aos 20 anos, ele era uma das promessas de medalha da ilha.


China em ascensão


Se Cuba convive com dificuldades no desempenho no quadro de medalhas, movimento inverso tem ocorrido com a China. Após atingir seu recorde em casa (Pequim, 2008) e conseguir 100 pódios, a potência asiática emendou suas segunda e terceira melhores participações exatamente nas duas últimas edições: Londres (2012) e no Rio de Janeiro (2016), com respectivamente 88 e 70 medalhas. E tem dominado completamente os Jogos Paralímpicos, superando até mesmo os EUA.

O país é potência em diversas modalidades, como levantamento de peso, tênis de mesa, tiro esportivo, natação, saltos ornamentais, atletismo e badminton. A meta do Partido Comunista da China é investir 813 milhões de dólares no esporte até 2025, com foco desde as escolas até o alto rendimento.

Na prática, os Jogos de Pequim em 2008 serviram para catapultar a imagem do governo local como potência econômica, a partir do uso do esporte como ferramenta de socialização - o que reflete o desempenho nas disputas paralímpicas.

Astro do trampolim acrobático, Dong Dong é uma das estrelas da forte delegação chinesa em Tóquio
foto: THOMAS COEX/AFP

Astro do trampolim acrobático, Dong Dong é uma das estrelas da forte delegação chinesa em Tóquio



"Nacionalmente, os Jogos Olímpicos parecem ter proporcionado aos chineses uma oportunidade para que se percebessem dentro de uma perspectiva global. Por sua vez, as inúmeras comunidades internacionais ligadas à China através dos Jogos parecem ter tido muito boas referências desse 'novo' país emergente de forma que novos relacionamentos pudessem ser desenvolvidos", ressalta a professora Ana Miragaya, da Universidade Gama Filho, no artigo "A cultura chinesa como base da renovação olímpica", publicado no Fórum de Desenvolvimento do Esporte Olímpico no Brasil.

Europa consolidada


Ao longo dos 125 anos da história olímpica da Era Moderna, algumas nações europeias apresentaram menos oscilações e ocupam o topo de forma perene. A Grã-Bretanha, por exemplo, liderou o quadro geral de medalhas apenas em 1908, quando a capital Londres sediou o evento. Mesmo assim, está perto dos 900 pódios e só fica atrás de EUA e União Soviética na classificação geral.
A Alemanha aparece na sequência. O país desponta nas primeiras posições desde 1896, em Atenas. Na emblemática Olimpíada de 1936, liderou o quadro de medalhas em Berlim, num evento que serviu em grande parte para fortalecer o regime nazista de Adolf Hitler, iniciado oficialmente três anos antes. França e Itália são outras nações europeias que também têm desempenho consistente ao longo das edições.

Voos únicos


Do outro lado da tabela histórica do quadro de medalhas estão 26 países que conquistaram somente um pódio olímpico. Entre eles estão pequenos territórios independentes como Kosovo, Antilhas Holandesas, Ilhas Virgens Americanas, Tonga e Macedônia. 

Três bandeiras foram hasteadas pela primeira vez justamente no Rio de Janeiro: Fiji (Oceania), Jordânia (Ásia) e Kosovo (Europa). Esse último comitê olímpico estreou justamente em 2016, quando Majlinda Kelmendi conquistou o ouro na categoria meio-leve do judô.

Com participações desde Moscou (1980), a Jordânia levou sua primeira medalha também nas artes marciais: Ahmad Abughaush faturou o ouro na categoria leve do taekwondo. Já Fiji entrou para a história também com o lugar mais alto do pódio ao vencer a disputa do rúgbi de 7, modalidade na qual os países da Oceania são referência mundial.

O Brasil


O cenário brasileiro em meio às potências olímpicas
foto: Arte/EM

O cenário brasileiro em meio às potências olímpicas



A história olímpica do Brasil começa em 1900, quando Adolphe Klingelhoefer, brasileiro nascido na França 20 anos antes, participa dos Jogos de Paris. A participação na corrida com barreiras e nos 60 e os 200 metros rasos foi discreta, mas o atleta cumpriu papel político fundamental para que a primeira delegação nacional fosse a uma Olimpíada, em 1920 (na Antuérpia).

Naquele ano, a cidade belga viu Guilherme Paraense brilhar no tiro rápido e conquistar a primeira medalha brasileira - e logo a de ouro. O país terminou com três pódios e só voltou a conquistar 28 anos depois, nos Jogos de Londres. O Brasil continuou com papel quase figurativo nas grandes disputas olímpicas por décadas.

Nas seis edições realizadas durante os 21 anos de Ditadura Militar (1964-1985), foram apenas 20 medalhas conquistadas (três de ouro, seis de prata e 11 de bronze). À época, o esporte utilizado politicamente como vitrine do regime era o futebol, que não conseguiu o sonhado primeiro lugar - objetivo alcançado só em 2016, no Rio de Janeiro.

As coisas começam a mudar nos anos 1990. Nos Jogos de Atlanta, em 1996, o Brasil consegue superar a barreira das dez medalhas pela primeira vez. Foram 15 no total: três de ouro, três de prata e nove de bronze. Após quedas seguidas em Sidney e Atenas, o país sobe ao pódio 17 vezes em Pequim e Londres.

O recorde foi registrado em casa. No Rio de Janeiro, o país totalizou 19 pódios: sete em primeiro lugar, seis em segundo e mais seis em terceiro. Agora, em Tóquio, o objetivo é superar o desempenho de cinco anos antes. "Nós chegamos a um nível em que temos chances em mais de dez modalidades. Antigamente, chegávamos com chances em cinco, sete modalidades", pontua o vice-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e chefe de missão em Tóquio, Marco Antônio La Porta.

É uma meta viável. O Brasil conta com boas possibilidades de medalha em esportes tradicionais, como futebol, vôlei, natação, atletismo, judô, vela e vôlei de praia. Modalidades recém-incluídas na agenda olímpica - como o skate e o surfe - também devem ajudar o país a alcançar o objetivo.

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