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Lisca revela assédio a jogadores do América: 'Os caras queriam sair'

Ex-técnico do Coelho contou bastidores do mercado da bola, exaltou o trabalho de Salum, mas ressaltou a dificuldade em segurar atletas com salários 'baixos'

27/10/2021 10:47 / atualizado em 27/10/2021 12:00
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Lisca comandou o América por um ano e quatro meses
foto: Reprodução/YouTube

Lisca comandou o América por um ano e quatro meses

Ex-técnico do América , Lisca revelou bastidores e propostas recebidas por jogadores do clube quando dirigia o Coelho. O treinador detalhou negociações envolvendo o zagueiro Messias, os meios-campistas Zé Ricardo e Alê e o atacante Ademir.

Em entrevista ao podcast O Barrista na semana passada, Lisca explicou a dificuldade da equipe mineira em segurar os principais atletas. Segundo ele, as propostas salariais que chegaram eram bem maiores do que o América podia arcar, fazendo com que os próprios jogadores pedissem para sair. 

"Isso foi uma outra coisa que me complicou nessa gestão. Os caras queriam ir embora e eles te falam. Messias, Ademir, Zé Ricardo. O Messias me implorou, chorou, me pediu ajuda, 'eu preciso ir'. Vamos dar um exemplo, o Messias ganhava no América R$ 60 mil, o Ceará ofereceu um contrato de três anos de R$ 190 mil. Ele olhou pra mim e falou, 'Lisca, eu nem sei o que é isso. Eu preciso ir, me ajuda'", disse o treinador. 

Dos quatros citados por Lisca, Messias foi o único que deixou o América nesta temporada. O  Coelho negociou 50% dos direitos do defensor com o Ceará em março . A venda rendeu cerca de R$ 2 milhões aos cofres do clube. 

Outra negociação revelada pelo ex-técnico do América foi a do Palmeiras com Zé Ricardo. Atual reserva na equipe, o volante era peça fundamental sob o comando de Lisca.

Segundo o treinador, a proposta pelo jogador chegou na véspera do jogo de ida da semifinal da Copa do Brasil de 2020, em que o Coelho foi eliminado. O técnico contou que o atleta foi mais um a 'implorar' para deixar a equipe. 

"O Zé Ricardo me ligou na véspera de jogo do Palmeiras, nós e Palmeiras, mas o Zé tava fora. O Abel (Ferreira, treinador do Palmeiras) ligou para ele, falando que tinha um contrato de cinco anos, em tal valor. Cara, ele (Zé Ricardo) me ligou desesperado, 'pelo amor de Deus Lisca'. Eu vou no Salum, o Salum diz não. 'O América não precisa, o América é redondo'", explicou.

"Sabe qual foi a ideia do (Marcus) Salum? E aí como que eu vou condenar ele. O Ademir (os times estavam) oferecendo cinco, seis, oito, dez (milhões), e ele, não. Mas os jogadores vão ficar descontentes (Lisca a Salum). Ele me disse, 'calma que é só um mês, depois nós vamos trabalhando e ele vai, porque com esses cinco, seis milhões eu não vou conseguir trazer um jogador igual a ele. E eu vou investir esses cinco, seis milhões na minha permanência na Série A, que vale 100 (milhões) para mim', completou, enfatizando o papel de Salum.

Marcus Salum é o atual coordenador de futebol do América e ex-vice presidente. Para Lisca, o dirigente acertou em não vender os jogadores, já que entendia a importância deles para a permanência na Série A. 

"Ele está errado? Não está errado, não tem ninguém errado. 'Salum, pior que você tem razão, porque esses seis milhões não vão te fazer muita diferença hoje e tu vai perder o seu melhor jogador, que vai deixar de te ajudar a permanecer'. E ele perdeu, e vai de graça  (Ademir acertou um pré-contrato com o Atlético) . Mas o Salum sabe disso e concordou com isso. E aí o Ademir se tranquilizou e hoje está puxando (o time) para cima", afirmou.

Poder de negociação de Salum


Um dos destaques nas últimas partidas do América no Campeonato Brasileiro, o meia Alê foi outro que pediu para deixar o clube. A revelação também foi feita por Lisca, que não citou a data da proposta.

Segundo o treinador, que está sem clube no momento, Cuca, hoje no Atlético, ligou para ele dizendo que gostaria de contratar o jogador para o Santos na temporada passada. No entanto, Marcus Salum convenceu o jogador a ficar no Coelho.  

"O Alê, com 30 anos, é um jogador diferente do América, que pouca gente vê. Grande jogador. Jogava no Uberlândia, e o Paulo Bracks (ex-diretor do América) trouxe do Cuiabá. Veio, botou ele ali. O Cuca me ligou desesperado quando ele estava no Santos. Estamos ligando pra você porque queremos ele, mas antes estamos ligando pra você porque não queremos sacanagem", contou. 

De acordo com o treinador, Alê já o esperava na manhã seguinte da ligação para pedir a transferência. Lisca o liberou, mas ele decidiu ficar no clube por respeito e gratidão a instituição e vontade de atuar na Série A. 

"Cheguei no outro dia, quem está lá me esperando às 8h da manhã? Alê. Eu disse, já sei, os caras me ligaram. Ele disse, 'Lisca, é isso, a chance da minha vida. Mas eu tenho que considerar o América, porque me abriu uma porta, eu estava em um mercado mais secundário, tenho uma gratidão. Vou conversar com o Salum'. Ele foi lá, voltou e disse, 'vou ficar'. 'Não consigo falar não para o homem, ele é bom demais. Ele me fez um tanto de colocação, e eu quero jogar a Série A e não faz problema nenhum jogar no América, para mim é um sonho'", disse o técnico.

Lisca pediu demissão do América no dia 14 de junho. Pela equipe, foram 40 vitórias, 27 empates e 15 derrotas em 82 jogos, com um aproveitamento de 59,7% em um trabalho de um ano e quatro meses. 

Após deixar o Coelho, o treinador de 49 anos assumiu o Vasco em 20 de julho e se demitiu em 8 de setembro. Ele comandou a equipe carioca em 12 partidas, com quatro vitórias, um empate e sete derrotas. 


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