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Em meio a crise, Zezé Perrella revela medidas no Conselho e promete sindicância para apurar denúncias no Cruzeiro

Presidente do Conselho Deliberativo concedeu entrevista ao Superesportes

Tiago Mattar
Zezé Perrella falou pela primeira vez desde renúncia dos membros do Conselho Fiscal - Foto: Jair Amaral/EM/D.A. Press
Atualizada às 20h44

Presidente do Conselho Deliberativo do Cruzeiro, Zezé Perrella falou pela primeira vez sobre a série de denúncias apresentadas pelo Fantástico, da TV Globo, envolvendo membros da diretoria executiva do clube.  Em entrevista ao Superesportes, o ex-senador prometeu abertura de sindicância para apurar possíveis irregularidades e avaliou o fato de o clube ter envolvido uma criança de 11 anos como garantia de um empréstimo financeiro. 

Perrella ainda comentou as recentes renúncias de todos os membros do Conselho Fiscal, que deixaram seus cargos alegando falta de transparência e limitação de documentos sobre as atividades do clube. Ele analisou que “faltou coragem” a Celso Luiz Chimbida, Geraldo Luiz Brinat, Ubirajara Pires Glória, Valter Batista e Daniel Faria. “Eles poderiam ter contratado uma outra auditoria”, justifica.

Três horas após a publicação da reportagem, Zezé Perrella entrou em contato com o Superesportes para fazer um esclarecimento: "Tenho o maior respeito por todos os conselheiros que renunciaram ao Conselho Fiscal. Renúncia é sempre uma decisão de foro íntimo. Sobre coragem, eu reconheço que não deveria ter colocado desta forma. Falei de forma intempestiva". 

Por fim, Zezé revelou que tomará medidas para evitar que conselheiros funcionários do clube também participem de votações do Conselho Deliberativo. “Eles vão ter que optar entre continuar trabalhando no clube ou continuar sendo conselheiros”, avisou o presidente, que dará 30 dias aos associados para tomar essa decisão.

Leia mais: Veja tudo o que sabemos (e noticiamos) sobre as denúncias contra a diretoria do Cruzeiro

Veja abaixo, na íntegra, a entrevista com o presidente do Conselho Deliberativo do Cruzeiro, Zezé Perrella:

Como presidente do Conselho Deliberativo do Cruzeiro, como você viu as denúncias apresentadas pelo Fantástico, da TV Globo, envolvendo a cúpula da diretoria executiva?

Eu não vou expor. Falaram que eu ia conceder entrevista coletiva, mas não vou.
Durante o período inteiro que o Gilvan foi presidente, apesar de ter falado um monte de merda, você nunca me viu dar uma declaração sequer sobre futebol. Qualquer declaração causaria tumulto, eu sei da minha importância dentro do Cruzeiro. Neste momento, a minha função é de presidente do Conselho, não faço parte da direção executiva. O Conselho Fiscal é autônomo, não é eleito comigo. É uma chapa separada. Cabe a ele fiscalizar as contas do Cruzeiro. O Estatuto nem me permite fazer isso. Cabe ao Conselho Fiscal e só ao Conselho Fiscal apurar. Se eles renunciaram, para mim faltou coragem deles. Eles tinham outro caminho. O Estatuto prevê que o Conselho Fiscal pode contratar uma auditoria. Eles deveriam ter contratado uma auditoria. Com esse direito a auditoria, eles tinham outro caminho.
Eu nunca fui omisso, mas não é minha atribuição. Estou fazendo uma comissão, uma comissão de sindicância, composta por três membros, que vai ter acesso a toda documentação do clube. Na parte de salário de jogador, tem confidencialidade. É preciso tomar cuidado com risco de sequestro. Mas essa comissão vai ter acesso aos documentos.

Nota da redação: três horas após a publicação da reportagem, Zezé Perrella entrou em contato com o Superesportes para fazer um esclarecimento: "Tenho o maior respeito por todos os conselheiros que renunciaram ao Conselho Fiscal. Renúncia é sempre uma decisão de foto íntimo. Sobre coragem, eu reconheço que não deveria ter colocado desta forma. Falei de forma intempestiva". 

E você vai colocar membro da oposição nessa sindicância? 

Vou escolher pessoas qualificadas, da área, com gabarito. Para mim, não vejo oposição no Cruzeiro. Tem um grupinho.
Nem eu me considero oposição. Esses anos todos que fiquei não tinha turbulência política no Cruzeiro. Eu não posso assumir a condição de presidente do Conselho Deliberativo e ter partido.

Mas é evidente que há uma oposição no Cruzeiro...

Veja bem, não estou defendendo a situação. Acho até que a oposição faz bem, é democrática. Mas desde que seja uma oposição que não defenda o quanto pior, melhor.

Voltando um pouco sobre as denúncias do Fantástico. Como você viu a negociação que colocou uma criança de 11 anos como garantia de um empréstimo financeiro? Você já tinha visto isso no futebol?

Ali, talvez... Não estou defendendo ninguém. Eles (diretoria do Cruzeiro) entenderam que todos os jogadores são ativo do clube. Eu não tinha acesso aos documentos, eu não tenho acesso. Isso é papel do Conselho Fiscal. Eles deram (os 'direitos') como garantia de pagamento. Se amanhã algum deles for vendido, esse senhor (Cristiano Richard, que emprestou o dinheiro) poderia revindicar os R$2 milhões. Seria só uma garantia. Se tivesse repassado os direitos por aquele valor, seria um negócio muito preocupante. Eu posso dar um bem meu de R$50 milhões para garantir uma dívida de R$200. Foi isso que fizeram. Mas veja bem, eu jamais daria isso como garantia. Eu só acho que as explicações foram razoáveis. Não estou aqui para passar a mão na cabecinha de ninguém. 

Então as entrevistas do Itair Machado e do Wagner Pires de Sá, sobre as denúncias, te convenceram? Eles ainda falaram sobre relação comercial com a Máfia Azul, pagamento a conselheiros...

Com relação aos conselheiros do Cruzeiro, na minha época, tinham dois ou três, na verdade quatro ou cinco, que trabalhavam no clube. Não tinham direito a voto. Na minha época, era permitido que eles se licenciassem. Os remunerados, tinham que se licenciar (do Conselho Deliberativo). No nosso período, nenhum deles votou. Tivemos eleição, nenhum deles votou. 

Mas eles podem, então, se licenciar do cargo remunerado, votar e depois voltar aos cargos remunerados? Seria uma manobra...

Eles podiam fazer isso que você falou. Mas hoje o estatuto mudou, hoje é claro. Ele perde a condição. A discussão hoje é: elas trabalham, mas recebem através de PJ (pessoa jurídica, e não física, como a maioria das relações contratuais entre empresas e funcionários). Entendo que pessoa jurídica e física, prestador de serviço, é uma coisa só. 

E qual será a solução?

Esses conselheiros vão ter que optar entre continuar trabalhando no clube ou continuar sendo conselheiros. Vou dar um prazo de 30 dias para eles se decidirem.

Mas vai ser uma decisão definitiva de deixar o Conselho Deliberativo?

Sim. Vão perder definitivamente o status de conselheiro. E vários deles são conselheiros natos, ou seja, é uma coisa para vida toda. Se quiserem voltar ao conselho, vão ter que disputar novas eleições, tentar virar nato novamente. Vão ter que tomar essa decisão. 

E como está o clima no Conselho Deliberativo? A gente vê a oposição crescendo, reuniões acontecendo nos bastidores depois dessa série de denúncias. Você vê possibilidade de interrupção do mandato do Wagner a curto ou médio prazo?

No momento eu não vejo. Não vou em momento nenhum pré-julgar, até porque já fizeram muito isso comigo. Independentemente de denúncia, essa comissão de sindicância vai ter acesso a toda documentação. Essas irregularidades vão ser apontadas, se de fato existirem. Não só o conselho fiscal vai fiscalizar, mas a gente também, agora através dessa sindicância. Não sou situação nem oposição do Cruzeiro. Não quero pré-julgar, mas se aconteceram coisas erradas, providências serão tomadas. 

Sobre a eleição para o Conselho Fiscal. Ela estava marcada para o dia 6 (de maio), mas o Dalai Rocha (vice-presidente do Conselho Deliberativo) nos disse que já está cancelada. Tem uma nova data?

Não tem como manter para o dia  6, porque diante das novas renúncias, a chapa vai ser completa. Preciso convocar uma nova reunião com 15 dias de antecedência. Vou tentar distribuir essa convocação amanhã (quarta-feira), para daqui 15 dias (o que seria 13 de junho, uma vez que prazos judiciais são contados excluindo o dia do início e incluindo o dia do final). 

O Dalai Rocha nos revelou uma reunião de um grupo de conselheiros para o fim desta semana. Imagino que você faça parte desse grupo. Qual a principal pauta?

Eu não posso participar de reunião com grupo de conselheiros. Eu sou presidente do Conselho Deliberativo, participo de reunião com o conselho inteiro. 

Ainda sobre as denúncias, você não acha que tudo isso em que o Cruzeiro está envolvido, uma exposição desse patamar, não é muito prejudicial para a imagem do clube, especialmente se medidas não forem tomadas? 

O estrago que um negócio desse faz, de credibilidade, a nível de arrumar empréstimo... Foi terrível isso. Não estou dizendo que foi desnecessário, mas esse tipo de exposição não é boa para ninguém. Qual empresa gostaria de ser exposta assim? Mas não estou discutindo o teor da reportagem, a imprensa está aí para colocar as denúncias mesmo. 

Sobre outro tema, mas que também envolve o Cruzeiro. Afinal, seu filho Gustavo Perrella é ou não é funcionário do Cruzeiro? Se sim, quais são as funções dele?

Gustavo não é funcionário do Cruzeiro. Ele foi chamado para prestar uma assessoria por tempo determinado. As funções dele são ajudar na reestruturação financeira do Cruzeiro, ele é formado em administração, tem experiência. Então ele está lá temporariamente, para ajudar a equacionar as coisas, está ajudando, sem compromisso de funcionário. 

Por fim, ele entrará na chapa de Wagner Pires de Sá como vice-presidente na próxima eleição do Cruzeiro?

Essa possibilidade nunca foi aventada. O Gustavo não tem interesse em ser presidente do Cruzeiro, ele viu o que eu sofri, ele sofreu como família, viu tudo que o tio (Alvimar Perrella) passou na presidência. Ele não quer ser presidente e muito menos candidato a vice-presidente. 
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