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Cruzeiro: consultor traça perfil de investidor e explica divisão de lucro

Com a aprovação da SAF, clube começará a prospectar investidores no mercado

postado em 04/08/2021 09:50 / atualizado em 04/08/2021 14:26

(Foto:  Leandro Couri/EM D.A Press)


O Conselho Deliberativo do Cruzeiro aprovou a implantação do modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) nessa segunda-feira. Agora, a Raposa formará uma empresa para gerenciar as atividades do futebol e poderá vender até 49% de suas ações no mercado, mantendo a associação civil como sócia majoritária. Em entrevista ao Superesportes no último dia 23, o consultor do banco Itaú BBA, César Grafietti, disse que não acredita em grandes investidores internacionais aportando dinheiro no esporte brasileiro neste momento. Grafietti entende que o caminho mais natural hoje é a participação de empreendedores do Brasil.

"Eu vejo muito dificuldade para o investidor estrangeiro no Brasil. Inclusive, entrar em clubes endividados significa que o investidor terá que lidar com credores, negociar dívida, tem um efeito de um trabalho grande que drena a capacidade e a necessidade de cuidar do futebol. Neste momento, eu acredito pouco que investidores tradicionais entrem no Brasil. É possível que algum fundo de investimento americano, europeu ou asiático resolva colocar fundos no Brasil? Pode, mas não serão investidores do futebol, podem ser investidores que estão procurando operações de risco em qualquer lugar do mundo e encontram uma oportunidade dentro do Brasil. Acho que o caminho mais natural é de investidor brasileiro que conhece o negócio, que é próximo dos clubes, coloca o dinheiro para ajudar na gestão e depois negocia por um valor maior para investidores estrangeiros, mas mais para frente e não neste momento".

O consultor do Itaú BBA disse que o futebol brasileiro precisa se modernizar para atrair investidores. "O mercado brasileiro tem potencial de crescimento, não tenho dúvida disso, mas eu não consigo dizer e imaginar este potencial, tem muita coisa para acontecer. Você precisa criar uma liga, desenvolver uma negociação coletiva dos direitos de TV, que já tem um volume bastante razoável se comparando com países da Europa, o nosso mercado comporta valores muito menores do que o europeu, especialmente por conta da moeda. Um investidor que entra em um clube ele quer comprar por 10 e vender por 30, mas, para vender por 30, tem que pegar a receita de 100 e transformar em 300. Como você consegue fazer isso? Na Europa, é melhorando as posições na tabela e classificando para competições internacionais. Assim, você ganha mais dinheiro. Se o modelo de distribuição de dinheiro no Brasil não mudar, esse ganho quando você muda de posição é limitado, participar de competições sul-americanas não tem o mesmo ganho de participar de competições na Europa. O mercado de publicidade no Brasil é limitado no futebol, bem diferente do mercado europeu".

César Grafietti explica que investidores no mundo costumam buscar clubes de pequeno/médio porte para estruturá-los. Eles ganham dinheiro com a valorização dos ativos no momento da revenda. Para o consultor do Itaú BBA, não faz sentido um clube dividir os lucros todo ano com os investidores. Se isso ocorrer, haverá perda de competitividade.

"Há um mercado muito grande de negociação de clubes no mundo. Então, você compra um clube barato, com receita pequena ou média, um clube de metade de tabala para baixo. Depois, você faz investimento, aumenta receita, coloca este clube entre os melhores, busca um crescimento para participar de ligas europeias, para ter mais dinheiro e visibilidade. O investidor pega e vende o clube por um valor maior do que ele pagou. No caso mais comum de negociação de clube, os investidores e donos de clubes de futebol ganham dinheiro é fazendo isso, comprando barato e vendendo caro. Muito provavelmente, faz mais sentido para um investidor com essas características de fundo de investimento fazer a mesma coisa. Você não vai tirar o lucro do clube, você deixa o clube crescendo, aumentando as receitas, até que fique com potencial e desperte interesse de outro investidor, vendendo por um valor maior que comprou. Essa é a dinâmica e é isso que eu imagino que um investidor fará no caso do Cruzeiro, e não esperar um pouco de dividendo todo ano, porque isso não faz sentido em um clube de futebol", disse.

De acordo com o Cruzeiro, os recursos arrecadados com a venda de participação na SAF serão destinados prioritariamente para o pagamento de dívidas mais onerosas, além de investimento no elenco e na infraestrutura dos centros de treinamentos. Conforme o balanço de 2020, as dívidas da instituição são calculadas em quase R$900 milhões, ante uma arrecadação inferior a R$120 milhões com o rebaixamento à Série B.

A proposta da diretoria celeste diz que 20% dos rendimentos da SAF ao ano serão enviados ao pagamento de dívidas. Conforme previsto no Projeto de Lei, o time que constituir uma empresa para gerir o futebol poderá dissociar suas dívidas da associação. Desta forma, uma dívida do clube não irá interferir no futebol, como ocorre atualmente no Cruzeiro.

"A SAF pode distribuir lucro. Se o clube deu lucro, pela lei uma parte tem que ir para o clube, para a associação para ajudar no pagamento das dívidas. O que sobrar deste lucro pode ser distribuído para o fundo de investimento. A remuneração deste fundo de investimento viria do lucro que ele vai receber. Mas temos que pensar alguns pontos em relação a isso. Clube de futebol não é feito para dar lucro. Se você distribui lucro, é dinheiro que falta para reforçar o elenco, para pagar salário, então o futebol como estrutura de negócio não é feito para dar lucro. Não faz muito sentido você pensar em distribuir lucro de clube de futebol. Imagina que você distribuiu R$ 30 milhões de lucro e seu adversário não distribuiu nada. Com esse dinheiro, o adversário contrata um jogador, paga salários de dois, três atletas. Assim, você perde competitividade. Distribuir lucro no futebol não é uma alternativa correta do ponto de vista de gestão", completou Grafietti.


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