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CRÔNICA DOS 50 ANOS DO TRI

Brasil de 1970: os encantos do maior time do planeta

Seleção Brasileira campeã do mundo em 1970 no México ficou na história como síntese do futebol moderno. Seus seis jogos ainda enchem os olhos

postado em 21/06/2020 07:00 / atualizado em 21/06/2020 15:00

(Foto: O Cruzeiro/Estado de Minas)
Passados 50 anos da epopeia que levou a Seleção Brasileira ao tricampeonato mundial no México, a retransmissão de seus seis jogos pela TV comprova para o experiente jornalista de hoje a impressão captada pelos olhos do então adolescente na Belo Horizonte de 1970. O futebol estava ali em toda a sua essência: talento, organização, movimentação, velocidade, posse de bola, imposição de ritmo... Sem contar o repertório de lances de maravilhar o mais frio dos observadores.

Havia algo do carrossel da Holanda de 1974. Do tiki-taka do Barcelona, e em consequência a Seleção Espanhola de que o conjunto catalão era base; até porque Pep Guardiola é devoto do estilo brasileiro exibido em gramados mexicanos. Do vertiginoso Liverpool de Jürgen Klopp. Enfim, o Brasil que deslumbrou o planeta há cinco décadas representa uma síntese do futebol moderno. Ainda que meio século tenha se passado - com a evolução do preparo físico, do material de jogo e da tecnologia.

E por que aquele timaço simboliza essa modernidade? 

Primeiramente, a escolha de João Saldanha em 1969 para comandar um escrete desacreditado desde que, envelhecido em idade e concepção de jogo, caiu na primeira fase no Mundial de 1966. Meio que para se livrar das críticas da imprensa, o presidente da Confederação Brasileira de Desportos, João Havelange, desafiou o mais badalado dos comentaristas a assumir o cargo de que Vicente Feola e Aymoré Moreira já não mais davam conta. Treinador do Botafogo campeão carioca de 1957, e por isso nem tão estranho no ninho assim, o inteligente e carismático Saldanha resgatou a autoestima do time, que venceu os seis jogos das Eliminatórias.

Classificado o Brasil, Saldanha requisitou ao capitão Lamartine Pereira da Costa, estudioso do tema, um trabalho científico sobre como a equipe poderia se comportar na altitude de cidades mexicanas, com jogos ao meio-dia. O documento foi tão criterioso que sobreviveu à queda de Saldanha - mais em consequência do temperamento do que tudo.

Aí entra outro fator do sucesso: o acaso, presente em todo grande time da história. Zagallo era a terceira opção da CBD. Com a recusa de Dino Sani, treinador do Corinthians, e Otto Glória, que levara Portugal ao terceiro lugar em 1966, o técnico do Botafogo assumiu o comando. Adepto do 4-3-3, com ponta-esquerda recuado (replicando o papel que tão bem executara no bicampeonato mundial em 1958 e 1962), Zagallo decretou que Paulo César seria o camisa 11 e Roberto o centroavante %u2012 seus jogadores no ótimo Botafogo. Ou seja, com Tostão na reserva de Pelé. Isso se o titular e artilheiro das Eliminatórias fosse ao Mundial, pois convalescia de cirurgia para correção de deslocamento na retina.

Num coletivo em que Baldochi se contundiu, o volante Piazza quebrou o galho na zaga e deu qualificação à saída de bola. No amistoso com a Bulgária, um 0 a 0 em 26 de abril, Paulo César sofreu uma das maiores vaias da história do Morumbi. Pelé ficou no banco, para que Tostão, liberado pelos médicos, fosse observado. Zagallo, atento a tudo isso, era teimoso até certo ponto.

No dia seguinte, em reunião no quarto de Pelé na concentração no Rio, o Rei, Gérson e Carlos Alberto convenceram o técnico a testar Piazza na zaga, Tostão no ataque e Rivellino de falso ponta-esquerda no último amistoso antes do embarque, contra a Áustria, dia 29, no Maracanã. Com atuação convincente, o Brasil venceu: 1 a 0, gol de Rivellino.

O Brasil desembarcou em 2 de maio no México. Nas quatro semanas seguintes, apurou o preparo físico em Guanajuato (2.012m) e Irapuato (1.730m). Duas ocorrências definiram de vez os titulares: o corte do ponta-direita Rogério, contundido, e o deslumbramento do lateral-esquerdo Marco Antônio em seus 18 anos. Com o correto Everaldo na lateral e Jairzinho na ponta, estava pronta a Seleção para buscar o tri.

Zagallo teve duas conversas à parte. Com Jairzinho, disse que confiava no atacante em função diferente da que executava no Botafogo. A Tostão, perguntou se este se sentia capaz de se sacrificar como centroavante, pegando pouco na bola e abrindo espaços para Pelé e Jair. O craque respondeu que se espelharia no que fazia Evaldo no Cruzeiro.

O sucesso tático, possível pelos fatores mencionados, compensou o desequilíbrio do elenco a partir das improvisações (três quarto-zagueiros, três centroavantes, três pontas-esquerdas, nenhum reserva para a ponta direita nem para a armação). Se no 1 a 0 sobre a Inglaterra isso não se sentiu (Paulo César substituiu bem o contundido Gérson), no 3 a 2 contra a Romênia foi problema: com Rivellino também fora, Piazza foi adiantado para o meio-campo e Fontana entrou na zaga. Que não esteve firme.

O Brasil cantado e prosa e verso - Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gérson e Rivellino; Jairzinho, Tostão e Pelé %u2012 só jogou junto três vezes: estreia (4 a 1 sobre a Tchecoslováquia), semifinal (3 a 1 diante do Uruguai) e final (4 a 1 em cima da Itália). 

Na quarta-de-final (4 a 2 no Peru), Marco Antônio substituiu Everaldo. Nos cinco jogos de Guadalajara e no da Cidade do México (a decisão), o bem preparado time marcou 12 de seus 19 gols no segundo tempo, quando sobrava, e virou dois com autoridade (o primeiro e o quinto). Deu show de movimentação, troca de passes, contragolpes em velocidade e compactação. Construiu lances dignos de qualquer antologia de grandes momentos do futebol.

O último gol da epopeia foi um retrato perfeito do conjunto: sete jogadores participaram da jogada em que o capitão Carlos Alberto fechou a conta contra a Itália no emblemático 21 de junho. A Seleção Brasileira de 1970 permanece como a melhor síntese do que há de melhor no futebol. Por isso merece para sempre todas as honras.

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