Rio de Janeiro
Teixeira abriu a reunião dizendo que os presidentes de federações deveriam ter lhe ligado para saber o que de fato ocorria, alegando que em momento algum foi a público dizer que renunciaria ou se afastaria. Calados e sem graça, todos ouviram o que o chefe tinha a dizer, sem questioná-lo. A única vez em que mostrou fragilidade foi ao falar da saúde, abalada por diabetes e diverticulite. Ele avisou aos filiados que hoje mesmo fará exames que podem ser decisivos para sua recuperação. Dependendo dos resultados, não descarta a possibilidade de afastamento por causa do problema.
Além do pito nos parceiros, o presidente propôs mudanças no estatuto da CBF, mas pouco significativas. As eleições deverão ser anunciadas com o prazo mínimo de um ano, e não seis meses, e em caso de afastamento definitivo de um vice, novas eleições serão feitas para indicar o substituto, da mesma região.
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RABO ENTRE AS PERNAS
Terminada a reunião, a maioria dos dirigentes saiu pelos fundos, sem falar com a imprensa. Apenas dois ou três gatos pingados deram as caras, mas sem declarar nada que pudesse comprometê-los. Eles sabem que terão de seguir a cartilha do comandante ao pé da letra, sob pena de se tornar desafetos. Teixeira também prometeu auxílio maior a cada federação – algo em torno de R$ 200 mil mensais como ajuda de custo.
Para o grupo de rebeldes, a decisão de Teixeira é satisfatória, pois evita um possível crescimento do poder paulista na entidade. Mas um deles disse à boca pequena ter dúvidas sobre sua permanência no cargo, pois a pressão popular, da imprensa, da Fifa e do governo federal deverá aumentar e acuar ainda mais o presidente da CBF. Para essa fonte, o mandatário vai esperar a poeira baixar para lançar um comunicado no site da entidade, afastando-se do cargo. “Ele sabe que o momento é delicado e que não tem respaldo para continuar.”
É a segunda vez que Teixeira tem a renúncia preparada, mas desiste, aconselhado por mentores como o ex-sogro, e ex-presidente da Fifa João Havelange. Na primeira, em 2001, conseguiu sobreviver à CPI do futebol e se manter. Mas agora, sem o apoio do governo federal, conta com um aliado que considera mais importante do que qualquer outro: a Rede Globo, que nesta semana garantiu os direitos exclusivos sobre os Mundiais da Rússia’2018 e do Catar’2022.
ENTENDA O CASO
Suposto desvio
» Em 15 de fevereiro, reportagem da Folha de S. Paulo mostrava a ligação entre Ricardo Teixeira e a empresa Ailanto, investigada por superfaturamento no amistoso entre a Seleção Brasileira e Portugal, no Distrito Federal, em 2008. Na época, a empresa recebeu R$ 9 milhões para organizar o jogo, vencido pelo Brasil por 6 a 2. A Polícia Civil abriu inquérito para investigar o desvio e o caso corre na Justiça do DF
Escândalo
» Além disso, enfrenta acusação de estar envolvido no maior escândalo da história da Fifa. O chamado dossiê da ISL, ex-agência de marketing da entidade, falida em 2001, será avaliado pela Corte Federal da Suíça e tem documentos considerados comprometedores para Teixeira. O processo tramita desde 2008 e investiga se dirigentes receberam propina em negociação pelos direitos de transmissão de Copas do Mundo. Com prestígio em baixa, perdeu força para virar o sucessor de Joseph Blatter na presidência da Fifa após a Copa de 2014, no Brasil
Isolamento
» O amistoso teria sido o estopim e se juntou a outros problemas enfrentados pelo presidente da CBF. Teixeira foi deixado de lado pela Fifa, que passou a tratar diretamente com o governo federal sobre a organização da Copa de 2014. No âmbito interno, o isolamento foi aprofundado depois de a presidente Dilma Rousseff alijá-lo das discussões sobre o Mundial
Má fase
» A crise passa também pela má fase em campo, com a Seleção eliminada das últimas Copas do Mundo e desclassificada precocemente nas quartas de final da Copa América
Saúde em baixa
» Diabético, em 29 de setembro, foi internado em um hospital no Rio apresentando dores abdominais. O boletim médico acusava uma diverticulite (inflamação na parede do cólon, ligado ao intestino grosso) sem gravidade. Assim, faria tratamento apenas com antiinflamatório, analgésico e uma alimentação regulada, sem necessidade de cirurgia
Manobra
» Seu mandato vai até 2015 graças a uma manobra no estatuto da confederação. Em 2008, ele conseguiu convencer os presidentes das federações estaduais a estender a gestão, de quatro para sete anos, para “não interferir” nos preparativos para a Copa-14.